Por que eu não lembro da minha infância? O que acontece com a memória e o trauma

Homem sentado sozinho à mesa da cozinha na luz da manhã, mãos paradas ao lado de uma xícara, rosto fora do enquadramento

 

Você descobre a idade de alguém. Faz uma conta simples, de cabeça, sem motivo nenhum. E percebe que a conta não fecha.

Porque se aquela pessoa nasceu naquele ano, e você lembra que aquilo aconteceu antes dela nascer, então você não tinha doze anos. Tinha oito.

Quatro anos mudam de lugar em três segundos. Algo se reorganiza dentro de você. Porque não foi uma lembrança nova que apareceu: foi um número de fora que reorganizou o que já estava lá.

A memória de quem viveu algo demais na infância raramente está apagada. Ela está desorganizada: pedaços fora de ordem, datas trocadas, cenas guardadas sem o ano em que aconteceram. Não lembrar direito não significa que você inventou. Significa que o cérebro guardou daquele jeito, e teve um motivo.

 

As frases que aparecem quando o assunto é esse

Quase ninguém diz “eu não lembro”. As frases que eu escuto são outras, e são sempre parecidas.

“Meio que não lembro.”

“Não consigo lembrar direito, mas acho que foi assim…”

“Às vezes meio que some quando eu tento falar.”

Repare nessas três frases. Nenhuma afirma, nenhuma nega. Todas deixam uma saída. É a fala de alguém que não confia no próprio testemunho e por isso não se compromete com nada, nem com a própria história.

A terceira é a mais específica, e é a que mais assusta quem a diz. Não é que a lembrança não esteja lá. Ela está, até o momento em que a pessoa abre a boca para contar. Aí some. Como se a lembrança tivesse acesso à intenção de falar e recuasse antes.

Isso tem nome: amnésia dissociativa, a perda de memória de eventos importantes que vai muito além do esquecimento comum. Não é distração nem má vontade. É um mecanismo de proteção que já estava descrito nos manuais de diagnóstico desde 1980, como lembra van der Kolk em O corpo guarda as marcas.

 

Isso acontece com quanta gente?

Com muito mais gente do que se imagina, e existe um estudo que mediu isso de um jeito que quase nenhum outro conseguiu.

Nos anos 1970, a pesquisadora Linda Meyer Williams teve acesso aos prontuários de meninas atendidas em pronto-socorro depois de abuso sexual. Abuso documentado: exame, registro hospitalar, entrevista na época. Dezessete anos depois, ela localizou essas mulheres e conversou com elas.

Trinta e oito por cento não recordavam o abuso que estava no prontuário.

Não é que tivessem dúvida. Não lembravam. E o registro do estudo faz questão de dizer uma coisa que precisa ser lida com atenção: períodos de não recordação não devem ser interpretados como evidência de que o abuso não aconteceu.

Van der Kolk aponta na mesma direção quando reúne os números disponíveis: a perda total de memória aparece com mais frequência justamente nos casos de abuso sexual na infância, com incidência entre dezenove e trinta e oito por cento.

Ou seja, o esquecimento não é a exceção estranha da história. Ele é uma das respostas mais comuns.

 

Por que o cérebro faz isso?

Ele faz isso porque, no momento em que a coisa aconteceu, guardar inteiro era pior do que não guardar.

Uma criança diante de algo do qual não pode fugir e sobre o qual não pode pedir ajuda tem um recurso só: sair de dentro da experiência enquanto ela acontece. A atenção se desloca, o corpo continua ali, e a memória não é gravada da forma organizada de sempre, com começo, meio, fim e data. Ela entra em pedaços.

Por isso o que sobra tende a ser sensorial em vez de narrativo. Um cheiro. Uma textura. O barulho de uma porta. Uma luz. E esses fragmentos não vêm com etiqueta de tempo, o que explica por que eles podem parecer recentes mesmo tendo trinta anos.

Esse desligamento durante o acontecimento tem mecanismo próprio e continua operando na vida adulta, e eu escrevi sobre ele em dissociação: por que você se desliga do próprio corpo.

O ponto que importa aqui é outro. A ausência da lembrança não é medida da gravidade. Costuma ser o contrário: quanto mais insuportável, mais o sistema fragmenta.

 

A memória não estava perdida, estava com a data errada

O que costuma acontecer não é apagamento total. É desordem.

Na minha experiência, algumas coisas da infância eu lembrava bem. Outras não. E havia as que estavam lá, mas trocadas: fora de ordem, fora de idade, encaixadas num ano que não era o delas. Não faziam sentido juntas, e eu não sabia dizer por quê.

Foi exatamente esse o caso dos doze anos que eram oito. A cena estava guardada. O que estava errado era a data que eu tinha colado nela. E bastou um dado de fora, a idade de uma pessoa, para a conta se refazer sozinha.

Isso muda o que se procura. Não se trata de arrombar um cofre para tirar de dentro uma cena que não existe em lugar nenhum. Trata-se de um arquivo que está no lugar errado, e que às vezes se reorganiza quando aparece a informação que faltava.

Nem sempre reorganiza. Mas quando acontece, costuma ser assim: de lado, sem aviso, e sem esforço nenhum.

 

Como as lembranças voltam, quando voltam?

Elas voltam sozinhas, e quase nunca no momento em que a pessoa está tentando lembrar.

Voltam por causa de algo que alguém disse numa conversa comum. Voltam por causa de um trecho que você estava lendo e que não tinha relação aparente. Voltam por um cheiro, por uma música, por um lugar. Memórias apareceram dependendo do que estava sendo dito por outras pessoas, ou do que eu estava lendo naquele período.

Mike Lew descreve esse mesmo movimento em Victims No Longer (Vítimas Nunca Mais em português): quando existe segurança suficiente e distância suficiente do abuso, as memórias se apresentam. Elas não são arrancadas. Elas chegam quando o lugar ficou seguro o bastante para recebê-las.

O que a experiência clínica mostra é que forçar produz o contrário. Quanto mais alguém se cobra para lembrar, mais o sistema se fecha, porque a cobrança é lida como pressão, e pressão não é segurança.

 

Não prometo recuperar memória, e explico por quê

Não prometo cura e não prometo recuperar memórias. Existem técnicas para isso, mas memória e trauma juntos são um terreno delicado demais para promessa.

Meu ponto de partida é o de Peter Levine, no livro dele sobre trauma e memória: as memórias mais úteis não são as mais confiáveis em detalhe, e sim as que ficaram guardadas no corpo. O que ficou congelado ali é o que pede trabalho, não a reconstituição exata dos fatos.

E existe uma coisa que eu levo a sério: o que foi esquecido como defesa merece respeito. O sistema nervoso é inteligente e sabe o que está fazendo. Se ele escondeu, teve um motivo, e o motivo era proteger alguém que não tinha outra saída na época. Chegar com um pé de cabra nisso é desrespeitar a única coisa que funcionou naquele momento.

Mike Lew é direto sobre o risco de fazer da recuperação de memórias o objetivo principal: isso cria a impressão enganosa de que, se as memórias voltarem, tudo ficará bem. E não é assim. Quem organiza a vida em torno dessa promessa costuma se decepcionar ao descobrir que o trabalho continua depois.

 

Preciso lembrar de tudo para melhorar?

Não. E essa é a resposta mais importante deste texto.

Às vezes não é preciso reativar a memória para que algo mude. A mudança acontece no sistema nervoso, no corpo, na forma como você reage hoje. Nada disso depende de você produzir a cena completa com data e endereço.

Mike Lew escreve, com todas as letras, que é possível fazer um trabalho poderoso de recuperação na ausência de memórias específicas da infância. Não é consolo para quem não lembra. É descrição do que acontece.

E se a memória voltar, aí sim é preciso amparo. Porque memória que retorna raramente chega organizada: ela vem com caos junto, fora de ordem, com emoção desproporcional ao que a cabeça consegue explicar naquele instante. Ordenar esse caos é trabalho, e é trabalho que ninguém deveria fazer sozinho.

Se o que está pesando é a dúvida sobre nomear o que aconteceu, escrevi especificamente sobre isso em e se o que aconteceu na minha infância foi abuso?. E o quadro inteiro do qual esse esquecimento faz parte está reunido no guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.

 

E se eu lembro de tudo com clareza?

Então está tudo certo também, e vale dizer isso porque a dúvida inversa existe e quase ninguém a nomeia.

Tem homem que lê um texto como este e sai pior do que entrou, porque lembra. Lembra o cômodo, a roupa, a hora, a sequência inteira. E aí aparece um raciocínio traiçoeiro: se o trauma apaga a memória, e eu lembro de tudo, então talvez não tenha sido trauma. Talvez não tenha sido tão ruim assim. Talvez eu esteja fazendo drama.

Não funciona assim. A fragmentação é uma resposta possível, não a assinatura obrigatória do trauma. Nos mesmos números que van der Kolk reúne, a perda total de memória aparece numa parte dos casos, não em todos. A maioria das pessoas que passou por isso lembra de alguma coisa, muita gente lembra de bastante coisa, e nada disso torna o que aconteceu menor.

E existe uma variação que confunde mais ainda: lembrar do fato inteiro e não sentir nada ao contar. A cena está lá, completa, e sai da boca com a naturalidade de quem descreve o trajeto até o trabalho. Isso também é resposta de proteção. O que foi separado ali não foi a memória, foi a emoção que vinha junto com ela.

Memória demais, memória de menos, ou memória sem sentimento colado. As três são formas de o mesmo sistema fazer o que dava para fazer.

 

O que dá para fazer hoje

Pare de tentar lembrar. É contraintuitivo e é o passo mais útil.

A cobrança para lembrar mantém o sistema fechado, e ainda transforma cada dia em prova de que você falhou de novo. Você não está devendo uma lembrança a ninguém.

Repare no que já está aqui, em vez do que falta. As reações que você tem hoje, os lugares onde o corpo trava, as situações que apertam sem explicação: isso é material, e é material que não depende de nenhuma cena para ser trabalhado.

E, se aparecer alguma coisa, anote sem julgar o conteúdo. Não como investigação, e sim como registro. Fragmento não precisa fazer sentido para ser guardado, e não precisa ser verdade estabelecida para ser levado a sério.

Uma última coisa, que talvez seja a que mais alivia: você não precisa decidir hoje o que aconteceu. Dá para viver, e dá para trabalhar, com a pergunta em aberto.

 

Perguntas que aparecem sempre

Não lembrar significa que eu inventei?

Não. O estudo de Linda Meyer Williams acompanhou 129 mulheres com abuso documentado em prontuário hospitalar e, dezessete anos depois, 38% não recordavam o que estava registrado. O próprio estudo alerta que períodos de não recordação não devem ser lidos como evidência de que nada aconteceu.

Se foi tão grave, por que eu não lembro?

Porque foi grave. A fragmentação da memória é uma resposta de proteção diante do que não podia ser processado na hora. A ausência de lembrança não mede a gravidade, e com frequência aponta para o contrário.

Preciso recuperar minhas memórias para melhorar?

Não. O trabalho acontece no sistema nervoso e nas reações do presente, que estão disponíveis agora. Mike Lew afirma que é possível fazer um trabalho poderoso de recuperação sem memórias específicas da infância.

E se uma lembrança voltar de repente?

Ela costuma chegar desorganizada e com carga emocional desproporcional. Nessa hora, ter acompanhamento especializado faz diferença, porque o trabalho é ordenar o que voltou sem que isso vire uma segunda avalanche.

 

Se em algum momento o que aparecer for insuportável e você precisar conversar com alguém imediatamente, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br, gratuitamente e em sigilo.

Você não precisa chegar com a história montada. Não precisa saber a idade, o ano, nem a ordem das coisas. Aqui não existe julgamento pela memória que sumiu nem pela que voltou. Estou por aqui.

 

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.