Este texto fala sobre algo que talvez você tenha carregado em silêncio por muito tempo.
O ritmo é seu. Se o corpo pedir pausa, pause. Não precisa terminar de uma vez.

O celular na mão, ou o notebook aberto. Uma pesquisa que começou em aba anônima foi ficando mais específica e chegou a uma página de contato. Talvez esta. Talvez outra.
O cursor para em cima do botão de agendar.
E a barreira sobe. O coração acelera um pouco, a respiração fica presa no alto do peito, e uma voz que você conhece bem diz: “Deixa pra lá. Eu dou conta. Já sobrevivi até aqui sem isso.”
A aba fecha. Mais um mês, às vezes mais um ano. E saiba que isso é normal, tá?
A psicoterapia para homens que sofreram abuso sexual começa pelo presente, não pelo que aconteceu. O primeiro trabalho é construir segurança e regular o que o corpo sente hoje: o alarme que não desliga, o sono, a irritação que aparece na hora errada. Ninguém pede que você conte o abuso para começar, e quem decide o ritmo é o seu sistema nervoso, não um cronograma. Antes da primeira sessão existe uma conversa de acolhimento, para você entender como o trabalho funciona antes de decidir qualquer coisa.
Para um homem sobrevivente de abuso sexual na infância, esse movimento de chegar perto e recuar é o sistema nervoso fazendo exatamente o que aprendeu a fazer quando se abrir e confiar representava perigo. O seu corpo está sendo coerente com a sua história.
O que trava não é você. São as mentiras que circulam sobre o que terapia é e sobre o que ela exige de quem entra.
Quase sempre são crenças que ele carrega sem perceber, e são elas que mantêm o cursor parado. Vale olhar uma por uma.
“Eu deveria conseguir resolver sozinho.”
É a mais comum, e a mais cruel para quem foi criado numa cultura que equipara pedir ajuda a falta de capacidade. Mas você não refaria a fiação elétrica da casa só porque sabe ligar uma tomada. Para o que exige conhecimento especializado, procurar quem tem esse conhecimento é inteligência aplicada no lugar certo.
“Se eu for ao terapeuta, estou admitindo que estou quebrado.”
Não. Você está admitindo que algo aconteceu com você e deixou marcas reais, e que essas marcas merecem atenção especializada. Procurar ajuda não é confessar falha. É dar ao sistema nervoso o que ele precisa para processar o que ficou preso.
“Não está tão ruim assim. Tem gente em situação pior.”
É assim que a vergonha se mantém. Quanto de dor é suficiente para justificar ajuda? Quantos anos de insônia, de relacionamentos que desandam, de alerta que não desliga? Esperar a crise costuma deixar o caminho mais longo, e reconhecer o que está acontecendo enquanto ainda há espaço para trabalhar é uma decisão inteligente.
“As pessoas vão saber. Vão me julgar.”
Não vão saber. O sigilo não é cortesia do terapeuta: revelar segredo obtido no exercício da profissão é crime previsto no Código Penal, no artigo 154. Nada do que acontece numa sessão sai dela sem a sua autorização, a não ser nas poucas exceções que a própria lei prevê, como risco à vida ou ordem judicial. Quem sabe, quando sabe e o que sabe continua sendo decisão sua.
“Vou perder o controle. Vou falar de coisas que não quero.”
Esse medo faz todo sentido para quem sofreu abuso sexual na infância. O abuso tirou o controle sobre o próprio corpo e sobre o que acontecia. Um processo que repita essa dinâmica não é terapia focada em trauma: é o padrão se repetindo num lugar diferente.
No trabalho que faço, o freio está sempre com você.
Porque o formato da sessão, duas pessoas numa sala fechada e em sigilo, pode ecoar o ambiente em que o abuso aconteceu. Isso raramente é dito a um homem sobrevivente de abuso sexual que está pensando em começar, e faz diferença saber.
O setting terapêutico é a moldura do trabalho: o lugar, o horário, as regras, a forma do encontro. A pesquisadora Eva Maria Migliavacca, do Instituto de Psicologia da USP, o descreve como uma moldura viva, que sustenta o que acontece dentro dela. Para a maioria das pessoas, essa moldura é só o jeito de a terapia funcionar. Para quem sofreu abuso na infância, a porta fechada e o segredo podem lembrar algo muito mais antigo.
O atendimento online muda algo real nessa equação. Você não entra num consultório desconhecido, não senta num sofá que não é seu, não fecha uma porta atrás de si. A sessão acontece onde você já se sente relativamente seguro, e é você quem escolhe onde sentar, como posicionar a câmera, se quer fone ou um café do lado. Para um sistema nervoso com histórico de trauma, começar num espaço que é seu não é detalhe: o corpo percebe a diferença antes de você pensar nela.
Isso não quer dizer que o online resolva tudo. A tela pode parecer estranha no começo, distante demais ou próxima demais, e talvez você ainda não saiba se prefere online ou presencial. Não precisa decidir como vai se sentir antes de tentar.
E, como no presencial, você pode pausar ou encerrar a sessão a qualquer momento, até fechar o notebook ou desligar o celular se precisar. Isso nunca é lido como falha ou resistência: é informação sobre o que o seu sistema nervoso consegue naquele dia.
A abordagem começa pela segurança e pelo presente, e não pelo relato do que aconteceu.
A imagem que muitos homens têm de terapia para trauma sexual é outra: você senta, o terapeuta pergunta o que aconteceu, você é levado de volta ao pior momento da sua vida, desmorona e não consegue se juntar de novo. Se a terapia fosse isso, eu também fugiria.
Mas não é.
A Psicotraumatologia tem uma regra que não se negocia: não retraumatizar. Falar de dores profundas sem antes preparar o sistema nervoso é como operar sem anestesia: não é coragem, é dano. É por isso que entender o que aconteceu não basta, e o trabalho começa pelo que está acontecendo hoje: a construção de segurança, a estabilização, a experiência de estar diante de outro ser humano sem ser julgado, pressionado ou levado a algum lugar antes de estar pronto.
Você não vai ser obrigado a contar nada no primeiro dia, nem no segundo. Se quiser saber como essa primeira hora funciona, leia o que acontece na primeira sessão.
O primeiro é a titulação. Titulação é trabalhar a dor em doses pequenas, menores do que você imagina que seriam necessárias, porque o sistema nervoso precisa de tempo para integrar cada uma antes da próxima. Quem dita o ritmo é o corpo, e não o cronograma de ninguém. Por isso, nas primeiras sessões, o foco é construir recursos e viver a experiência, talvez nova, de estar num espaço seguro sem que o alarme dispare. Isso não é preliminar. É o trabalho.
O segundo pilar é a retomada da agência. O abuso sexual na infância é, por definição, uma experiência em que o poder de escolha foi retirado, e uma terapia que pressiona, direciona ou decide o ritmo por você só repete esse padrão num lugar diferente. O poder de escolha que o abuso tirou de você é o poder que o processo devolve.
Na prática, isso quer dizer que você pode dizer que não quer falar de algo, pedir para mudar de assunto ou para fazermos um exercício de regulação em vez de seguir numa conversa que ficou pesada. Pode também ficar em silêncio. Nada disso decepciona, nem é lido como resistência.
Aos poucos, e com o direito de testar antes. Para um homem sobrevivente de abuso sexual na infância, sentar na frente de alguém com autoridade e abrir a própria história é um dos movimentos mais contraintuitivos que existem. Você aprendeu, da forma mais concreta possível, que quem tem autoridade pode trair, e que abaixar a guarda tinha consequência.
Esse aprendizado não desliga na porta do consultório.
Mike Lew, que escreveu o primeiro livro voltado para homens sobreviventes, compara a confiança ao motorista cuidadoso que entra numa rodovia: primeiro olha o que vem pela frente, depois entra na faixa mais lenta, e só ganha velocidade à medida que conhece o trajeto. Ninguém com juízo atravessa três faixas de uma vez.
Com a confiança na terapia é igual. Ela não precisa ser entregue de uma vez: pode ser construída aos poucos e testada. Você pode expressar desconfiança, me dizer quando algo não parece certo e questionar a direção do processo. Um terapeuta preparado para trabalhar com homens sobreviventes recebe a desconfiança como parte do trabalho, e não como ofensa. Viver a experiência de confiar em alguém com autoridade sem ser traído já é, em si, parte do processo.
Não precisa, mas a experiência direta traz um reconhecimento que não tem substituto. Essa pergunta aparece às vezes em voz alta, às vezes só como um pensamento que fica: “Alguém que não viveu isso consegue entender de verdade?”
Outro sobrevivente sabe de dentro o que é carregar aquilo, e isso tem valor real. Mas não é o único caminho para um trabalho de qualidade. Um terapeuta que não viveu abuso sexual pode ter um entendimento profundo e uma presença genuína, desde que tenha se dedicado a aprender e a ouvir sobreviventes com a mente aberta. Na escolha de um terapeuta para trauma de abuso sexual, a qualidade da presença e o preparo específico pesam mais do que a história pessoal dele.
No meu caso, sou eu mesmo um sobrevivente de abuso sexual na infância. Não menciono isso como credencial nem para criar uma identidade de dor compartilhada, até porque cada história é única, e a minha não é a sua. O meu trabalho não é projetar a minha experiência na sua, é estar presente com o que você traz.
Menciono porque é parte de quem eu sou e de como acompanho quem chega até mim. Sei de dentro o que é construir uma vida sobre um silêncio que pesava mais do que qualquer coisa visível, e sei que esse silêncio pode encontrar um espaço onde exista sem causar mais dano.
Observe se ele fala do tema com clareza, sem eufemismo e sem excesso clínico, e se você consegue perguntar sem se sentir avaliado. Um terapeuta preparado para homens sobreviventes de abuso sexual entende a diferença entre o abuso masculino e as histórias que a cultura contou sobre ele. Sabe que congelar foi uma resposta do corpo, e não falta de coragem. Sabe também que a reação física durante o abuso não é consentimento, e que o abuso cometido por mulheres é real e deixa marcas reais.
Na primeira conversa, repare: as respostas fazem sentido sem precisar de glossário? Você sente que está sendo ouvido ou avaliado?
O que deve afastar você na hora:
O processo é seu, e isso inclui o direito de perguntar.
Dá para perguntar antes de começar, e um profissional preparado responde sem se defender. A primeira conversa é de mão dupla: você também está avaliando quem vai te acompanhar.
Quase ninguém chega com a pergunta que trouxe até aqui. Primeiro vêm as perguntas sobre a sessão, sobre como funciona, sobre horário. A pergunta sobre eu atender homens que passaram por abuso sexual costuma vir depois, às vezes bem depois. E muitas vezes vem junto um receio que ninguém diz: o de que perguntar já obrigue a contar. Não obriga.
Lew sugere levar as perguntas escritas, para nenhuma se perder na hora. Algumas que valem para este caso:
A última não tem resposta em número, e quanto tempo dura uma terapia de trauma explica por quê. Repare menos no conteúdo de cada resposta e mais em como ela chega. Pressa, desconforto ou uma resposta vaga diante dessas perguntas já são informação.
Pode fazer, e não existe resposta certa. Lew lembra que o corpo às vezes reage a um detalhe que a cabeça nem registrou: uma voz que lembra a de alguém, um perfume, um jeito de sentar. Quando isso acontece, a escolha não precisa de explicação racional para valer.
Para um homem abusado por outro homem, sentar diante de um terapeuta homem pode ser o mais difícil, ou pode ser exatamente o que ele precisava viver de outro jeito. O mesmo vale ao contrário, para quem foi abusado por uma mulher. O que decide a escolha do terapeuta não é o gênero, é a sensação de segurança no corpo e o preparo do profissional para este tema. E dá para dizer isso em voz alta logo na primeira conversa. Você pode começar, ver como o corpo responde nas primeiras sessões, e mudar de ideia.
Não é preciso esperar o medo passar para dar o primeiro passo. Ele é real, e costuma aparecer justamente quando você está mais perto de agir, como se o sistema nervoso percebesse que algo está para mudar e acionasse todos os alarmes de uma vez.
Você não precisa estar pronto para tudo antes de começar: nem saber o que vai dizer, nem ter a história organizada, nem ter certeza de que vai conseguir falar sobre o que aconteceu. Pode chegar como está, com o medo e com a dúvida de que isso seja para você. Isso não é obstáculo. É o ponto de partida.
E se o medo é o de que, uma vez dentro, você não consiga sair, vale lembrar ao corpo que a escolha continua sua. Dá para pausar, encerrar a sessão, ou decidir que nesta semana você não quer continuar. Isso é o exercício da agência que o abuso tentou tirar.
Sentir isso no corpo antes da primeira sessão, a experiência concreta de que o freio é seu, já é parte do processo.
É um encontro que começa pelo que aperta o peito hoje, e não pelo passado. O meu trabalho não é conduzir você de volta ao abismo das memórias, nem insistir quando você recua, nem ter uma agenda sobre onde você precisa chegar ou em quanto tempo.
Antes de qualquer coisa ligada ao passado, o compromisso é com o presente: o alarme que não desliga, a insônia, a irritação que aparece na hora errada e o vazio que você tenta preencher e que volta. Desde as primeiras sessões existe espaço para trabalhar recursos concretos para quando o sistema nervoso disparar.
Também faz parte entender o que está acontecendo dentro de você, sem jargão. Entender por que o corpo congela, ou por que você afasta quem ama, não desliga nada sozinho. Mas pode tirar um pouco do peso da vergonha, quando o que parecia sem sentido passa a ter uma lógica.
E o trabalho é maior do que o abuso. Você não é apenas um sobrevivente: é um homem com projetos, com relacionamentos que importam e com um jeito próprio de estar no mundo. Há sessões em que o mais importante não é o trauma, é o que você quer construir a partir de onde está. Isso também tem espaço aqui.
Me especializei no atendimento a homens sobreviventes de abuso sexual porque sei, de dentro, o que é carregar algo que o mundo prefere não ouvir. Não porque tenho todas as respostas, mas porque há outro ser humano presente, que não foge, não julga e não precisa que a sua história seja diferente para conseguir ficar.
Você pode ter chegado até aqui carregando algo que a maioria das pessoas ao seu redor não vê. Construiu uma vida, manteve as aparências, funcionou, muitas vezes de forma admirável, com um peso que ninguém sabia que estava lá. Isso exigiu uma resistência que eu reconheço e respeito.
E resistência tem um custo. Você já sabe qual é.
Quando fizer sentido dar o próximo passo, o processo começa do jeito que precisa começar: no seu ritmo, e sem que nada seja exigido antes de você estar pronto.
Qual é o tratamento para homens que sofreram abuso sexual? É a psicoterapia focada em trauma. Ela começa pela estabilização e pela segurança no presente, e só depois, no ritmo do corpo, chega ao que ficou preso do passado. Não exige reviver o abuso nem contar tudo para começar.
Quanto tempo dura a terapia? Não existe prazo honesto. O tempo depende de quanto aquilo durou, de em que idade começou e do que está por cima hoje, e a medida mais confiável é olhar para trás: onde você estava nesta época no ano passado.
Preciso ter certeza de que foi abuso para começar? Não. Dá para começar com a dúvida, ou só com um incômodo que ainda não tem nome. Se a pergunta que te trava é foi abuso, mesmo?, ela já é um bom lugar para começar.
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Se o que está aparecendo agora é insuportável e você precisa conversar com alguém imediatamente, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188 ou pelo chat, gratuitamente e em sigilo. Para denúncias de violência sexual, o Disque 100 funciona 24 horas, também gratuito.
Não precisa chegar com as palavras prontas. Nem começar pelo começo. Dá para começar por onde está mais fácil hoje, ou pelo que nem tem nome ainda. Estou por aqui.

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia.
Autor do livro E se for trauma?, dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e brasileiros no exterior.
Se você estiver em crise ou precisando de apoio emocional imediato, não fique sozinho. Ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188, atendimento 24 horas. Para denúncias de violações de direitos humanos, disque 100.

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Online para o Brasil e para brasileiros no exterior.
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Reinaldo Soeira | Psicanálise e Trauma Masculino
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