Quanto tempo dura uma terapia de trauma?

Homem com a mão apoiada num batente de porta antigo marcado por riscos de lápis de altura, no corredor de uma casa, imagem sobre o tempo que dura uma terapia de trauma

Mike Lew guarda varinhas mágicas no consultório.

Não é piada dele sobre o paciente. É o contrário. Quando um homem chega com pressa de acabar logo com aquilo, Lew se oferece para agitar uma das varinhas, na esperança de uma solução instantânea. Elas nunca funcionam. Conseguem, no máximo, arrancar um sorriso.

Não existe prazo para uma terapia focada em trauma, e quem te der um número está respondendo a outra pergunta. Os números que circulam, do tipo oito a doze sessões, saíram de protocolos desenhados para um evento traumático único. O documento que produziu esse número diz, na mesma frase, que ele sobe quando houve traumas múltiplos. O tempo aqui depende de coisas que ninguém consegue medir na primeira semana, e a única medida honesta é feita olhando para trás.

Este texto fala de tempo, que é justamente o que costuma faltar quando se está cansado de esperar. Tenha empatia com o seu ritmo enquanto lê.

Se você ainda não entrou, o que acontece dentro da primeira hora é previsível e está descrito em o que acontece na primeira sessão. Este aqui é sobre o que vem depois dela, e por quanto tempo.

 

De onde vem o “oito a doze sessões”

Esse número tem endereço, e ele não é secreto. A diretriz britânica de estresse pós-traumático, a NG116, publicada em 2018 e usada como referência no mundo inteiro, recomenda que a terapia cognitivo-comportamental focada em trauma e o EMDR sejam oferecidos a adultos, em geral, ao longo de oito a doze sessões. É daí que vem quase tudo o que você vai encontrar digitando essa pergunta.

Só que a recomendação não termina no número. Ela continua: “mas mais, se clinicamente indicado, por exemplo se a pessoa tiver vivido traumas múltiplos”. A mesma frase que entrega o prazo entrega o motivo para ele não valer.

E existe uma recomendação separada, a 1.7.3, para pessoas com necessidades adicionais, incluindo quem tem estresse pós-traumático complexo. Ela manda o profissional prever tempo extra para construir confiança, aumentando a duração ou o número de sessões conforme a necessidade da pessoa. Não é uma ressalva escondida em nota de rodapé. É recomendação numerada, no mesmo documento de onde saiu o oito a doze.

Some-se a isso um detalhe que desmonta a ideia de que existe um padrão: nem sobre o que significa “longa duração” há acordo. Uma revisão brasileira publicada na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul registra que Gabbard considera longo um tratamento com mais de vinte e quatro sessões ou mais de seis meses, enquanto na Alemanha um tratamento de vinte e cinco a cinquenta sessões não é tido como longo. Os autores admitem que a régua é arbitrária e escolhem a própria.

Irvin Yalom escreveu, sobre o próprio ofício, que a terapia breve e orientada para sintoma é o que se ensina e o que se reembolsa, e que ele se preocupa com uma psicoterapia deformada por pressão econômica. O prazo curto quase sempre foi desenhado por quem paga a conta, não por quem carrega o sintoma. Lew é mais direto, e escreve que não existem curas mágicas, que a recuperação do abuso é um processo de longo prazo, e que é para desconfiar de atalhos e de programas milagrosos.

 

De que depende o tempo?

Depende de coisas concretas, e nenhuma delas é força de vontade. Quanto tempo aquilo durou, e em que idade começou. Se havia alguém em casa a quem dava para avisar. Se você contou uma vez e foi acreditado, ou se contou e a conversa morreu ali.

Pesa também o que está por cima hoje. Sono ruim há anos, álcool para desligar, um trabalho que consome o que resta, uma casa cheia de gente precisando de você. Um sistema nervoso que não consegue descansar nem quando está tudo em paz chega no primeiro mês precisando de outra coisa antes de qualquer processamento de memória.

E depende do que você quer disso. Lew insiste nesse ponto e chama de expectativa realista: quem entra querendo apagar o que aconteceu está com um relógio impossível na mão, porque essa não é uma coisa que a terapia faça. Quem entra querendo dormir a noite inteira e conseguir ficar numa conversa sem sair de si está com um relógio diferente.

Nada disso dá um número. Dá o tamanho do que está em jogo, o que não é a mesma coisa, e é bem mais útil na segunda semana.

 

O risco de lápis no batente da porta

O tempo aqui se mede como altura de criança, e é por isso que ele parece não passar. Você já viu isso numa casa, ou em foto de casa alheia: os riscos de lápis no batente da porta, um pouco acima do outro, com a data do lado em letra torta. Ninguém nunca viu uma criança crescer de tanto olhar para ela. O que se vê é a distância entre dois riscos.

Há um motivo para o de dentro não perceber. O sistema nervoso não trabalha com calendário: ele informa agora, e só agora. É essa a lesão de que este texto todo fala, a de um corpo que continua respondendo a um perigo que já passou como se ele estivesse na sala. Um sistema assim é péssimo informante sobre progresso, porque a cada semana ele só sabe dizer como está hoje.

Lew dá a instrução que resolve isso. Pare periodicamente e pense em onde você estava nesta época no ano passado, há dois anos, há três. Não é exercício de otimismo, e ele mesmo diz que os tempos de aparente inatividade são o momento perfeito para fazer esse balanço.

A pergunta que tem resposta não é “quanto tempo vai levar”, é “onde eu estava nesta época no ano passado”. Uma olha para uma data que ninguém tem. A outra olha para um risco que já está no batente.

O ritmo desse avanço não é escolhido por mim nem por você: o trabalho anda em doses pequenas, no ritmo que o corpo sustenta, e essa é a razão técnica de o processo não ser encurtável por decisão.

 

Por que anos de terapia não encurtaram nada?

Porque entender não é o mesmo que processar, e talvez você já tenha feito a parte de entender. É uma frustração conhecida: a pessoa leu van der Kolk, sabe explicar o que aconteceu, sabe até nomear o mecanismo, e o alarme continua ligado do mesmo jeito.

Saber a origem do barulho não desliga o alarme.

Falar sobre o que aconteceu ativa a linguagem e o raciocínio, que ficam na parte mais nova do cérebro. O que ficou preso não está ali. Está nas regiões antigas, no músculo, na energia de defesa que se preparou e não teve para onde ir. É por isso que entender o trauma não basta, e o que a Psicotraumatologia faz é outra coisa.

Os anos que você já passou em terapia não são tempo perdido, e também não são tempo adiantado num trabalho que acontece em outro lugar. Servem para chegar sabendo o que você já tentou.

 

Os patamares em que nada parece acontecer

Vai haver semanas em que nada parece estar acontecendo, e elas fazem parte. Lew descreve o desenho: para cada período rápido e estimulante de movimento para frente, existem tempos de crescimento lento e difícil, e patamares de aparente inatividade. Ele não trata isso como falha do processo. Trata como parte necessária dele, e diz que quem entende a importância desses períodos consegue ao menos antecipá-los.

Ele avisa também do que acontece dentro desses patamares. Uma decepção pequena parece desfazer tudo o que foi conquistado. Velhos sentimentos de medo e desconfiança voltam justamente quando alguma coisa boa aconteceu. Em algum momento vai dar vontade de desistir, e Lew escreve isso sem adornar: haverá momentos de exaustão e de falta de esperança.

A estrada da recuperação, nas palavras dele, raramente é direta e nunca é uma super-rodovia; parece mais uma pista de obstáculos.

Terapia de trauma não avança em linha reta, e recaída de semana não é prova de que o processo não está funcionando. É por isso que contar sessões não mede nada: o mesmo número de encontros pode conter uma virada ou um platô, e não se sabe qual dos dois antes.

 

O que fazer com a pergunta “quanto tempo”

Dá para fazer a pergunta em voz alta, e o que informa mais é como ela é respondida. Lew recomenda que o sobrevivente chegue à conversa inicial com uma lista escrita de perguntas, e uma das que ele sugere é exatamente essa: quanto tempo você prevê que eu vou ficar em terapia com você? Ele é claro sobre o que esperar da reação. Um terapeuta responsável responde sem se defender, e quem não se dispõe a dar a informação de que você precisa não é o profissional para você.

O que ouvir na resposta é o grau de certeza. Um número redondo, dito com segurança, sobre uma coisa que durou anos e começou antes de você ter palavras, é informação sobre o profissional, não sobre você. Uma resposta honesta soa pior e vale mais: ela descreve de que depende, diz o que costuma acontecer nas primeiras semanas, e não fecha data.

Lew observa outra coisa sobre a pressa. O homem que chega ali não quer estar ali; ele precisa. Já que precisa, e sabe que vai ser difícil, quer terminar com aquilo o mais rápido possível, de preferência ontem. A pressa não é impaciência. É o que sobra de quem esperou tempo demais para ser levado a sério.

Hoje dá para saber uma coisa só, e não é a data. É que existe uma primeira hora, que ela é previsível, e que o que acontece dentro dela você já pode ler antes de decidir qualquer coisa.

 

Perguntas que aparecem antes de começar

Quanto tempo dura uma terapia focada em trauma?
Não existe prazo, e desconfie de quem der um. O tempo depende da duração do que aconteceu, da idade em que começou, do que está por cima hoje e do que você quer do processo. Terapia focada em trauma de abuso sexual na infância é, na literatura da área, um trabalho de longo prazo.

Dá para tratar isso em poucas sessões?
Protocolos curtos existem e foram desenhados para um evento traumático único. A própria diretriz que recomenda oito a doze sessões manda aumentar a duração ou o número de sessões quando houve traumas múltiplos ou quando o quadro é de estresse pós-traumático complexo.

O tempo depende da gravidade do que aconteceu?
Não do jeito que parece. O impacto não é proporcional à forma que o abuso teve, e um episódio único pode deixar marcas mais fundas do que uma situação repetida, dependendo da idade, de quem foi e de como o ambiente respondeu depois.

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Você não precisa decidir hoje quanto tempo vai dar a isso. Não precisa estar pronto, nem chegar com a história em ordem, nem falar do que aconteceu. Dá para começar por uma conversa e ver como é. Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.