É TDAH ou é trauma?

Homem à mesa de jantar de uma casa comum com a cabeça virada para o corredor atrás dele, garfo parado na mão, enquanto outras pessoas conversam desfocadas ao fundo

Pode ter existido um bilhete no seu caderno. Letra de professora, caneta vermelha, uma linha só: não presta atenção na aula. Espaço embaixo para a assinatura do responsável.

Trinta anos depois pode ter chegado outro documento, mais caro, com timbre, escalas respondidas e a soma dos pontos. E ele diz quase a mesma coisa, com palavras melhores.

Os dois registram o que faltava. Nenhum dos dois diz onde a sua atenção estava.

TDAH e trauma produzem, vistos de fora, o mesmo comportamento: desatenção, inquietação, esquecimento, pavio curto, sono ruim. Os dois existem, os dois são reais, e não é raro que a mesma pessoa tenha os dois ao mesmo tempo. Por isso “TDAH ou trauma” quase nunca é a pergunta que poderia ser feita.

Nada aqui é diagnóstico. E nada aqui é motivo para mexer em remédio, em dose ou em acompanhamento por conta própria: quem mexe nisso é quem prescreveu.

Este texto encosta em coisas que podem ter começado cedo. O ritmo é seu, e vale ter empatia com você mesmo.

 

Por que TDAH e trauma se parecem tanto por fora?

Eles se parecem porque um critério diagnóstico enxerga comportamento, e comportamento é a última camada de uma coisa que começou muito antes. O manual descreve o que dá para ver de uma cadeira ao lado: se a pessoa perde o fio, se levanta, esquece, interrompe, responde antes da pergunta terminar. Nada disso informa por que aquilo está acontecendo.

Bessel van der Kolk, que passou quarenta anos estudando trauma e escreveu O corpo guarda as marcas, descreve o que costuma acontecer nesse ponto. A mesma pessoa recebe cinco ou seis diagnósticos diferentes ao longo do tratamento. Se quem atende repara na oscilação de humor, sai um nome. Se repara no desânimo, sai outro. Se repara na agitação e na falta de atenção, o nome que sai é TDAH. Ele é cuidadoso com a conclusão: nenhum desses nomes está de todo errado, e nenhum deles diz com clareza o que a pessoa tem.

E não é só a observação dele. Uma revisão brasileira sobre trauma complexo, publicada na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, registra que entre crianças com histórico de maus-tratos e negligência o estresse pós-traumático não é o diagnóstico mais frequente. Os que mais aparecem são, nesta ordem: ansiedade de separação, transtorno desafiador opositivo, fobia social, estresse pós-traumático e TDAH. A mesma revisão descreve, entre os efeitos dessas experiências, alterações de atenção e de consciência, impulsividade e hipervigilância.

O que ficou registrado no papel foi o comportamento. O que aconteceu antes dele quase nunca entrou no papel.

 

A atenção que ficou de plantão

A sua atenção pode nunca ter sumido. Ela pode ter sido requisitada por outra coisa.

Uma reunião qualquer. O número na tela não entra, você lê a mesma linha duas vezes e continua sem saber o que ela diz. Mas você registrou que a porta abriu atrás de você. Registrou que a voz de alguém mudou de tom no meio da frase. Registrou quem cruzou os braços e em que momento exato.

Isso tem nome: hipervigilância. É o estado em que o sistema nervoso segue varrendo o ambiente atrás de sinal de perigo, mesmo quando não existe perigo nenhum ali. Ele não desliga porque nunca recebeu a informação de que o turno acabou. Quando o ambiente foi imprevisível cedo demais, ler o clima da sala deixou de ser um talento e virou uma função: alguém precisava saber, antes de todo mundo, quando a coisa ia virar.

Varrer o ambiente custa caro. A atenção tem tamanho fixo, e a parte dela que está na porta abrindo não está na planilha. Por fora, isso aparece como distração. Por dentro, é tempo integral. Hipervigilância não é falta de atenção. É atenção alocada num trabalho que ninguém encerrou. É também o motivo de o corpo não descansar nem quando o dia foi tranquilo.

Pete Walker, terapeuta americano que escreveu sobre trauma complexo, observa a mesma zona de confusão. Ele descreve quadros com cara de TDAH que entende melhor como uma resposta de fuga que ficou travada em ligado: a pessoa se mantém em movimento porque parar dói. E faz, na mesma página, a ressalva que este texto inteiro precisa fazer: isso não quer dizer que as duas coisas não aconteçam juntas.

 

Então o TDAH não existe?

Existe, e é levado a sério aqui. O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento com critério diagnóstico definido, e no Brasil tem protocolo clínico oficial do Ministério da Saúde, publicado em 2022, orientando diagnóstico, tratamento e acompanhamento na rede pública.

Vale dizer com todas as letras, porque circula muito texto sugerindo o contrário: se você tem diagnóstico e faz tratamento, nada do que está escrito aqui é motivo para mudar qualquer coisa sozinho. Esse mesmo protocolo recomenda intervenção multimodal, isto é, remédio e trabalho terapêutico caminhando juntos, e não um no lugar do outro.

Trauma não é uma teoria alternativa ao TDAH. É uma pergunta a mais, feita por quem já cuida de você.

 

Dá para ter os dois ao mesmo tempo?

Dá, e é comum. Comorbidade é o nome técnico para duas coisas acontecendo na mesma pessoa ao mesmo tempo, e no TDAH ela é quase a regra: o protocolo do Ministério da Saúde registra que entre 50% e 90% das crianças com TDAH têm pelo menos uma outra condição junto, e que 85% dos adultos com TDAH preenchem critério para alguma comorbidade. O quadro de comorbidades do próprio protocolo lista o transtorno de estresse pós-traumático entre as condições que precisam entrar na conta do tratamento.

Uma revisão sistemática publicada em 2025, que reuniu vinte e um estudos com adultos, encontrou taxas de coexistência entre TDAH e estresse pós-traumático de 28% a 36%. Os autores fecham com uma recomendação simples: quando um dos dois é diagnosticado, vale investigar o outro com cuidado.

Isso desmonta a pergunta de partida. Ter TDAH não é um álibi contra o trauma, e ter trauma não invalida o TDAH.

 

O que ninguém perguntou na consulta

O que costuma faltar numa avaliação não é competência do profissional: é uma pergunta que pode levar um tempo para ser respondida. Os critérios são de comportamento observável, as escalas perguntam com que frequência você perde coisas e com que frequência se distrai, e todas as respostas cabem numa consulta de quarenta minutos. Nenhuma dessas perguntas é sobre como era a sua casa na infância, ou sobre o que pode ter acontecido na adolescência.

A pergunta que organiza o trabalho com trauma é outra. Não é o que há de errado com você. É o que aconteceu com você. As duas produzem laudos parecidos, mas conversas completamente diferentes.

E ela muda o que se faz depois. Se o pavio que encurta do nada for impulsividade, treina-se pausa. Se for um sistema nervoso que já entrou na sala esperando confronto, treinar pausa ajuda pouco, porque a reação chegou antes de existir tempo para pausar. Os dois trabalhos são legítimos. Mas eles não são o mesmo trabalho.

 

Como levar isso para o seu médico ou terapeuta?

Levando pergunta, não conclusão. Quem chega com o diagnóstico pronto tirado da internet dificulta o trabalho de quem tem formação para fazê-lo. Quem chega com uma boa pergunta faz esse trabalho render.

Cinco que cabem numa consulta:

  • Pode ter mais de uma coisa acontecendo junto no meu caso?
  • O que eu vivi na infância chegou a entrar nessa avaliação?
  • Tem sintoma meu que o TDAH sozinho não explica bem: o sono, o sobressalto, os períodos em que eu me desligo?
  • Se a gente tratar só o TDAH, o que provavelmente continua?
  • Faz sentido eu olhar isso com alguém que trabalha com trauma, junto com o que já faço aqui?

Nenhuma dessas perguntas ameaça o seu tratamento. Todas elas alargam a avaliação, que é exatamente o que o protocolo pede quando existe suspeita de comorbidade. E se a resposta que você recebe for uma porta fechada, isso também é informação: quando o tratamento certo não chega no lugar certo, o que costuma faltar não é esforço seu.

Você não precisa da resposta. Precisa da pergunta na mão, e de alguém com formação para respondê-la junto com você.

 

O que dá para notar hoje

Dá para notar uma coisa pequena hoje: para onde a sua atenção vai quando ela sai.

Ela some, ou ela vai a algum lugar? Vai para a porta, para o barulho no corredor, para o rosto da pessoa que ficou em silêncio? Sai correndo atrás de uma ideia melhor que a da reunião? Não existe resposta certa aí, e o que aparece não fecha diagnóstico nenhum. É só a primeira informação que o bilhete da professora nunca teve.

O plantão não termina por decisão, e ninguém sai dele prestando mais atenção. Ele afrouxa quando o corpo recebe, muitas vezes e num lugar seguro, a informação de que não precisa mais montar guarda. Isso leva o tempo que leva, e não é sobre lembrar de tudo, nem sobre contar nada.

Enquanto isso, o que você tem hoje já serve: um documento que explica uma parte, e uma pergunta que ainda não foi feita.

 

Perguntas que aparecem depois

Remédio para TDAH funciona se a causa for trauma?
Essa resposta é de quem prescreve, com o seu histórico na mão, e não de um texto na internet. O que dá para dizer com segurança é que melhora ou falta de melhora com medicação não confirma nem descarta nada sozinha, e que qualquer mudança de dose ou de esquema se conversa antes com quem acompanha você.

Preciso lembrar de alguma coisa da infância para isso fazer sentido?
Não. Muita gente não lembra, e não lembrar não é sinal de que foi leve. O trabalho com trauma começa pelo que está acontecendo hoje no corpo, não por uma memória organizada.

Se aparecer trauma junto, eu paro o tratamento do TDAH?
Não. As duas coisas coexistem com frequência e o protocolo oficial trata as duas, não uma no lugar da outra. Descobrir uma segunda peça é motivo para somar cuidado, nunca para retirar o que já está funcionando.

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Se em algum momento o que aparecer for insuportável e você precisar falar com alguém na hora, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188 e pelo chat, de graça e em sigilo.

Não precisa trocar nada do que você já está fazendo para conversar. Nem chegar com uma história organizada, nem falar do que aconteceu. Se hoje o que existe é um incômodo que o diagnóstico não explicou, já dá para começar por aí. Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.