
“Oi, [nome]. Como você está hoje?”
É essa a primeira frase. Com o seu nome no lugar do colchete.
Não é “me conte o que aconteceu”, e não é uma ficha com data de nascimento e histórico familiar. É um oi, o seu nome, e uma pergunta sobre hoje.
Na primeira sessão de uma terapia focada em trauma, ninguém vai te pedir para contar sobre o que aconteceu, sobre o abuso. Os cerca de cinquenta minutos servem para outra coisa: para você e o terapeuta se conhecerem, para você entender como o trabalho funciona, e para você decidir se quer voltar. E o que é decidido antes de a hora acabar não é um diagnóstico nem um plano de tratamento. É a data da próxima.
Este texto fala de algo que talvez você venha adiando há um tempo.
Uma coisa antes: normalmente essa não é a primeira conversa. Antes da primeira sessão existe uma conversa de acolhimento, e é ali que costumam ser explicados o método e a frequência. Para saber como ela funciona, dá para entrar em contato.
O que você preparou não vai ser cobrado. Muitos homens chegam nessa primeira hora carregando uma versão do que aconteceu: em ordem, com idade, com lugar, com o que dá e o que não dá para dizer em voz alta. Uma espécie de depoimento, ensaiado para o caso de alguém pedir.
Ninguém pede.
E existe um motivo técnico para isso, além do cuidado. Depoimento exige o que a memória do trauma não tem: linha do tempo, coerência, começo e fim. O que ficou de uma experiência que o sistema nervoso não pôde processar na hora raramente volta em forma de narrativa. Volta como sensação, como cheiro, como uma reação que chega antes da explicação. Cobrar um relato organizado de alguém nessa situação é cobrar a única coisa que o corpo não guardou desse jeito.
Irvin Yalom, que passou a vida escrevendo sobre o ofício de atender, descreve a sessão inicial como uma entrevista de mão dupla: ele entrevista o paciente, e o paciente aproveita para avaliar como seria trabalhar com ele. Você não está sendo examinado. Você está, também, examinando.
O que está sendo construído nesses cinquenta minutos é o vínculo, e não o relato. Não é conversa fiada: na literatura de psicoterapia, a aliança terapêutica, que é o nome técnico para a qualidade dessa relação de trabalho, aparece como o sinalizador mais consistente do que um processo produz. A revisão brasileira de Natacha Oliveira e Sílvia Benetti resume o estado da arte dizendo justamente isso. O que acontece entre duas pessoas na sala pesa mais do que a escolha da abordagem.
Na primeira sessão eu não faço questionamentos. Não faço pergunta que gere confusão, nem pergunta que deixe você pensando a semana inteira sem amparo nenhum. Não é falta de assunto. É que uma pergunta funda, feita antes de existir vínculo, abre uma porta e deixa você sozinho do outro lado dela até quarta que vem.
Yalom conta um caso que mostra isso melhor do que qualquer explicação. Uma paciente sonhou, na noite seguinte à primeira sessão, que estava num tribunal aberto e lotado, processando o próprio pai por estupro, e acordou às três da manhã conferindo as fechaduras da casa. Três dias depois, contou o sonho. Material de sobra para um terapeuta se sentir inteligente.
Yalom não interpretou nada disso. Perguntou se era perigoso se expressar livremente naquele consultório, e se ela tinha dúvidas sobre a privacidade dos encontros. O resto ele anotou e guardou. A frase dele é seca: nos primeiros estágios, a prioridade é a estrutura, ou seja, confiança, segurança e sigilo.
O sonho estava ali, com o pai e a palavra estupro dentro dele, e o terapeuta escolheu perguntar sobre as fechaduras da sala.
Se você travar, a sessão não quebra. Depende muito do que está acontecendo, e é por isso que não existe um protocolo de consolo aqui. Mas o que eu costumo fazer, quando o silêncio fica pesado, não é empurrar você para dentro dele. É explicar como a coisa funciona.
Explico a técnica psicanalítica, e que existem leituras diferentes para a mesma coisa, nenhuma delas para ser despejada em cima de você como veredito. Que você pode trazer o que quiser, inclusive o que parece não ter nada a ver. E que o sigilo é cumprido de verdade.
Repare no que isso faz com o minuto difícil. Em vez de mais uma pergunta sobre você, chega informação sobre o lugar onde você está. Para um sistema nervoso que aprendeu cedo a vigiar o ambiente, saber onde está é o que baixa a guarda, e nenhuma frase de acolhimento faz esse trabalho.
Mike Lew, que ouviu homens sobreviventes por décadas, escreve que quando um deles entra na sala pela primeira vez o nível de ansiedade e medo é tão alto que parece uma força física ali dentro. Ele passou por cima da vontade de cancelar, e ainda está segurando o impulso de sair correndo. A pergunta que Lew faz primeiro é “como você se sente por estar aqui?”, e ele diz que escuta a resposta e acredita nela.
Silêncio em sessão é informação sobre o que o seu sistema nervoso consegue naquele dia, e é assim que ele é lido. Chorar não interrompe nada. Ficar em branco também não.
Não, e nem na segunda. A menos que você queira, claro. Você tem o seu tempo, e ele não é negociado com o meu. Se o que der para dizer hoje é que o sono está ruim e que você anda sem paciência em casa, é por aí que se começa, porque é isso que está apertando hoje.
E para quem chega decidido a contar tudo de uma vez: é compreensível, mas preciso alertar que existe a possibilidade de gerar um novo trauma. Porque falar de uma dor funda antes de o sistema nervoso ter qualquer recurso para sustentar aquilo é o que a Psicotraumatologia chama de retraumatizar, e é exatamente o que não pode acontecer.
E existe a situação de quem não tem o que contar mesmo querendo. O branco na memória não é sinal de que foi leve, e quase sempre é o contrário: o que acontece com a memória quando ela apaga pedaços inteiros da infância tem explicação, e não é invenção sua. Você pode chegar numa primeira sessão sem certeza nenhuma do nome do que aconteceu. Dá para começar exatamente de uma dúvida que ainda não virou palavra.
Do jeito que você pensar em chegar, pode chegar.
Sim, e não por delicadeza do profissional. Revelar segredo obtido em razão de ofício ou profissão, sem justa causa, é crime no Código Penal brasileiro, no artigo 154. No Código de Ética do psicólogo, o artigo 9º diz que respeitar o sigilo é dever, e que ele existe para proteger a intimidade de quem é atendido.
As exceções são poucas e estão definidas em lei, e envolvem risco à vida ou determinação judicial. O mesmo código trata disso no artigo seguinte, e a régua é decidir pelo menor prejuízo para quem está sendo atendido. Você pode perguntar isso na primeira sessão, e a resposta não deveria vir na defensiva.
O que essa informação faz, na prática, é tirar o sigilo do terreno da confiança cega. Você não precisa acreditar na minha palavra. O sigilo da sessão não depende do caráter do terapeuta: é obrigação legal e ética, e tem consequência quando é rompido.
No fim da primeira sessão o que se decide é a próxima data, dita em voz alta. “Nos vemos na quarta que vem.” É isso.
Não sai dali um laudo, nem uma interpretação da sua vida, nem uma tarefa para a semana. A frequência normalmente já foi combinada na conversa de acolhimento, junto com a explicação do método. Existe contrato, e ele é assinado nas primeiras sessões, com as regras do trabalho por escrito.
E não sai dali nenhum cronograma. Ninguém vai te dizer quantas sessões isso vai levar, e quanto tempo dura uma terapia de trauma é uma pergunta grande o suficiente para ter um texto só dela.
Sobre como o trabalho segue depois dessa primeira hora, com os dois pilares que sustentam o processo, escrevi à parte.
Você está lendo sobre uma hora que ainda não aconteceu, e isso já é o sistema nervoso trabalhando. Antecipar, mapear, saber onde ficam as saídas antes de entrar num lugar novo é o que um corpo faz quando aprendeu cedo que ambiente desconhecido pede vigilância.
Não tem nada para corrigir aí. A diferença é que dessa vez a informação existe, e você pode chegar sabendo que a primeira frase é um oi.
Uma última coisa, e ela é de Mike Lew, não minha. Ele sugere que o sobrevivente chegue na conversa inicial com uma lista de perguntas escritas, e diz que não tenha medo de aparecer com uma lista comprida. Honorários, formação, experiência com sobreviventes, sigilo, o que o profissional acha de choro e de raiva na sessão. Lew é direto: um terapeuta responsável fica satisfeito de responder, e quem não se dispõe a dar a informação de que você precisa não é o profissional para você.
Quanto tempo dura a primeira sessão?
Em torno de cinquenta minutos. Às vezes passa um pouco, e isso não é sinal de que algo deu errado. O que não acontece é a sessão se esticar porque você “precisa terminar de contar”.
Tem contrato, ficha, alguma coisa para assinar?
Tem contrato, e ele é assinado nas primeiras sessões. Serve para deixar por escrito as regras do trabalho, inclusive as suas.
Posso levar perguntas escritas para fazer ao terapeuta?
Pode, e Mike Lew recomenda exatamente isso. A primeira conversa é de mão dupla, e avaliar o profissional que vai te atender faz parte do seu trabalho, não do dele.
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Você não precisa saber o que dizer. Não precisa estar pronto, nem falar do que aconteceu. Pode ser só sobre como está sendo hoje. Estou por aqui.

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.
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Reinaldo Soeira | Psicanálise e Trauma Masculino
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