Perguntas Frequentes sobre Abuso Sexual em Homens

SOBRE O QUE ACONTECEU

O que aconteceu afeta a minha masculinidade ou define a minha orientação sexual?

Não. Abuso sexual é um ato de poder e de controle, e não decide por quem alguém sente desejo. Um homem gay pode carregar o medo de que o abuso tenha "causado" a orientação dele; um homem hétero pode temer que o abuso tenha mudado alguma coisa nele. Os dois medos são comuns, e nenhum dos dois descreve o que acontece de fato. O que fizeram com você é um acontecimento na sua história, não uma descrição de quem você é.

Sou um homem gay. O trauma do abuso pode se misturar com a dificuldade de aceitação que já vivi?

Pode. A rejeição, a homofobia e o medo de não ser aceito pela família já deixam marca, e o abuso às vezes cai por cima dela. Às vezes quem abusou usou a orientação, ou as dúvidas sobre ela, para envergonhar e garantir o silêncio. Aqui a sua orientação não é assunto a ser explicado nem corrigido. O trabalho é separar o que é seu do que colocaram em você.

O abuso que sofri foi cometido por uma mulher. A sociedade diz que o homem deveria "gostar" disso. O meu trauma é válido?

É. Abuso é atravessar o limite de alguém, e isso não depende de quem atravessou. A ideia de que menino "deveria gostar" é uma das crenças que mais prendem homens no silêncio, porque transforma a violência em piada, ou em sorte. Se você sente confusão ou vergonha por causa disso, faz sentido: você cresceu ouvindo essa ideia junto com todo mundo.

A pessoa que me abusou era alguém da minha família ou alguém em quem eu confiava muito. É normal eu me sentir tão confuso e até ter tido sentimentos mistos?

É. Quando quem devia proteger é quem machuca, a criança precisa continuar perto dessa pessoa para sobreviver, e o amor, a raiva e o medo passam a morar juntos. A psicóloga Jennifer Freyd chamou isso de trauma de traição: a ferida vem justamente de quem era a fonte de cuidado. Ter gostado de alguma coisa nessa pessoa não muda o que ela fez.

Por que eu não reagi, não lutei ou não pedi ajuda quando o abuso aconteceu?

Porque o seu corpo decidiu antes de você. Diante de uma ameaça em que lutar ou fugir não é possível, o sistema nervoso pode congelar: o corpo para, a voz some, a cabeça parece ir para longe. Isso se chama congelamento, e é uma resposta automática de sobrevivência, não uma escolha. Não reagir não foi consentimento. Foi o seu corpo tentando te manter vivo do único jeito que tinha.

Meu corpo teve reações físicas (como excitação ou ereção) durante o abuso. Isso significa que eu quis ou que eu gostei?

Não. Ereção e excitação podem acontecer por toque, por estímulo físico e até por medo, sem passar pela vontade. São reflexos, como arrepiar de frio. Uma reação do corpo não é desejo e não é consentimento. Essa é uma das vergonhas que os homens mais carregam calados, e ela pode pesar bem menos quando finalmente ganha explicação.

Eu tenho poucas memórias do que aconteceu, ou só flashes confusos. Posso fazer terapia mesmo sem ter certeza dos detalhes?

Pode. Uma experiência que foi demais para o corpo pode ficar guardada em pedaços: uma sensação, uma imagem solta, um incômodo com um certo cheiro. Isso não quer dizer que você esteja inventando, e também não exige que você tenha certeza de nada. Na terapia ninguém vai cavar lembrança nem preencher lacuna por você. O trabalho parte do que você sente hoje.

Eu sinto que sou o único homem no mundo que carrega esse peso.

Esse sentimento é parte do que o silêncio faz: se ninguém fala, cada um acha que está sozinho. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um em cada sete homens relata ter sofrido abuso sexual na infância, e muitos nunca contaram para ninguém. Você não está sozinho, mesmo que até hoje tenha parecido que sim.
Se alguma dessas perguntas é a sua, dá para conversar sobre ela.
A sessão de acolhimento é gratuita, e você não precisa contar o que aconteceu.

SOBRE O CORPO E A VIDA DE HOJE

Já se passaram muitos anos (ou décadas) desde que o abuso aconteceu. A psicoterapia ainda pode me ajudar?

Pode. O trauma não tem prazo de validade, porque não ficou guardado como lembrança antiga: ficou como reação, e ela acontece hoje, no cansaço, no alerta, na dificuldade de deixar alguém chegar perto. É com isso que o trabalho mexe, e isso está aqui, no presente. Não existe idade em que fique tarde para começar.

Eu tenho vícios (álcool, pornografia, excesso de trabalho, etc.). Isso tem a ver com o que passei na infância?

Pode ter. Quando o sistema nervoso vive sobrecarregado, a gente procura alívio onde encontra, e álcool, pornografia, trabalho sem fim ou comida aliviam rápido. Nem todo vício vem de abuso. Mas, quando vem, Gabor Maté resume bem: a pergunta não é por que o vício, e sim por que a dor. Aqui ninguém vai te julgar por isso. O trabalho olha para a dor que pede esse alívio, e para o corpo aprender outros jeitos de se acalmar.

Eu sinto um bloqueio enorme na hora da intimidade, ou evito relacionamentos. Será que um dia vou conseguir ter uma vida sexual e amorosa saudável?

Isso dá para trabalhar, seja com homens, com mulheres ou com os dois. O abuso pode ter ensinado ao corpo que proximidade é perigo, e aí ele se defende: se afasta, sabota, ou "sai" durante o sexo, como se estivesse assistindo de fora. Nada disso é falta de vontade. O trabalho é ajudar o corpo a sentir segurança de novo, devagar, até chegar perto de alguém parar de soar como alarme.

Eu me sinto sempre em alerta, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. A terapia consegue me ajudar com isso?

Esse estado tem nome: hipervigilância. É o sistema nervoso que aprendeu, lá atrás, que o perigo podia vir a qualquer hora, e nunca recebeu o aviso de que passou. Por isso pedir para relaxar não adianta: o alarme não obedece a argumento. O trabalho passa pelo corpo, em doses pequenas, para ele ir reconhecendo que agora é diferente.

SOBRE COMEÇAR A TERAPIA

Vou ter que contar os detalhes do que aconteceu na primeira sessão?

Não. Nem na primeira sessão, nem enquanto você não quiser. O começo é pelo que pesa hoje: o sono, o cansaço, a mente que não desliga. Você decide o que traz e quando traz, e o trabalho não depende de você contar a história.

Tenho medo de ser julgado. Como vou conseguir falar sobre isso?

Esse medo costuma aparecer, e faz sentido. Pode ser que você já tenha tentado contar e ouvido uma piada, um silêncio, um "mas você era homem" ou um "para de falar besteira". Aqui você não precisa me convencer de que isso é sério. Eu também passei por abuso sexual na infância, e sei o tamanho do que é dizer isso em voz alta. Você fala no seu tempo, e o que disser fica entre nós.

Já tentei outras terapias antes ou sinto que o meu caso é grave demais. Será que esse acompanhamento realmente funciona para mim?

Se a sua frase hoje é "entendi tudo e continua igual", ela tem explicação. O trauma não mora só no pensamento, e quando o trabalho fica só na conversa, o corpo continua de fora, reagindo do mesmo jeito. Aqui o corpo entra também, junto com a Psicanálise e a Psicologia Analítica. Quanto a ser grave demais: não existe caso grave demais para começar. Existe ritmo.

Para ver como o trabalho acontece na prática, com o passo a passo, a página de Terapia Online explica. E para entender como o abuso na infância aparece no corpo e na vida do homem adulto, escrevi um guia sobre trauma, silêncio e recuperação.