Raiva explosiva sem motivo: por que acontece?

Raiva explosiva sem motivo - por que acontece?

 

O berro

“Pai, eu posso —” pela terceira vez. Pela terceira vez na mesma manhã, com aquela voz fina de menino de seis anos. Ele estava no celular respondendo uma mensagem do trabalho, e talvez não tivesse escutado as duas primeiras. Ou tivesse escutado e dito “espera”. Ele já não sabe.

Sabe que berrou. Berrou alto. “EU JÁ DISSE PARA ESPERAR. Você não escuta?” E o menino calou. Olhou para ele com aquela cara de criança que está calculando rápido, em silêncio, o tamanho da coisa que acabou de vir.

Cinco minutos depois, a raiva sumiu. No lugar tem outra coisa. Uma coisa que aperta diferente.

Sua companheira estava no batente da porta. Não disse nada. Só olhou. E aí ele se levantou, foi para o banheiro, fechou a porta com cuidado para parecer que não estava fugindo, e ficou ali parado, com a mão no rosto, fazendo a pergunta que faz toda vez.

“De onde foi que veio isso?”

Ele já fez essa pergunta, sentado na privada com a tampa baixada, depois de gritar com a mãe, com o irmão, com a namorada, com o vizinho que estacionou errado, com o colega que falou na hora errada. A pergunta volta sempre. A resposta nunca chega.

 

O que aconteceu antes do berro

A explosão não começou no berro.

Começou antes, em algum lugar específico do corpo. E esse lugar é diferente em cada homem. Em uns é o peito que esquenta numa fração de segundo. Em outros é a mandíbula que trava antes de qualquer pensamento aparecer. Tem quem sinta a mão fechando sozinha, tem quem sinta uma onda fina subindo do estômago, tem quem nem perceba nada além de uma escuridão curta que passa rápido demais para ser entendida.

O berro é só o último capítulo de uma cena que já estava em movimento.

A maior parte dos homens nunca olhou para esses sinais. Eles passam num segundo. O que fica depois é a explicação rápida: “perdi a paciência”. Mas a paciência não foi perdida ali. Mas a paciência não foi perdida ali. Ela já estava no limite havia muito tempo. O berro de manhã foi só a gota que faltava.

Por que estava no limite?

Porque outras coisas, durante a manhã, durante a semana, durante os últimos quinze ou vinte anos, foram sendo engolidas em silêncio. A reunião da terça em que ele engoliu sapo. A mensagem da mãe que ele leu e não respondeu, mas ficou rodando na cabeça três dias. Aquilo que ele queria dizer para pessoa que vive com ele há semanas e foi adiando, porque cansou. O e-mail do chefe que ele leu duas vezes para ter certeza de que estava sendo desrespeitado, e mesmo assim respondeu “claro, sem problema”.

Tudo isso ficou em algum lugar do corpo. Não evaporou.

Quando o filho perguntou pela terceira vez, não foi a pergunta do filho que pesou. Foi tudo o que tinha sido empurrado para depois, somado com a pergunta do filho. A criança levou no peito o peso de coisas que aconteceram antes dela existir.

E ele saiu daquela cena se odiando.

 

O cachorro que viveu na coleira curta

Um cachorro que durante anos viveu acorrentado num quintal, numa coleira curta demais. Ele não podia correr quando alguém se aproximava. Não podia fugir do que vinha. Não podia chegar na cerca para latir de longe. A corrente puxava no pescoço a cada movimento, e a energia que ia virar corrida ficava presa no corpo dele.

Esse cachorro não se torna calmo. Ele vira um cachorro num estado constante de alerta, com o pescoço marcado pela corrente. E vai juntando dentro do corpo, dia após dia, ano após ano, todo o movimento que não pôde fazer.

Anos depois, alguém abre o portão.

Mas o corpo do cachorro não sabe que o portão está aberto. Quando alguém se aproxima, o reflexo continua o mesmo. Só que agora não tem corrente segurando. Toda a energia que ficou guardada esses anos todos sai de uma vez na primeira aproximação. Ele rosna, avança, morde antes de pensar. E quem se aproximou nem entendeu o que fez, porque do lado de fora não fez nada.

Porque quase sempre, quem se aproxima é quem ama ou apenas quer ajudar o cachorro.

 

A energia que ficou guardada

A raiva tem uma função no corpo, e essa função é específica. Ela é a energia de defesa. O combustível que prepara o organismo para empurrar para longe o que está ameaçando. Em condições saudáveis, essa energia se mobiliza, faz o que precisa fazer, completa o ciclo, e desce.

Mas tem corpos que aprenderam, há muito tempo, que mobilizar essa energia era pior do que engolir. Que mostrar raiva trazia consequência maior do que ceder. Que reagir, mesmo numa resposta proporcional, gerava resultado pior do que aguentar calado. Esses corpos aprenderam a engolir a raiva com gesto automático.

E a energia que era para sair ficou guardada.

Não num lugar abstrato. Num lugar específico do corpo. Geralmente o mesmo lugar onde o homem sente o primeiro sinal antes da explosão. O peito de quem aprendeu a engolir grito. A mandíbula de quem aprendeu a engolir resposta. O estômago de quem aprendeu a engolir a lágrima. Os ombros de quem aprendeu a engolir a vontade de fugir.

Homens descrevem essa energia de jeitos diferentes. Uns falam de represa. Outros de bomba. Outros não acham palavra. Eu prefiro a imagem do animal que não pôde se mover, porque animal a gente entende. Ninguém olha para um cachorro acorrentado por dez anos e diz que ele tem defeito de caráter. A gente sabe que aquilo é o que coleira curta fez com corpo vivo.

Mas com homem, a gente esquece.

 

A raiva é uma mensageira, não é o problema

A raiva quase nunca vem do nada. Ela tem um ponto de origem do dia, da semana, do ano. E o ponto de origem raramente é o filho perguntando pela terceira vez.

O filho é o lugar onde ela saiu. O lugar onde ela mora é em outro canto.

Pode ser um chefe que vem pesando há meses e que você ainda chama de ‘a vida que escolhi’. Uma mãe que continua exigindo coisas que você nunca aprendeu a recusar, e cada ligação dela termina com você cansado sem saber por quê. O casamento em que parou de pedir o que precisa porque cansou de ouvir não. Ou você mesmo, cobrando de você um padrão que ninguém aguentaria por uma semana.

A raiva está te mostrando onde, hoje, o corpo ainda responde como se estivesse na coleira curta.

Ela não está pedindo para ser controlada. Está pedindo para ser ouvida no recado que está trazendo. E o recado dela é específico. Tem endereço.

Quando o homem aprende a perguntar, depois da explosão, “isso veio de onde?”, e responde com honestidade, costuma encontrar dois ou três lugares na vida atual em que ele está engolindo de novo, do mesmo jeito que aprendeu a engolir antes.

A explosão com o filho foi onde a represa achou fresta. Mas a represa estava cheia por outros motivos, e esses motivos têm nome.

 

Quando a coleira começou

Para alguns homens, essa história de engolir começou bem antes do chefe atual, do casamento atual, da mãe que liga.

Há corpos que aprenderam a engolir aos quatro, aos sete, aos onze anos. Em casas onde a única reação saudável teria sido gritar, ou correr, ou empurrar, e nenhuma das três era possível. Porque o adulto era maior. Porque a mãe ia chorar e a culpa cairia em você. Porque a pessoa que estava fazendo aquilo era alguém que a criança não podia perder, ou não podia denunciar, ou não podia sequer reconhecer como ameaça sem desabar junto. Porque ninguém ouvia mesmo se gritasse, ou pior, ouvia e dizia para a criança parar de fazer escândalo.

Essas crianças aprenderam, com o corpo todo, que mostrar raiva era mais perigoso do que o que estava causando a raiva.

Então engoliram. Engoliram tantas vezes que o engolir virou o jeito padrão de estar no mundo. Virou o reflexo. E foi crescendo o tanque, gota a gota, ano a ano, com a energia de defesa que o corpo mobilizou e não pôde mover.

O adulto que esse menino virou hoje não engole de propósito. Engole por automatismo. E quando o tanque transborda, transborda no menor, no mais próximo, ou no que ele confia que não vai embora. Geralmente quem ele ama.

E aqui mora a parte mais cruel dessa história. O homem que cresceu engolindo raiva de quem o feriu acaba descarregando essa raiva em quem mais o ama. Não porque seja cruel. Porque o corpo que cresceu em alerta ataca primeiro quem se aproxima.

Entender de onde vem não é ganhar passe livre. ‘Eu sou assim’ é a frase que tranca a porta. O berro continua machucando quem está na frente dele, mesmo quando você passa a saber a origem. Saber é por onde a coisa começa a se mover, não onde ela termina.

 

Não é o castigo que tira o cachorro da coleira

O primeiro sinal de que alguma coisa está mudando não é deixar de explodir.

É começar a notar a explosão chegando. Dois segundos antes, cinco segundos antes, um. O peito esquentando. A mandíbula travando. O pé que começa a balançar embaixo da mesa antes que você tenha entendido que estava ficando bravo.

Por um tempo, notar não muda a explosão. Ela ainda vem. Mas notar é a primeira fresta no automático. É a primeira vez em décadas que o corpo conta para você, com alguma antecedência, o que está acontecendo dentro dele.

E depois do berro, em vez da vergonha que afunda e termina no banheiro com a mão no rosto, uma pergunta nova. “O que era, antes daquilo?”

Essa pergunta, feita sem castigo, com algum interesse pelo que aconteceu dentro de você, é o que vai abrindo a coleira aos poucos. Castigo não solta cachorro acorrentado há vinte anos. Castigo aperta mais a coleira, ensina o corpo que ele tem mesmo defeito, reforça o automático.

O que solta é outra coisa. É espaço, tempo, e a presença de alguém que mostra para o corpo dele, devagar, que o portão está aberto. Que a casa nova é outro lugar. Que não precisa atacar primeiro quem se aproxima, porque agora as aproximações são diferentes do que foram antes.

Essa é a elaboração. Não é controle de impulso, não é técnica de respiração na hora do estouro. É um trabalho mais lento, mais antigo. Vai afrouxando o aperto aos poucos, ensinando o corpo que dá para baixar a guarda

E aí um dia o filho pergunta pela terceira vez, e em vez do berro vem um suspiro. Você olha para ele, deixa o celular de lado, e responde. Sem moral da história, sem épica de superação. Só um suspiro, e uma resposta.

É sobre a raiva que não vem da raiva. Sobre tudo o que o corpo guardou em silêncio durante anos esperando a hora de sair, e o trabalho de ir devolvendo, aos poucos, o tamanho certo para cada coisa. É o que tento falar no livro E se for trauma?, e o que acompanho em atendimento online, com homens que conhecem essa pergunta melhor do que gostariam.

Se você quiser ir além da raiva e entender o panorama maior — o que pesa em homens que carregaram silêncio durante décadas, e os caminhos que existem hoje para sair desse lugar — tem um texto aqui: Abuso Sexual em Homens: O que É, como Acontece e Por que tantos ficam em Silêncio.

E se em algum momento quiser conversar, fale comigo.