Choque emocional: por que você aguentou na hora e desabou depois?

Homem sentado na beira de uma cadeira ao anoitecer, ainda de casaco, mãos apertadas entre os joelhos, um cobertor dobrado e intocado ao lado, rosto fora do enquadramento

 

As mãos ficam frias. O tempo anda mais devagar do que devia. Sua própria voz sai de algum lugar um pouco atrás de você, e você responde às perguntas de todo mundo com uma calma que depois vai te assustar.

Você está ali e não está.

Isso tem nome e não é reação exagerada. Chama-se choque emocional, ou reação aguda ao estresse: o conjunto de respostas do corpo quando algo grande demais acontece rápido demais para ser processado na hora. Não diz nada sobre o quanto você aguenta. Diz que o sistema fez o que sabe fazer.

Se isso acabou de acontecer com você, não precisa ler tudo agora. Se o que está aparecendo neste momento for insuportável, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br, de graça e em sigilo. Se você estiver fora do Brasil, o 188 não funciona, mas o chat sim.

 

Isso é doença?

Não, e quem diz isso é a Organização Mundial da Saúde.

Na Classificação Internacional de Doenças, a reação aguda ao estresse tem código próprio, o QE84. E ela não está no capítulo dos transtornos mentais. Está no capítulo dos fatores que influenciam o estado de saúde, junto de outras coisas que acontecem com pessoas e não são doença.

A descrição oficial diz, com todas as letras, que a resposta é considerada normal diante da gravidade do que aconteceu. E que ela costuma começar a diminuir em poucos dias, depois do evento ou depois que a pessoa sai da situação de ameaça.

A instituição que classifica doença no mundo inteiro olhou para o que você está sentindo e decidiu que aquilo não é doença. É resposta.

Os sinais que ela lista são os que você reconheceria: coração acelerado, suor, a sensação de estar num nevoeiro, confusão, tristeza, raiva, agitação. Ou o contrário de tudo isso, a imobilidade completa.

 

A corda que ninguém soltou

Quando o perigo aparece, o corpo puxa uma corda.

Ele mobiliza de uma vez toda a energia necessária para fazer alguma coisa: correr, empurrar, gritar, sair dali. É uma quantidade de energia que você não usa em nenhum outro momento da vida.

E aí, muitas vezes, a ação não acontece. Não dava para correr, não dava para reagir, ou tudo terminou antes de você se mexer. A corda foi puxada com tudo, e ninguém soltou.

Peter Levine, que passou a carreira estudando o que o corpo faz com essa energia, escreve que um humano ameaçado precisa descarregar tudo o que mobilizou para dar conta da ameaça. E que a energia que sobra não vai simplesmente embora: ela fica no corpo.

É por isso que o tremor depois do susto não é sinal de que você está pior. É o corpo tentando soltar a corda.

 

Por que eu aguentei na hora e desabei depois?

Porque enquanto você segura a corda esticada, parece que está tudo bem.

Você resolve o que precisa ser resolvido. Fala com quem precisa falar. Assina o que precisa assinar. As pessoas em volta comentam como você está sendo forte. Por dentro não existe calma nenhuma: existe uma quantidade enorme de energia sendo gasta para manter você de pé.

O braço é que vai cedendo. Passa um dia, passam dois, e num momento sem importância alguma, escovando os dentes ou parado no sinal, a corda escapa. Aí vem o choro sem hora marcada, o tremor, a irritação desproporcional, a insônia, o cansaço que dormir não resolve.

Desabar depois não é recaída nem sinal de que você piorou. É o que ficou preso chegando quando finalmente existe espaço para chegar.

E tem uma parte disso com nome próprio: a sensação de estar assistindo a si mesmo de fora, como se a cena passasse numa tela. Isso é dissociação, e é uma das defesas mais eficientes que o sistema tem. Escrevi sobre ela separado.

 

O que ajuda nas primeiras 48 horas, e o que atrapalha

O que ajuda é mais simples e mais físico do que as pessoas imaginam.

Ajuda:

  • Não ficar sozinho, mesmo em silêncio. Companhia sem conversa continua sendo companhia.
  • Calor. Agasalho, cobertor, banho morno. O corpo em choque esfria de verdade.
  • Comer e beber alguma coisa, mesmo sem vontade.
  • Deixar o corpo tremer se ele quiser tremer. Levine é explícito ao orientar quem está ajudando: diga à pessoa que tremer é bom e que ajuda a liberar o choque.
  • Dar um tempo para você, mesmo achando que não é para tanto.
  • Dormir mal e não brigar com isso.

Atrapalha:

  • Ser pressionado a contar. O guia de primeiros cuidados psicológicos da Organização Mundial da Saúde, publicado em português pela OPAS, é direto: não se deve pressionar ninguém a relatar o que passou. Quem quiser falar, fala. Quem não quiser tem direito ao silêncio, e o guia recomenda que o silêncio seja permitido.
  • Ouvir que você deveria se sentir sortudo por ter sobrevivido. Está literalmente na lista do que não dizer.
  • Álcool para dormir. Encurta a noite e alonga o depois.
  • Voltar a tudo no dia seguinte para provar que está bem.

 

Quando procurar ajuda?

Quando o quadro sair do desconforto e entrar no risco. A lista da OMS é curta o bastante para ser lembrada.

Procure atendimento agora se houver ferimento que precise de cuidado médico. Procure agora também se a pessoa estiver tão abalada que não consegue cuidar de si mesma ou de quem depende dela, ou se existir risco de ela machucar a si própria ou a outra pessoa. Nesses casos não é questão de esperar passar.

Fora da urgência, a régua é o tempo. A reação aguda costuma começar a ceder em dias. Depois de algumas semanas, faça a conta: o sono voltou, os pesadelos pararam, você voltou aos lugares e aos assuntos que evitou? Se o sistema simplesmente não desliga, o quadro deixou de ser reação aguda e passou a pedir acompanhamento.

 

O que dá para fazer hoje?

Uma coisa só, e ela é física.

Repare onde o corpo está segurando: mandíbula, ombros, mãos, barriga. Não é para relaxar à força, porque à força não funciona. É só para observar sem julgar, e depois observar de novo daqui a uma hora.

Parece pequeno demais para o tamanho do que aconteceu. Mas é assim que a corda cede: em pontos, e não de uma vez.

 

Perguntas que aparecem sempre

 

Quanto tempo dura o choque emocional?

A descrição da OMS diz que costuma começar a diminuir em poucos dias depois do evento, ou depois que a pessoa sai da situação de ameaça. Não existe prazo certo, e “começar a diminuir” não é o mesmo que sumir.

É normal não sentir nada?

É. O entorpecimento está entre as respostas mais comuns e costuma assustar mais que o choro, porque a pessoa conclui que tem alguma coisa errada com ela. Não sentir na hora não diz nada sobre o quanto aquilo importou.

Isso vira estresse pós-traumático?

Na maioria das vezes, não. Reação aguda e estresse pós-traumático são coisas diferentes, e a primeira não é a etapa obrigatória da segunda. O que pesa contra é atravessar esse período sem apoio, sem sono e sem nenhuma descarga.

E se essa sensação não for nova?

Aí é outra conversa. Pode ser que o que aconteceu agora tenha encostado em algo bem mais antigo, que já estava ali antes. O que é trauma emocional trata dessa diferença.

Se o que aconteceu envolveu violência, o Disque 100 funciona 24 horas, é gratuito e serve tanto para orientação quanto para denúncia.

Não precisa esperar organizar o que aconteceu para conversar. Não precisa contar nada que você não queira contar. Se hoje só existe um corpo estranho e nenhuma palavra, dá para começar por aí. Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.