
“Dia 24 vai ser aqui em casa, todo mundo confirmado?”
A mensagem chega no grupo da família numa tarde qualquer, a milhares de quilômetros de distância. Embaixo dela, os nomes vão aparecendo, um por um, com figurinha e coração. E pode ser que, no meio da lista, apareça o nome de quem abusou de você.
A passagem talvez já esteja comprada. A família espera há dois anos. E o corpo reage antes de qualquer decisão: um aperto no estômago, a vontade de deixar o celular virado para baixo na mesa.
Não existe resposta certa sobre ir, quanto tempo ficar ou o que dizer quando se reencontra quem abusou de você, e ninguém pode decidir isso no seu lugar. O que dá para fazer é chegar com chão. Entender por que o corpo reage tanto nessa visita, quando lá fora ele andava mais quieto, e preparar algumas saídas antes de embarcar. Nada disso obriga você a confrontar, perdoar ou contar nada para ninguém.
Este texto fala de alguém que talvez ainda faça parte da sua família. O ritmo é seu. Se o corpo pedir pausa, pause, e tenha paciência com você.
Porque a distância estava fazendo um trabalho que você nem sabia que era trabalho.
Lá fora, entre você e aquela casa, havia horas de voo, um fuso, outra língua, outra rotina. O corpo registra isso. O sistema de alarme do cérebro, que o psiquiatra Bessel van der Kolk compara a um detector de fumaça, tende a ficar menos aceso quando a fonte do perigo está longe. Não porque você esqueceu. Porque a geografia passou a vigiar por você.
Na visita, essa vigilância volta inteira para o corpo. E costuma vir junto uma coisa estranha: a casa devolve a idade. Mike Lew, autor de Vítimas Nunca Mais, um dos livros mais usados por homens sobreviventes, observa que parte da imagem que a pessoa tem de si pode ficar congelada no momento do abuso. Você entra pela porta adulto, com uma carreira e outro país no passaporte, e alguma coisa em você passa a se mexer com o tamanho que tinha naquela época.
Quando a distância deixa de proteger, o corpo assume a vigilância que a geografia fazia. É por isso que um homem que dorme bem lá fora pode passar a semana no Brasil acordando cedo demais, com o maxilar travado.
Muita coisa, e quase nenhuma delas é escolha.
Pode ser que você fique simpático demais, servindo todo mundo, sem sentar. Ou que congele no sofá e só perceba, uma hora depois, que não abriu a boca. Tem homem que descobre um motivo atrás do outro para estar fora de casa: a padaria, o gelo que acabou, uma carona que ninguém pediu. E tem a cerveja, que lá fora era uma e ali vira a tarde inteira.
Nada disso é exagero seu. São respostas de um sistema nervoso que reconhece o lugar. Cada pessoa tem uma faixa em que consegue sentir sem ser engolida pelo que sente, e ela tem nome: janela de tolerância. Perto de quem abusou, essa faixa costuma estreitar. Ficar agitado ou desligado ali dentro não mede a sua força. Mostra que a janela ficou pequena naquela sala, naquele dia.
É o mais comum, e é parte do que pesa.
Às vezes a família não sabe. Às vezes sabe e escolheu não falar. Em qualquer dos casos, você pode passar a ceia vendo todo mundo tratar com naturalidade alguém que, para você, carrega outra história: servir o prato, rir da piada, pedir para essa pessoa tirar a foto da família inteira.
Isso não faz de você o estranho da mesa. No Brasil, o abuso sexual na infância acontece sobretudo dentro da família. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022 registrou que, nos casos de estupro de vulnerável, o autor era alguém conhecido da criança em 82,5% dos registros, e descreveu essa violência como preponderantemente intrafamiliar, acontecendo dentro de casa. O mesmo texto levanta a hipótese de que os meninos, num país machista, denunciam ainda menos que as meninas.
O silêncio da família em volta da mesa diz mais sobre o quanto ela consegue olhar do que sobre o tamanho do que aconteceu. E é provável que, em muitas outras ceias pelo país, outro homem esteja sentado com a mesma coisa no peito, servindo o mesmo prato.
Não precisa de nenhum dos dois para atravessar um Natal.
Lew dedica um capítulo inteiro ao confronto, e começa dizendo que não existe regra geral: é uma decisão individual, que para alguns é um próximo passo e para outros pode ser perigosa. Ele também observa que o impulso de confrontar de repente, quando as lembranças ficam mais vivas, raramente é uma boa ideia, e que enfrentar alguém nos termos dele torna tudo mais difícil do que precisa ser. Uma ceia com vinte pessoas, criança correndo e tia fazendo foto costuma ser exatamente os termos de outra pessoa.
Para Lew, confrontar, no sentido que mais importa, nem passa pelo abusador. É reconhecer, por dentro, que o que aconteceu foi abuso e que a responsabilidade nunca foi sua. Isso pode acontecer no avião, no quarto de hóspedes ou daqui a dois anos. E ele lembra que dá para mudar de ideia a qualquer momento, quantas vezes for preciso.
O perdão segue a mesma lógica. Não é ingresso para a ceia. Se um dia fizer sentido, vai fazer no seu tempo, e não porque é dezembro.
Aqui não existe regra. A única medida é o quanto você está se sentindo confortável, e só você consegue saber isso. Vale se observar antes da viagem e durante: o que acontece no corpo quando você pensa naquela casa, em que momento o aperto começa, quando ele afrouxa.
Algumas coisas costumam dar chão, e nenhuma é obrigatória. Pegue o que servir para você e deixe o resto.
Lew conta que os homens dos grupos que ele acompanhava passaram a ir juntos a eventos de família uns dos outros. Ele chama isso de criar uma família nova, do jeito que a família sempre deveria ter sido.
Não ir também é uma possibilidade, e ela não precisa de uma justificativa que convença todo mundo. Ir também é.
Pode ser que o mais difícil venha depois.
Você aguentou a semana inteira. Sorriu nas fotos, ajudou a lavar a louça, se despediu no portão. E aí, já em casa, longe de novo, com a mala ainda fechada no canto do quarto, o corpo desaba. Um cansaço que não passa, choro sem motivo, irritação com quem não tem nada com isso. É comum o corpo segurar enquanto precisa e cobrar quando encontra um lugar seguro, e isso está explicado em por que você aguentou na hora e desabou depois.
Pode valer tratar a volta como parte da viagem. Dormir mais, não marcar nada pesado na primeira semana, contar para alguém da sua rede de lá como foi de verdade, e não a versão das fotos.
Se dezembro reabriu coisa demais, isso é informação, e não um fracasso seu. Conversar com alguém, na sua língua, sobre o que a visita mexeu é uma possibilidade, e como isso funciona para quem mora fora está em terapia em português para brasileiros no exterior.
É normal travar perto de quem abusou de mim, mesmo adulto?
É. O corpo reconhece pessoas e lugares ligados ao perigo antes de qualquer pensamento, e reage com alerta ou congelamento. A idade que você tem hoje não desliga essa resposta, e ela pode mudar com tempo e com apoio.
Preciso contar para a família no Natal?
Não. Contar é uma decisão que não tem data marcada, e uma festa cheia de gente costuma ser o cenário mais difícil para ela. Se um dia você quiser contar, dá para escolher a hora, o lugar e a pessoa.
Se eu não for, estou fugindo?
Proteger o próprio corpo não é fugir. Ir e não ir são escolhas possíveis, e o que importa é que a decisão seja sua, e não da pressão do calendário.
🔗 Leia também: Como contar que fui abusado sexualmente
Se o que está aparecendo agora é insuportável e você precisa conversar com alguém, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188 enquanto você estiver no Brasil, e pelo chat no site de onde você estiver, gratuitamente e em sigilo. Para denunciar violência sexual, o Disque 100 atende pelo telefone 100, no Brasil, e também por WhatsApp, no +55 61 99611-0100.
Você não precisa decidir agora se vai, nem chegar com um plano pronto, nem falar do que aconteceu. Dá para começar pelo que está sendo esperar dezembro. Estou por aqui.

Sou Bacharel em Psicanálise, com formação em Psicotraumatologia e extensão universitária em Psicologia Analítica. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o assunto, leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.
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Reinaldo Soeira | Psicanálise e Trauma Masculino
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