Abuso Sexual na Infância e Adolescência em Homens: O Guia sobre Trauma, Silêncio e Recuperação

Este texto fala sobre algo que talvez você tenha carregado em silêncio por muito tempo.
O ritmo é seu. Se o corpo pedir pausa, pause. Não precisa terminar de uma vez. O texto continua aqui quando você voltar.

Capa-Abuso Sexual na Infância e Adolescência em Homens - O Guia Completo sobre Trauma, Silêncio e Recuperação

“Sinto que é importante compartilhar algo que tem o potencial de mudar radicalmente a forma como você se percebe de agora em diante: o trauma não está no passado. O trauma é o agora.” — Reinaldo Soeira, do livro E se for Trauma?

 

A Sobrevivência e o Silêncio

 

Talvez você carregue o trauma do abuso sexual na infância há anos. Talvez décadas.

Sem saber ao certo o que é. Mas sentindo aquela coisa que aparece nos momentos errados, escondida atrás de uma agenda cheia, de uma postura que nunca fraqueja, de uma exaustão que você não consegue explicar para ninguém porque nem você mesmo entende direito de onde vem.

Você aprendeu a não falar. E provavelmente aprendeu isso cedo.

Sobre o quanto isso é comum, existem duas informações. 

A primeiro é global. O UNICEF divulgou em 2024 a primeira estimativa mundial de violência sexual na infância. Entre 240 e 310 milhões de meninos e homens vivos hoje, cerca de um em cada onze, sofreram estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos. Quando entram as formas sem contato físico, o número sobe para algo entre 410 e 530 milhões.

A segundo é brasileira. 

Entre 2015 e 2021, meninos apareceram em 23,2% das notificações de violência sexual contra crianças no Brasil. Só que o próprio boletim epidemiológico do Ministério da Saúde que traz esse número reconhece a subnotificação entre meninos, e atribui isso a estereótipos de gênero.

O órgão que conta os casos escreveu, no próprio relatório, que a conta não fecha. Porque o país acredita que isso não acontece com meninos.

O número brasileiro não mede quantos meninos foram abusados. Mede quantos chegaram a algum lugar onde alguém preencheu uma ficha.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reconheceu oficialmente essa invisibilidade: a violência sexual contra meninos é uma realidade historicamente abafada no Brasil, sustentada por uma expectativa de masculinidade que não deixa espaço para o que você viveu.

Você não é uma exceção estatística. Você é parte do número que ninguém consegue contar.

Estamos falando de algo mais comum do que diversas doenças que têm campanhas  dedicadas a elas. E ainda assim, o silêncio persiste.

Não porque os homens que passaram por isso sejam fracos. Mas porque o silêncio foi ensinado pela cultura, pela família, às vezes pelo próprio agressor.

Se você chegou até aqui, provavelmente reconhece algo do que estou descrevendo.

Talvez seja a ansiedade que aperta o peito em situações que deveriam ser simples. A dificuldade de confiar, mesmo em pessoas que nunca te decepcionaram. A sensação de estar presente no corpo mas ausente da própria vida.

Isso tem explicação. Não é fraqueza, não é exagero, não é algo que você inventou.

É a forma que o trauma ficou congelado e este guia existe para te ajudar a entender o que está acontecendo dentro de você, com a compaixão que essa história merece.

 

O peso do machismo estrutural e o silêncio imposto

 

 

Por que tantos homens demoram tanto para buscar ajuda?

Não é falta de coragem. É que, desde cedo, a cultura tratou de ensinar que o que aconteceu com eles não foi o que aconteceu.

Existem crenças que circulam sem nenhuma base científica, mas com uma força social enorme. Você pode ter ouvido alguns deles. Pode até ter acreditado, por um tempo, que eram verdade:

Que meninos não podem ser abusados.

Que só os “fracos” permitem.

Que se o corpo reagiu de alguma forma, havia consentimento.

Que o abuso muda quem você é, muda sua sexualidade, sua identidade, o que você merece.

Esse último é particularmente cruel e age de formas diferentes dependendo de quem você é.

Para o homem heterossexual, instala um medo irracional de que o trauma tenha alterado sua orientação.

Para o homem gay, cria uma confusão devastadora: a ideia de que sua identidade seria uma consequência do abuso, e não algo que sempre foi seu.

Em ambos os casos, o efeito é o mesmo, mais silêncio, mais isolamento, mais vergonha carregada sozinho.

Fui procurar o que as pessoas escreveram sobre isso especificamente — sobre o homem adulto que foi abusado quando menino. Encontrei quase nada. E a falta não é só de bibliografia. É a mesma dificuldade de sempre, aparecendo em outro lugar: a de nomear um menino como vítima.

Manter a fachada de que está tudo bem tem um custo. A energia que vai para sustentar essa imagem é energia que deveria estar na sua vida, nos seus vínculos, nos seus projetos, no seu descanso.

E quando o abuso foi cometido por uma mulher?

A invalidação ganha outra camada. O mundo frequentemente trata o que foi uma violação como privilégio. “Sorte.” “Rito de passagem.” Frases que apagam o que você viveu e trancam ainda mais fundo o direito de nomear a sua dor.

 

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Quando o perigo mora perto: a quebra da confiança

 

A imagem que a maioria das pessoas tem de violência é de algo que vem de fora, por um estranho, um lugar escuro, um momento isolado.

O abuso sexual na infância quase nunca é assim.

Na maioria dos casos, ele vem embrulhado em rotina. Em carinho. Em alguém que você via todo dia, seja um parente, um professor, um líder religioso, um treinador. Alguém em quem você confiava porque precisava confiar. 

Isso não é impressão clínica. Nas notificações brasileiras entre 2015 e 2021, o agressor tinha vínculo familiar ou de proximidade com a criança na maior parte dos casos, e era homem em cerca de 82% deles. O perigo raramente veio de fora. Veio de dentro da rotina. Uma criança não sobrevive sem confiar nos adultos ao redor.

Quando o perigo vem de quem deveria ser proteção, o cérebro infantil enfrenta um paradoxo que não tem solução simples: não dá para fugir de quem você depende. Então o sistema nervoso faz o que pode e aprende a desligar o alarme. A continuar funcionando. A ir para a escola na segunda de manhã como se nada tivesse acontecido.

Mas esse aprendizado deixa marca.

Talvez você tenha chegado à vida adulta com uma sensação difusa de que carinho e obrigação andam juntos. Que atenção tem um preço. Que se você baixar a guarda, algo vai acontecer. Não como pensamento consciente, mas como reflexo. Como o jeito que o seu sistema nervoso aprendeu que o mundo funciona.

Isso não é paranoia. É a lógica de sobrevivência de uma criança que fez o que precisava fazer para continuar existindo.

 

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A neblina do cérebro: “Por que eu não lembro de tudo?”

 

A neblina do cérebro e memória de homens que forevam violencia sexual

 

Esse é um dos sofrimentos que aparecem com mais frequência no consultório.

O momento chega com flashes, com um cheiro que provoca uma reação desproporcional, uma imagem que passa rápido demais para segurar, um mal-estar em situações que deveriam ser neutras. Mas sem a história completa.

E aí vem a dúvida que corrói por dentro: “Se foi tão grave, por que eu não consigo lembrar direito? Será que estou inventando?”

Essa dúvida, por si só, já é uma forma de sofrimento.

A memória fragmentada não é sinal de que o abuso foi leve. É quase sempre o contrário. Quando uma criança vive algo do qual não pode escapar e não pode pedir ajuda, o cérebro toma uma decisão de proteção: não armazena a memória de forma linear. Divide. Esconde o núcleo. 

Isso tem nome: amnésia dissociativa. E não é fraqueza. É o seu cérebro funcionando exatamente como deveria funcionar diante de algo insuportável.

Você não inventou nada. Seu corpo guardou o que era pesado demais para carregar de forma inteira e está esperando o momento certo, no ambiente certo, com a segurança necessária, para que as peças possam ser reunidas sem te destruir no processo.

 

O Corpo Sobrevivente

 

Muitos homens chegam ao consultório depois de um tempo tentando resolver isso pela cabeça.

Leram sobre trauma. Entenderam os fatos. Conseguem explicar, da forma que é possível, o que aconteceu e por quê. E ainda assim a ansiedade continua. A sensação de perigo não vai embora. O corpo não recebeu o recado.

Isso não é falha de compreensão. É anatomia.

A Psicotraumatologia moderna e a Experiência Somática trabalham a partir de outro lugar: o trauma não fica guardado nos pensamentos. Ele fica preso no sistema nervoso. E sistema nervoso não responde a argumentos, ele responde a experiência, a ritmo, a segurança construída ao longo do tempo.

 

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O passado invadindo o agora: entendendo o Trauma Complexo (TEPT-C)

 

Talvez você já tenha recebido um diagnóstico. Ansiedade Generalizada. Síndrome do Pânico. Depressão.

Esses nomes existem e podem até ser precisos em parte. Mas para um homem que viveu violações repetidas durante o crescimento, eles frequentemente não explicam tudo. O que você vive tem uma camada a mais, e ela tem nome: Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C).

A ansiedade comum vive no futuro. “E se eu perder o emprego? E se eu não conseguir pagar essa conta?” É o medo de algo que ainda não aconteceu.

A ansiedade do TEPT-C vive no passado que insiste em aparecer como se fosse agora.

É o que chamamos de flashback emocional. Não necessariamente uma cena clara que você revive, mas às vezes é apenas um tom de voz que muda de repente. Um silêncio que dura dois segundos a mais. Uma aproximação física sem nada de errado. E o corpo já reagiu antes de você entender o porquê o coração acelerou, os ombros subiram, alguma coisa dentro de você entrou em modo de alerta.

Você estava seguro. Mas o seu sistema nervoso não sabia disso. Ele estava respondendo a um perigo que ficou gravado décadas atrás e que, para ele, ainda não passou.

 

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A culpa biológica: por que o corpo reage mesmo quando você não quer?

 

Existe algo que aparece no consultório com uma regularidade que ainda me impacta.

O homem está contando o que viveu. Em algum momento, ele para. Hesita. E então vem  quase sempre em voz baixa, como se a frase em si fosse perigosa: “Mas o meu corpo reagiu.”

E ali está. O segredo que carregou por anos. A prova que construiu contra si mesmo.

Excitação física não é consentimento. Congelamento não é covardia. O corpo humano tem reflexos de sobrevivência que não pedem permissão e que não consultam o que a sua mente quer.

Diante de picos intensos de adrenalina, terror ou contato físico forçado, o organismo pode reagir com alterações no fluxo sanguíneo — inclusive ereção — ou com imobilidade tônica, o congelamento que paralisa o corpo inteiro quando lutar ou fugir não é possível. Essas respostas existem para minimizar a dor. São automáticas. São antigas. E não dizem absolutamente nada sobre desejo.

Para o homem heterossexual que sofreu abuso por outro homem, a reação do corpo pode instalar um pânico silencioso: “E se eu tivesse gostado? E se isso mudou alguma coisa em mim?” Para o homem gay, a confusão pode ser outra, talvém a ideia de que a violência foi o que despertou seu desejo, misturando identidade com terror. E com isso, às vezes, o abuso passa a ser visto como uma espécie de iniciação. A violência se normaliza. E ao peso do abuso soma-se o peso de carregar sozinho dois segredos ao mesmo tempo.

Em ambos os casos, a culpa é uma construção, não uma verdade.

Seu corpo estava fazendo o que corpos fazem sob ameaça extrema. A sua mente disse não. E isso é o que importa.

 

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As 3 Grandes Armaduras da Vida Adulta

 

img 3-Abuso Sexual na Infância e Adolescência em Homens - As armaduras transição para recuperação

 

A dor que não encontra lugar para ser nomeada não desaparece.

Ela se adapta. Aprende a se esconder em formas que, por fora, podem até parecer virtudes, como disciplina, autocontrole, independência. Mas que por dentro funcionam como uma muralha: protegem de novos ferimentos, e ao mesmo tempo impedem que qualquer coisa genuína entre ou saia.

O sistema nervoso é engenhoso nisso. Quando não há espaço seguro para sentir, ele cria armaduras. E três delas aparecem com uma regularidade impressionante nos homens que chegam ao consultório.

 

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1. A hipermasculinidade e o perfeccionismo

Ele é o que resolve. O que não reclama, o que chega antes e sai depois. Carrega o problema dos outros e nunca mostra o próprio.

Por fora, parece força. E durante anos, às vezes décadas, funciona como tal. E isso é independente da orientação sexual.

Mas há algo que o perfeccionismo revela quando você olha de perto: ele não é ambição. É cálculo de sobrevivência. O cérebro aprendeu, lá atrás, que ser impecável era a única forma de não ser atingido novamente. “Se eu for perfeito, forte, se eu controlar tudo ninguém vai conseguir me machucar, ninguém vai descobrir.”

O problema é que armadura não distingue ameaça real de intimidade. Ela bloqueia tudo.

E manter isso em pé custa caro. A energia que vai para sustentar a fachada é energia que não sobra para mais nada — para descansar, para se aproximar, para simplesmente existir sem estar em alerta.

 

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2. A raiva reprimida e a depressão

Quando algo nos fere e não conseguimos reagir — porque o agressor era maior, ou mais forte, ou alguém de quem dependíamos — o impulso de defesa não some. Ele fica.

Fica no corpo. Fica no sistema nervoso. E precisa ir para algum lugar.

Às vezes vai para o trânsito. Para uma discussão que escalou rápido demais. Para uma irritabilidade constante que você mesmo não sabe explicar.

Às vezes vira o oposto, um cansaço que não passa com descanso, uma apatia que cobre tudo com uma camada cinza, uma dificuldade de sentir prazer em coisas que antes faziam sentido. O que chamamos de depressão, nesses casos, é muitas vezes a raiva de sobrevivência que perdeu o endereço e se voltou para dentro.

E ás vezes tudo isso se mistura.

E isso não é fraqueza. É o que acontece quando uma energia que deveria ter ido para fora não teve para onde ir.

 

3. O apagão emocional — a dissociação

Essa é a mais solitária das três.

É estar presente e ausente ao mesmo tempo. O corpo está na sala, na cama, na conversa, mas algo dentro saiu. Você observa de longe, como se houvesse um vidro entre você e o que está acontecendo. Age, responde, funciona. Mas não sente.

Nos momentos de intimidade, a dissociação se torna especialmente pesada e se manifesta de formas diferentes dependendo de quem você é.

Para o homem heterossexual, muitas vezes aparece como uma pressão mecânica para performar. O corpo entra em estado de alerta — focado em não falhar, em não ser percebido, em manter o ato, enquanto qualquer possibilidade de conexão real fica do lado de fora. Para o homem gay, pode aparecer como uma entrega que não é entrega — o corpo responde, mas a mente viaja. Cria-se um personagem. E no fundo, às vezes, há uma espera silenciosa de que aquilo acabe logo.

Em ambos os casos, o que se perde é a presença. E perder a presença nos momentos de intimidade gera um tipo de exaustão difícil de nomear.

O seu sistema nervoso não está fazendo isso para te prejudicar. Está fazendo o que sempre fez: tentando te proteger. A questão é que essa defesa, genial para a sobrevivência de uma criança, acaba destruindo a intimidade do adulto.

Você não perdeu a capacidade de sentir. Ela está lá, esperando condições de segurança para voltar.

 

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Por que eu sinto que o erro sou eu? A diferença entre vergonha e culpa

 

De tudo que o Trauma Complexo carrega, a vergonha é o peso mais silencioso e o mais destrutivo.

Ela se parece com culpa, mas não é. E essa diferença importa muito.

A culpa diz: “eu fiz algo errado.” Ela aponta para um ato. Tem endereço. E por isso, em algum momento, pode ser trabalhada, reparada, ressignificada.

A vergonha diz outra coisa. Ela diz: “eu sou o erro.” Não aponta para o que aconteceu, aponta para quem você é. E aí não há nada a reparar, porque o problema, segundo ela, é você mesmo.

É essa voz que faz um homem se esconder. Que o faz aceitar menos do que merece em relacionamentos, no trabalho, na vida. Que o faz sabotar o que está indo bem, porque no fundo, algo sussurra que ele é sujo, danificado, indigno.

Essa voz não é a verdade. É o trauma falando.

Elaborar a vergonha é parte central do processo terapêutico, que passa, inevitavelmente, por tirar o peso do segredo. Porque a vergonha sobrevive no silêncio. Ela se alimenta do isolamento. E começa a perder força no momento em que é nomeada, ouvida, e recebida sem julgamento.

A dignidade que essa voz tenta te convencer de que você não tem, ela sempre foi sua.

 

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O Caminho da Recuperação

Abuso Sexual na Infância e Adolescência em Homens - O resgate da sua própria vida

Se você chegou até aqui, provavelmente se reconheceu em alguma coisa, ou talvez em muita coisa.

E talvez também reconheça essa sensação: a de já ter tentado. Já ter buscado ajuda, já ter conversado, já ter lido, já ter entendido racionalmente o que aconteceu e ainda assim sentir que o alarme não desliga. Que o corpo não recebeu o recado.

Isso não é falta de esforço. É que falar sobre o trauma ativa a parte racional do cérebro, o córtex pré-frontal, a linguagem, o raciocínio. Mas o trauma não mora ali. Ele ficou retido nas áreas mais primitivas do cérebro, nos músculos, nos órgãos, na energia de sobrevivência que seu corpo preparou para lutar ou fugir, e que nunca teve para onde ir.

Palavras não chegam lá. Pelo menos não sozinhas.

É por isso que a abordagem que utilizo na Psicotraumatologia trabalha de baixo para cima — do corpo para a mente, não o contrário. A Experiência Somática e a regulação do sistema nervoso atuam diretamente onde a dor está armazenada. Não é necessário reviver a cena. O que ensinamos é o corpo a reconhecer, finalmente, que sobreviveu. Que o perigo passou. Que pode, aos poucos, soltar o que carregou por tanto tempo.

 

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A Janela de Tolerância: resgatando o direito de descansar

 

Tem um momento que aparece bastante, o homem está em casa, a situação é segura, não há nenhuma ameaça real. E ainda assim, relaxar parece impossível.

Não é frescura. Não é ansiedade de personalidade. É o sistema nervoso fazendo o que aprendeu a fazer.

Esse fenômeno tem nome clínico: Janela de Tolerância.

É a faixa em que o sistema nervoso consegue funcionar sem entrar em colapso, nem em hiperativação, nem em entorpecimento. Dentro dessa janela, conseguimos sentir as emoções sem sermos dominados por elas. Conseguimos estar presentes.

O trauma encolhe essa janela.

Situações que deveriam ser neutras passam a ser lidas como sinais de perigo. O cérebro, que aprendeu a sobreviver em alerta constante, interpreta a tranquilidade como armadilha. “Se eu baixar a guarda agora, algo ruim vai acontecer.”

O objetivo da psicoterapia especializada em trauma não é mudar quem você é. É ampliar essa janela — gradualmente, com segurança — para que seu sistema nervoso aprenda que é possível estar tranquilo sem que isso seja perigoso.

 

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O que esperar da psicoterapia especializada em trauma

 

Para um homem que passou anos se defendendo sozinho, a ideia de sentar na frente de alguém — ligar a câmera, abrir a voz — pode parecer o movimento mais arriscado do mundo.

O medo de ser julgado está lá. E junto dele o medo de perder o controle sobre o que vai sair, de começar a falar e não conseguir parar, de ser levado para um lugar de onde não dá para voltar.

Esses medos não são irracionais — são a memória do corpo funcionando. Você aprendeu, da forma mais difícil, que se abrir pode significar perigo.

Esse instinto merece respeito. E é exatamente por isso que a regra que orienta meu trabalho é uma só: nunca causar uma nova dor.

O que acontece no consultório não é um interrogatório sobre o passado. Não há pressão para lembrar, para narrar, para reviver. O que construímos juntos, antes de qualquer outra coisa, é segurança — porque sem ela, nenhum processo real acontece.

Alívio para o agora. Antes de qualquer mergulho nas camadas mais antigas, o primeiro compromisso é com o que aperta o peito hoje. Você vai sair com ferramentas somáticas concretas para usar quando a ansiedade chegar ou quando sentir que está se desconectando.

O processamento gota a gota. O trauma não será enfrentado de uma vez. O processo acontece no seu ritmo, camada por camada, sempre guiado pela sua sensação de segurança. O sistema nervoso precisa de tempo para assimilar o que vai sendo liberado. Esse tempo é respeitado.

A retomada da agência. O trauma rouba o senso de escolha. Deixa você operando no piloto automático da sobrevivência. A terapia trabalha para que você volte a ser o autor das suas próprias decisões — para que as reações do corpo façam sentido, e para que você tenha, de novo, a experiência de escolher.

 

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Quando o próximo passo parece grande demais

Existe um momento que acontece com muitos homens que chegaram até aqui.

O peso do que foi reconhecido ao longo desse guia está presente. E junto com ele, quase simultaneamente, aparece uma dúvida que trava: “Mas eu consigo, de verdade, sentar na frente de alguém e falar sobre isso?”

Esse travamento não é sinal de que você não está pronto. É o sistema nervoso fazendo exatamente o que aprendeu a fazer quando algo importante está prestes a mudar.

Não existe um estado de prontidão que precise ser alcançado antes do primeiro contato. Você não precisa ter a história organizada, não precisa saber o que vai dizer, não precisa ter certeza de que vai conseguir falar sobre o que aconteceu. Pode chegar com o medo, com a dúvida, com a sensação de que talvez não seja para você.

Tudo isso é ponto de partida. Não é obstáculo.

E se o que aparece for o medo de perder o controle dentro do processo — de entrar e não conseguir sair — vale lembrar ao seu corpo que a escolha permanece com você. Em qualquer momento, você pode pausar. Pode pedir para mudar de direção. Pode simplesmente ficar em silêncio. O ritmo do trabalho é o ritmo do seu sistema nervoso e esse ritmo é respeitado desde o primeiro dia.

O trauma retirou de você, repetidamente, o poder de escolher. Recuperar esse poder começa antes mesmo da primeira sessão, começa quando você percebe, no próprio corpo, que desta vez a decisão é sua.

 

 

O resgate da sua própria vida

 

Chegar até o final deste guia já diz algo sobre você.

Não sobre curiosidade. Sobre coragem, mesmo que você não a reconheça assim, ainda.

Carregar esse segredo por tantos anos, vivendo num silêncio forçado exigiu muito de você. Mas tudo isso só foi possível por causa da sua inteligência de sobrevivência — o seu sistema nervoso fazendo o melhor que podia com o que tinha.

Mas sobreviver assim tem um limite.

Meu papel não é te conduzir de volta ao abismo das memórias. É estar ao seu lado enquanto você aprende a regular o que ficou preso, a entender o que ficou sem sentido, e a construir a base de segurança que talvez nunca tenha tido direito de ter.

Você não precisa carregar isso para sempre. Você não está sozinho.

Antes de seguir, dois caminhos que talvez você precise saber que existem.

Se o que está aparecendo agora é insuportável e você precisa conversar com alguém imediatamente, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br, gratuitamente e em sigilo. Para denúncias de violência sexual, o Disque 100 funciona 24 horas, também gratuito.

Se a urgência não é essa, mas algo está pesando e você precisa de apoio, eu ofereço uma conversa. Um espaço seguro para nomear o que está sentindo, no seu ritmo, sem precisar chegar com nada organizado. Sem custo. Sem compromisso.

Você não precisa saber o que dizer. Não precisa estar pronto, nem falar do que aconteceu. Pode ser só sobre como está sendo hoje.

Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia.
Autor do livro E se for trauma?, dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e brasileiros no exterior.