Tipos de trauma: quando um dia virou o seu jeito de ser

Homem de pé em uma sala comum na luz do fim da tarde, de camiseta, mãos apoiadas atrás da cabeça, cabeça baixa, visto de perfil

 

“Eu sempre fui assim.”

É uma das frases mais repetidas por quem procura ajuda, e quase sempre ela vem com um encolher de ombros, como quem já encerrou o assunto. Sempre fui ansioso. Sempre fui fechado. Sempre tive dificuldade com gente.

Só que “sempre” não é uma explicação. É uma data que ninguém conferiu, e que possivelmente existe.

Existem dois desenhos diferentes de trauma. Um vem de um acontecimento, tem dia e hora, e a pessoa consegue apontar. O outro vem de algo que se repetiu por anos, geralmente cedo, e não aparece na memória como cena: aparece como jeito de ser. O segundo é muito mais comum e quase nunca é reconhecido, justamente porque parece personalidade.

 

A pancada e a água

Uma pancada deixa marca. Dá para apontar o lugar, dizer o dia, mostrar para alguém.

Água pingando na mesma pedra por dez anos não deixa marca nenhuma. Muda o formato da pedra.

E aqui está a parte que interessa: a pedra não lembra de nenhum pingo em particular. Nenhum deles foi grande o bastante para virar lembrança. Por isso ela conclui, sem má-fé, que sempre teve esse formato.

É exatamente o que acontece com quem viveu o segundo tipo. Não existe uma cena para contar. Existe uma pessoa que não sabe relaxar, que se antecipa a todo mundo, que pede desculpa antes de falar, e que acha que isso é simplesmente quem ela é.

 

Como é o trauma de um acontecimento só?

É o desenho que quase todo mundo consegue reconhecer, porque tem começo.

A Organização Mundial da Saúde descreve o estresse pós-traumático com três marcas que precisam aparecer juntas. Reviver o acontecimento no presente, em lembranças que invadem, flashbacks ou pesadelos. Evitar pensamentos, lugares, situações e pessoas que lembrem aquilo. E viver com a sensação permanente de ameaça, que aparece como hipervigilância ou como um susto exagerado com barulhos comuns.

Repare que os três giram em torno de um acontecimento identificável. Um acidente. Um assalto. Uma perda súbita. Uma agressão.

Quem tem esse desenho costuma saber que tem alguma coisa. Sofre, mas não duvida da própria história. Sabe apontar o antes e o depois.

 

E quando não foi um dia, e sim uma temporada?

Aí o desenho é outro, e a própria classificação da OMS trata dele em separado.

O estresse pós-traumático complexo aparece, segundo a descrição oficial, sobretudo depois de acontecimentos prolongados ou repetidos, dos quais escapar era difícil ou impossível. A lista de exemplos inclui violência doméstica prolongada e abuso repetido na infância.

Para ele valem todas as exigências do estresse pós-traumático, mais três coisas que a classificação descreve como severas e persistentes. Dificuldade grave de regular as próprias emoções. Crenças sobre si mesmo como alguém diminuído, derrotado ou sem valor, acompanhadas de vergonha, culpa ou sensação de fracasso. E dificuldade de sustentar relações e de se sentir próximo das pessoas.

Esse último ponto engana. Não quer dizer não ter ninguém. Muita gente com esse desenho tem casamento longo, amigos de vinte anos e filhos, e mesmo assim não consegue se sentir perto de verdade dentro disso.

Leia essa lista de novo pensando em alguém que você conhece. Não são sintomas que a pessoa relata como sintoma. São coisas que ela relata como quem ela é.

Pete Walker, terapeuta americano que escreveu Complex PTSD: From Surviving to Thriving, o livro mais lido sobre esse quadro, resume o que o distingue em cinco marcas. Flashbacks emocionais, uma vergonha que gruda na identidade, o hábito de abandonar a si mesmo, um crítico interno cruel e ansiedade social. Nenhuma delas se parece com a imagem que as pessoas têm de trauma.

 

Por que o segundo tipo passa despercebido por anos

Porque ele não se apresenta como sofrimento. Se apresenta como caráter.

Quando algo acontece uma vez, existe um contraste. Você era de um jeito, aconteceu, e você ficou de outro. Quando algo é a temperatura da casa em que você cresceu, não existe contraste nenhum. Aquilo não é um evento na sua vida, é o fundo dela.

Some-se a isso a idade. Quanto mais cedo, menos palavras havia para registrar, e mais aquilo se guardou como jeito de reagir em vez de história. Foi disso que tratei em o que é trauma emocional: o que ficou não é a lembrança, é a resposta.

E existe um detalhe na CID-11 que quase ninguém repara, e que muda a conversa inteira. Na ficha do estresse pós-traumático complexo, entre as exclusões, está escrito: transtorno de personalidade. A própria Organização Mundial da Saúde marca que isso é uma coisa e personalidade é outra.

Não é um detalhe burocrático. Muita gente com esse desenho já ouviu que é difícil, dramática, intensa demais, fria demais. Já foi tratada como temperamento aquilo que era consequência. E quando quem machucou foi justamente quem deveria proteger, a confusão fica ainda maior, porque não sobra nem o contraste entre casa e perigo. Escrevi sobre isso em trauma de traição.

 

Qual é o meu?

Não dá para fechar isso lendo um texto. E desconfie de qualquer lugar que prometa fechar.

O que dá para fazer é uma pergunta que localiza sem diagnosticar: quando você tenta explicar o que sente, você conta um acontecimento ou descreve um jeito de ser?

Se sai um acontecimento, o primeiro desenho provavelmente está em jogo. Se sai uma descrição sua, sem cena nenhuma, e ela vem acompanhada, ou não, de “sempre fui assim”, vale olhar para o segundo com mais atenção.

E existe uma terceira resposta, que é a mais comum de todas: os dois. Um acontecimento recente em cima de um terreno que já estava assim há muito tempo. Isso não é confusão sua, é como a coisa costuma se apresentar de verdade.

 

O que muda quando você sabe qual é?

Muda o alvo do trabalho, e isso não é pouco.

Quando o desenho é de acontecimento único, o trabalho se organiza em torno daquilo: o que ficou preso naquele episódio, e como o sistema volta a distinguir presente de passado. Quando o desenho é de repetição, não existe episódio para processar. O trabalho é outro: reconstruir regulação, refazer a relação com o próprio valor, e aprender uma proximidade que nunca foi segura. É esse trabalho, e como ele começa, que muda conforme o desenho do que você viveu.

Confundir os dois é o motivo mais comum de alguém sair de uma terapia dizendo que entendeu tudo e continua igual.

 

Perguntas que aparecem sempre

 

Quais são os tipos de trauma, afinal?

Na classificação da OMS, em vigor desde 2022, existem dois quadros distintos ligados a eventos traumáticos: o estresse pós-traumático, ligado a acontecimentos identificáveis, e o estresse pós-traumático complexo, ligado a acontecimentos prolongados ou repetidos dos quais era difícil escapar. Fora deles ainda existe a reação aguda ao estresse, o choque das primeiras horas, que a OMS nem classifica como transtorno.

Trauma complexo é mais grave que o simples?

Não é uma escala de sofrimento, é um desenho diferente. O complexo exige tudo o que o outro exige e mais três camadas, então costuma afetar mais áreas da vida. Isso não torna o sofrimento de quem tem o outro menos real nem menos digno de cuidado.

Se eu não lembro de nada específico, ainda pode ser trauma?

Pode, e é característico do segundo tipo. Ausência de cena não é ausência de marca. O que se procura não é a lembrança, é o padrão de resposta que ficou.

Isso é personalidade ou é trauma?

A CID-11 lista transtorno de personalidade como exclusão do estresse pós-traumático complexo, ou seja, trata os dois como coisas diferentes. Na prática, muito do que a pessoa chama de personalidade é uma adaptação que funcionou bem em um ambiente que já acabou.

Você não precisa ter um acontecimento para contar. Se o que existe é só um jeito de ser que te cansa há muito tempo, isso já é assunto suficiente. Não precisa nomear nada antes de começar. Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com formação em Psicotraumatologia e extensão universitária em Psicologia Analítica. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o assunto, leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.

E a gente combina o horário da sessão de acolhimento, que é gratuita.