E se o que aconteceu na minha infância foi abuso?

Será que aconteceu na minha infância foi abuso?

 

Na infância e o hoje

Ele encontrou uma foto. Aniversário de oito ou nove anos, ele já não tem certeza. Está rindo na foto. Bolo na mesa, balão preso na cadeira, a sala da casa dos avós ao fundo. O tio está em pé, no canto da imagem, conversando com alguém de costas.

Ele olha a foto e sente o estômago apertar. Sem motivo. A imagem é boa. Ele estava bem.

Mas o estômago aperta. E há semanas ele guarda essa foto na gaveta sem entender por quê.

Ele não fala dessa foto com ninguém. Tira da gaveta, olha, sente a coisa subir no peito, devolve para a gaveta. Repete o gesto numa noite, numa tarde, num domingo de chuva. Nunca conta para a parceira, para o irmão, para o terapeuta que ele começou a procurar e desistiu duas vezes. É um movimento privado, quase ritual, e ele mesmo não saberia explicar o que está fazendo ali, voltando para uma imagem de aniversário onde está rindo.

Quando ele volta na casa dos avós hoje, adulto, quase tudo encolheu. A escada, o corredor, o quarto. Só o canto da sala perto daquela foto continua do mesmo tamanho de quando ele tinha oito anos. O resto cresceu com ele. Esse canto, não.

O corpo sabe antes da cabeça. Quase sempre.

 

A memória que não tem cena

A pergunta volta. “Se foi tão grave, como é que eu não lembro direito?”

Essa pergunta é cruel. Ela sugere que a falta de lembrança nítida é prova de que não foi tão grave. A neurociência mostra o contrário, e mostra com clareza.

A memória de criança não funciona como a do adulto. O hipocampo, a região do cérebro que organiza a lembrança em data, hora e contexto, ainda está em formação na infância. Mesmo numa vida sem trauma, a memória dessa fase é fragmentada, sensorial, com furos. Quando entra trauma em cima disso, o que já era frágil se espalha mais ainda. O cérebro decidiu, em algum momento, que registrar aquilo de forma organizada não era seguro. Então dividiu. Guardou um pouco no cheiro, um pouco na sensação no estômago, um pouco numa imagem solta de teto, de cortina, de papel de parede.

Isso não é defeito de memória. É como o cérebro guardou.

Por isso, na vida adulta, a coisa volta sem cena. Volta como aperto no estômago diante de uma foto, ou como repulsa por um perfume específico, ou como vergonha sem razão aparente numa situação banal. Volta no corpo, primeiro, e a cabeça vai atrás tentando entender o que está acontecendo, sem encontrar a história.

Outras vezes vem ao contrário. Você lembra do quarto, lembra da casa, lembra do verão na casa dos avós, lembra de um adulto específico que aparecia muito naquela época. Mas falta um pedaço no meio. Como um filme com cortes mal feitos. Você sabe que entre uma cena e outra aconteceu alguma coisa, mas a cena em si não está no rolo.

Já escutei “eu acho que aconteceu, mas não tenho certeza, talvez eu esteja inventando, talvez eu esteja fazendo confusão na cabeça”. Quase nunca está inventando. Quem inventa não fica com aperto no estômago semanas depois, não tem nojo de cheiros que ninguém mais teria nojo, não acorda às quatro da manhã com o coração disparado depois de um sonho que ele nem consegue lembrar direito.

“Mas comparado ao que outros viveram, foi nada”

A relativização vem rápido. Vem em diferentes versões.

“Meus pais davam de tudo, eu não posso reclamar.”

“Era da época, todo mundo passava por isso.”

“Foi só uma vez.” Ou “foi só algumas vezes.”

“Ele nem fazia por mal.”

“Eu já era grandinho na época, eu tinha que saber.”

 

Essa comparação não é análise.

É a mesma coisa que aparece quando alguém pesquisa “abusado significado” às duas da manhã. É o sistema nervoso diminuindo o tamanho de algo que ainda não cabe no corpo todo de uma vez. A pessoa que minimiza não está mentindo. Está dosando.

E tem mais uma coisa. A culpa esquisita de “estar inventando para ter desculpa”. A sensação de que nomear o que aconteceu é trair alguém. Quebrar uma narrativa que toda a família concordou em manter. Manchar a memória de um avô que já morreu, de uma tia que sempre foi querida, de um pai que tinha as suas falhas, mas fez o que pôde.

Essa culpa também tem origem clara. Foi exatamente assim que a criança aprendeu a lidar com o que sentia. Não fala, não estraga, não faz disso um caso. O adulto que pesquisa hoje, na frente da tela, ainda está obedecendo essa instrução antiga. A culpa de “fazer caso” é a continuação do silêncio que protegeu a criança naquela época, e que agora protege a família, e que continua deixando a foto na gaveta.

Reconhecer não é trair ninguém. É devolver, depois de muito tempo, o tamanho certo para uma coisa que ficou guardada na escala errada.

 

A casa que tem cômodos faltando

Volto à casa antiga um instante.

Às vezes ela não está nem inteira na sua cabeça. Tem cômodos de que você não lembra. Tem um corredor que some no meio. Tem um verão em que você não sabe direito o que aconteceu, só sabe que não quer voltar lá com o pensamento.

E é justo nesse corredor que sumiu, nesse verão em branco, nessa parte da casa que não está no mapa, que costuma morar a coisa que ainda aperta o estômago hoje.

O cérebro guardou ali, atrás de uma porta que ele mesmo trancou. Não por covardia. Por proteção. Naquele momento, era o que dava para fazer com aquilo. Trancar para que a criança pudesse continuar indo para a escola, comer almoço de domingo na casa dos avós, brincar na rua, ser criança no resto do tempo.

Essa porta trancada salvou alguma coisa em você. Não precisa de gratidão, mas merece respeito. Foi a forma que o sistema nervoso encontrou de te manter vivo até aqui.

 

E agora, hoje, o que isso está fazendo com você?

A pergunta “e se foi?” já é parte da elaboração. Não é o começo dela. O começo aconteceu no corpo, há muito antes, quando a foto foi para a gaveta pela primeira vez. Quando você começou a evitar um cheiro sem entender por quê. Quando uma cena de filme te deixou mal e você desligou a TV sem comentar com ninguém.

Então a porta agora não abre para o passado. Abre para o presente.

O que aquela coisa antiga ainda está fazendo com você hoje. No sono que não chega, ou que chega e desperta às três ou quatro da manhã sem motivo. No sexo em que você sai de cena no meio, vira espectador do próprio corpo, e depois fica horas se sentindo estranho sem saber dizer o porquê. Na dificuldade de receber afeto sem desconfiar do que vem junto. No corpo que aperta quando alguém se aproxima de uma forma específica que parece banal para quem está aproximando. Nas pessoas que você escolhe, que repetem padrões que você nem percebe que está repetindo. Nesse cansaço de fundo que não vai embora com férias, com exercício, com o dia de folga que era para resolver.

Isso tudo é a casa antiga ainda morando dentro de você. O canto que não atualizou o tamanho continua mandando sinais para o resto. E o resto, a vida adulta, fica respondendo a uma criança que ninguém viu chegar na sala.

Esse é o trabalho. Não é arqueologia, não é desenterrar o que está enterrado para reviver tudo de novo. É olhar para o que ainda está vivo, hoje, no seu corpo. E ir devolvendo, aos poucos, o tamanho certo para cada coisa.

Se a sua pergunta hoje começou de algo mais recente, e a infância só apareceu como pano de fundo, talvez o ponto de partida seja outro. Tem um texto aqui que segue por essa porta: Foi abuso, mesmo?

 

A foto não precisa voltar para a gaveta

Você não precisa ter certeza para começar. Não precisa de cena nítida, nem de data, nem de prova.

Você precisa de um espaço seguro para “olhar a foto” sem ter que guardá-la de novo no fim.

A casa antiga ainda está lá dentro de você. O canto continua do tamanho de quando você era criança. Mas você cresceu. E hoje você pode escolher com quem entra ali, em que ritmo, e quanto tempo fica.

Não tudo de uma vez. Aos poucos, no seu tempo, no tempo do seu corpo.

Sobre a memória que vem em fragmentos. Sobre o que o sistema nervoso aprendeu a esconder para que a criança pudesse continuar sendo criança. E sobre o caminho de elaboração que respeita o ritmo do corpo. É o que tento falar no livro E se for trauma?. E é também o que acompanho, em atendimento de terapia online.

Se você quiser entender mais sobre o silêncio que se instala em meninos cedo demais, a forma como o que ficou guardado continua mexendo no corpo adulto, e os caminhos de recuperação que existem hoje, tem um guia completo aqui: Abuso Sexual na Infância e Adolescência em Homens.

E se em algum momento quiser conversar, estou por aqui.