O que significa ressignificar? Não é o passado que muda

Homem de pé diante de uma janela ao fim da tarde, folheando um caderno antigo, luz morna entrando de lado, rosto fora do enquadramento

 

Você tinha quinze anos e riu de uma piada que não entendeu. Riu porque os adultos riram, e ninguém precisa saber do que está rindo para acompanhar a mesa.

Vinte e dois anos depois, do nada, no meio de outra conversa, a piada volta. E dessa vez você entende. O sentido que faltava se encaixa sozinho, e você quase ri de novo, agora pelo motivo certo.

A piada não mudou. Nenhuma palavra dela era diferente. O que mudou foi o que você passou a ter para entendê-la.

Ressignificar é isso, e não é achar o lado bom. É uma cena antiga ganhar um sentido novo quando encontra um presente capaz de entendê-la. O passado não muda. Muda o que você tem hoje para lê-lo. E isso não se força, acontece quando o terreno está pronto.

 

“Tudo acontece por um motivo” não é ressignificar

Essa frase, e as parentes dela, é quase o contrário de ressignificar.

“Tudo acontece por um motivo.” “Isso te fez a pessoa que você é hoje.” “Um dia você agradece por ter passado por isso.” Elas chegam com boa intenção, mas produzem o efeito oposto: calam. Quem ouve pode fechar a boca, concordar com a cabeça e guardar o que sentia, porque acabou de aprender que ali não é lugar para aquilo.

O dicionário é mais honesto que o clichê. Ressignificar é dar um outro ou um novo significado a algo, e a palavra que o Priberam usa no exemplo é justamente “experiência”. Dar novo sentido não é dar sentido bom. É deixar de estar preso a um sentido só.

Porque toda experiência que ficou atravessada já veio com um significado colado, e quase sempre um significado contra você. Foi minha culpa. Eu devia ter reagido. Comigo tinha que ser assim. Ressignificar é poder rever esse rótulo, não pintar por cima dele um sorriso.

 

O segundo tempo: por que o sentido chega depois?

Chega depois porque, no momento em que a coisa aconteceu, faltava a você o que era preciso para entendê-la.

Freud deu nome a isso, e a palavra alemã é tão densa que não cabe em uma tradução só: Nachträglichkeit, o efeito retardado, o segundo tempo. A ideia é simples mesmo quando o nome é difícil. Um acontecimento pode não ter sentido de trauma na hora e só ganhar esse peso mais tarde, quando uma cena nova toca a antiga e reorganiza tudo.

Não é invenção de um autor só. O psicanalista Luiz Celes descreve esse movimento na revista científica Psicologia: Reflexão e Crítica: a lembrança ganha um poder que faltou no acontecimento em si, e passa a agir como se fosse um fato do presente. A memória não é uma foto guardada na gaveta. É um material vivo, que continua sendo reescrito.

É por isso que uma cena de trinta anos atrás pode doer hoje como se fosse ontem, e é o mesmo motivo pelo qual ela pode, um dia, doer menos. O material é o mesmo. O que muda é o presente que chega até ele. Foi disso que tratei em por que eu não lembro da minha infância: a memória não fica parada esperando, ela se move.

O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi acrescentou uma peça que conversa direto com aquelas frases prontas do começo. Para ele, o que fixa um trauma muitas vezes não é só o que aconteceu, e sim um segundo momento: quando o que a pessoa sentiu é negado por quem estava em volta, com palavras ou com silêncio, como se não tivesse sido nada. Ferenczi deu um nome a essa negação, o desmentido, e mostrou que muitas vezes é ela, mais que o episódio, que transforma o acontecido numa ferida que dura. É por isso que “tudo acontece por um motivo” machuca: é uma forma educada de dizer que não foi nada.

 

O que ressignificar não é?

Não é perdoar, não é agradecer, não é relativizar, e não é positivar. Vale dizer os quatro com nome, porque é como cada um se disfarça de cura.

Não é perdoar. Você pode ressignificar o que viveu sem nunca perdoar quem fez, e forçar o perdão como condição costuma travar o processo em vez de soltá-lo.

Não é agradecer pela dor. A dor não foi um presente e não precisa de um obrigado. Dá para reconhecer o que você construiu apesar dela sem fingir que ela foi boa.

Não é relativizar. “Poderia ter sido pior” não reorganiza nada, só empurra o que você sente para debaixo do tapete comparando tamanhos de sofrimento, que é uma conta que não se faz.

E não é ver o lado bom. Ressignificar não é sobre resultado, é sobre deixar de ser comandado por um sentido único, e essa diferença é o assunto inteiro de trauma tem cura?.

 

Por que forçar não pega?

Porque significado forçado é como piada explicada: a mecânica está toda certa e não acontece nada por dentro.

Quando alguém decide, na marra, que vai “ver aquilo por outro ângulo”, costuma produzir uma frase bonita que a cabeça repete e o corpo não acompanha. Você se pega dizendo que já superou e sentindo o peito apertar no mesmo ponto de sempre. O rótulo novo ficou por cima, o antigo continua embaixo, ativo.

O sentido novo não se instala por decisão. Ele se instala quando existe segurança suficiente para a cena antiga ser revisitada sem que o sistema entre em curto. Entender que “não foi minha culpa” com a cabeça é uma coisa. Sentir que não foi, com o corpo inteiro, no momento em que a memória aparece, é outra, e é essa que reorganiza. Por isso entender não basta: a elaboração não é um argumento que você ganha de si mesmo.

 

Como isso aparece, quando aparece

Aparece de lado, sem aviso, e quase nunca no dia em que você tentou.

Não costuma ser um estalo dramático. É mais discreto: um assunto que sempre apertava e um dia passa sem apertar. Uma lembrança que você conta e percebe, no meio da frase, que o tom mudou. A cena continua lá, com os mesmos detalhes, e mesmo assim ela pesa diferente na mão.

Hoje dá para notar uma coisa só, sem forçar nada. Qual é a explicação que você repete sobre o que te marcou, aquela que já saiu automática tantas vezes? Só repare que ela é uma versão, e não a única possível. Não precisa trocá-la agora. Perceber que é uma versão já é a primeira folga na parede.

 

Perguntas que aparecem sempre

O que significa ressignificar, em uma frase?

É dar um novo sentido a uma experiência passada a partir do presente, sem que o acontecimento em si mude. O fato continua o mesmo; o que se transforma é o significado preso a ele, que quase sempre chegou colado contra a própria pessoa.

Ressignificar é esquecer ou superar?

Não. Não se apaga o que aconteceu e não se passa por cima. Ressignificar é conviver com a memória sem ser comandado pelo único sentido que ela trazia. Ela continua ali, com outro peso.

Dá para ressignificar sozinho?

Em parte, e até certo ponto. O sentido novo precisa de segurança para se instalar, e essa segurança costuma se construir na presença de alguém que não foge do que aparece. Por isso o trabalho de trauma raramente avança só na base da força de vontade.

Qual a diferença entre ressignificar e arrumar uma explicação bonita?

A explicação bonita acalma a cabeça e deixa o corpo do jeito que estava. A ressignificação verdadeira muda o que você sente ao lembrar, não só o que você diz sobre a lembrança. Uma você repete para não sentir. A outra você percebe depois que já sentiu.

Você não precisa chegar com o sentido pronto, nem já ter virado a página. Se o que existe hoje é uma história que você conta sempre do mesmo jeito e que cansa, isso já é um bom lugar para começar. Estou por aqui.


Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.