Não. Abuso sexual é um ato de poder e de controle, e não decide por quem alguém sente desejo. Um homem gay pode carregar o medo de que o abuso tenha "causado" a orientação dele; um homem hétero pode temer que o abuso tenha mudado alguma coisa nele. Os dois medos são comuns, e nenhum dos dois descreve o que acontece de fato. O que fizeram com você é um acontecimento na sua história, não uma descrição de quem você é.
Pode. A rejeição, a homofobia e o medo de não ser aceito pela família já deixam marca, e o abuso às vezes cai por cima dela. Às vezes quem abusou usou a orientação, ou as dúvidas sobre ela, para envergonhar e garantir o silêncio. Aqui a sua orientação não é assunto a ser explicado nem corrigido. O trabalho é separar o que é seu do que colocaram em você.
É. Abuso é atravessar o limite de alguém, e isso não depende de quem atravessou. A ideia de que menino "deveria gostar" é uma das crenças que mais prendem homens no silêncio, porque transforma a violência em piada, ou em sorte. Se você sente confusão ou vergonha por causa disso, faz sentido: você cresceu ouvindo essa ideia junto com todo mundo.
É. Quando quem devia proteger é quem machuca, a criança precisa continuar perto dessa pessoa para sobreviver, e o amor, a raiva e o medo passam a morar juntos. A psicóloga Jennifer Freyd chamou isso de trauma de traição: a ferida vem justamente de quem era a fonte de cuidado. Ter gostado de alguma coisa nessa pessoa não muda o que ela fez.
Porque o seu corpo decidiu antes de você. Diante de uma ameaça em que lutar ou fugir não é possível, o sistema nervoso pode congelar: o corpo para, a voz some, a cabeça parece ir para longe. Isso se chama congelamento, e é uma resposta automática de sobrevivência, não uma escolha. Não reagir não foi consentimento. Foi o seu corpo tentando te manter vivo do único jeito que tinha.
Não. Ereção e excitação podem acontecer por toque, por estímulo físico e até por medo, sem passar pela vontade. São reflexos, como arrepiar de frio. Uma reação do corpo não é desejo e não é consentimento. Essa é uma das vergonhas que os homens mais carregam calados, e ela pode pesar bem menos quando finalmente ganha explicação.
Pode. Uma experiência que foi demais para o corpo pode ficar guardada em pedaços: uma sensação, uma imagem solta, um incômodo com um certo cheiro. Isso não quer dizer que você esteja inventando, e também não exige que você tenha certeza de nada. Na terapia ninguém vai cavar lembrança nem preencher lacuna por você. O trabalho parte do que você sente hoje.
Esse sentimento é parte do que o silêncio faz: se ninguém fala, cada um acha que está sozinho. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um em cada sete homens relata ter sofrido abuso sexual na infância, e muitos nunca contaram para ninguém. Você não está sozinho, mesmo que até hoje tenha parecido que sim.