Como contar que fui abusado sexualmente

Homem calado no fim de um almoço de família, mãos em volta do copo e cabeça baixa, com as outras pessoas conversando desfocadas ao fundo

“Preciso te contar uma coisa.”

Você já pensou nessa frase? Na mesa de jantar. No chuveiro. Deitado, no escuro, com a pessoa dormindo do lado.

Ou já pensou no que vinha depois de dizer? O que a pessoa ia perguntar primeiro, a cara que ela ia fazer, o silêncio que vinha antes da resposta.

Essa é uma conversa que você já pode ter tido dezenas de vezes na sua cabeça.

Contar não é um acontecimento, é um processo, e ele começa muito antes da frase sair. Não existe hora certa, palavra certa, nem ordem certa. Você não precisa contar tudo, nem contar direito, nem começar por onde acha o mais óbvio. O que dá para organizar é a sua parte. A reação da outra pessoa nunca foi a sua parte.

Este texto fala de algo que talvez você tenha carregado em silêncio por muito tempo. Tenha empatia com o seu ritmo. Se o corpo pedir pausa, pause.

 

Por que contar pesa mais do que parece?

Contar pesa porque o silêncio não foi escolha sua: ele foi instalado por fora, e você aprendeu a mantê-lo antes de saber o que estava mantendo. Mike Lew, que escreveu o primeiro livro voltado para homens sobreviventes, tem uma frase seca para isso: o segredo é o cimento que mantém o abuso no lugar. Ameaça, presente, explicação torta, a ideia de que ninguém acreditaria. Cada uma dessas coisas ensinou uma criança a não falar. E depois a criança cresceu, e a regra ficou.

Quem olha de fora pergunta por que demorou tanto. Quem viveu sabe que não dava antes.

Numa revisão internacional da pesquisa sobre revelação de abuso sexual infantil, o estudo feito com 487 homens sobreviventes traz o número: entre o que aconteceu e a primeira vez que se fala passam, em média, mais de vinte anos. Vinte anos não é falta de coragem, é quanto tempo leva para juntar informação, distância e um lugar seguro o bastante.

Essa mesma revisão muda o jeito de olhar para a conversa. Contar não é um evento único, é um processo que vai e volta e acontece dentro de uma relação. A primeira vez não é a última, e não decide o resto.

E tem o medo que quase nunca é dito em voz alta. Nessa revisão, o estudo que comparou revelações de homens e de mulheres encontrou três barreiras que só apareceram nos homens: o medo de que passem a vê-lo como gay, o isolamento de quem acha que com menino isso não acontece, e o medo de que pensem que ele pode fazer o mesmo. O terceiro é o que mais trava a boca de quem tem filho pequeno. E, para quem é gay, essa conversa pode ter duas revelações de uma vez.

 

O ensaio

Ensaiar a conversa antes tem uma função: é o sistema nervoso tentando entrar preparado em algo que parece perigoso. O que atrapalha não é o ensaio. É que no ensaio você escreve as duas falas, a sua e a da pessoa que vai ouvir.

Você pensa na sua, pensa na dela, e depois passa a esperar aquela. Se a pessoa chorar do jeito errado, você se assusta. Se ela ficar quieta, você lê como rejeição. Se ela perguntar um detalhe que não estava no ensaio, você trava. A cena não falhou. Ela só não era a sua cena, porque a outra pessoa nunca viu os pensamentos que você escreveu para ela.

E tem um detalhe: na hora, o roteiro pode sumir. A voz sai baixa, a frase embola, você esquece o que ia dizer. Sob vergonha, o cérebro entra em modo de sobrevivência e o córtex pré-frontal, que é a parte que planeja e organiza a frase, sai do comando. Brené Brown descreve exatamente esse sequestro. Você não perdeu o texto. Ele foi guardado por um sistema mais antigo, que achou que você estava em perigo.

Visualizar as reações possíveis ajuda de verdade. Esperar uma reação específica, não. É uma diferença sutil e é ela que decide como você sai da conversa. Uma prepara. A outra cobra.

Quando eu entendi que não controlo a reação de ninguém, tudo mudou. Não porque a reação passou a ser boa ou ruim, mas porque eu parei de conferir se ela batia com a que eu tinha imaginado.

 

O que você quer, de verdade, quando quer contar

Na maior parte das vezes o desejo não é informar, é dividir. Você não quer que a pessoa saiba um fato sobre o seu passado. Você quer parar de carregar sozinho o que carrega há anos, e quer alguém dentro disso com você.

Quando eu contei, foi assim: eu disse que precisava contar uma coisa, e chorei antes de terminar. Não entendi por que não conseguia falar direito. Hoje sei que era um peso mudando de lugar.

Junto com isso pode vir um segundo movimento. Você querer ver se a pessoa segue com você sabendo. Eu fiz esse cálculo antes de contar, e na época nem sabia que estava fazendo. Só entendi depois, na terapia, que eu não queria apenas falar. Eu queria alguém junto naquilo que eu estava passando. E que, se a pessoa não pudesse, era melhor eu saber.

Isso não foi um teste de maldade nem armadilha. É o que sobra quando alguém aprendeu cedo que confiança pode custar caro. É a mesma raiz do que faz você afastar quem chega perto demais: se ninguém entra, ninguém sai.

Lew escreve a mesma coisa, dirigida a quem está do outro lado: ficar ou sair é escolha da pessoa, o vínculo vai precisar ser reavaliado como se fosse novo, e os dois vão ter que decidir se faz sentido continuar. O cálculo que você faz calado é uma conta que o outro também tem direito de fazer. Isso não torna o seu medo menor. Torna ele legítimo.

 

Como a pessoa vai reagir quando eu contar?

Existem reações que se repetem tanto que dá para conhecer antes, e conhecer antes tira o susto da hora. O mapa mais detalhado que existe foi feito com mulheres que contaram sobre violência sexual, então ele não descreve exatamente a sua situação. As categorias, porém, são as mesmas que aparecem quando é um homem falando.

Existe o apoio de verdade: a pessoa acredita, fica, e não faz nada além de ficar.

Existe a pessoa que procura saber o que você fez, cobra por que não contou antes, ou passa a te tratar como se você tivesse ficado frágil da noite para o dia. A pesquisa chama isso de culpabilizar e estigmatizar. Culpabilizar é procurar a sua parte no que aconteceu. Estigmatizar é passar a te olhar diferente.

E existe a reação mais comum e a que mais dói: a pessoa reconhece o que aconteceu e não sustenta. Desaba tanto que você acaba consolando ela. Fala para você não pensar mais nisso, ou fica com raiva, ou quer decidir o que vai ser feito agora que ela sabe. Uma reação assim pode aparecer associada a uma dificuldade maior de lidar com o depois do que as reações abertamente hostis. Não por má intenção. Mas porque reconhece o que aconteceu e deixa você sozinho ali do mesmo jeito.

Sempre vão aparecer reações que não cabem em uma lista. A lista não serve para adivinhar. Serve para você não ser pego de surpresa e não concluir, na hora, que aquilo é sobre o seu valor.

A reação diz muito mais sobre quem ouve do que sobre quem conta. Lew é direto nisso: nem todo mundo está disposto ou é capaz de ouvir um relato de abuso sexual, e uma pessoa com a melhor das intenções pode simplesmente não ter recurso para responder direito.

O passo perigoso é o seguinte: concluir, a partir de uma reação, que o mundo inteiro é assim. Ele escreve que ninguém deve presumir ter encontrado a única pessoa do mundo capaz de ouvir. Se essa não pôde, procure outra. Uma conversa não é uma amostra.

E existe um motivo maior para seguir contando. Você cresceu com uma regra: falar sobre isso traz consequências terríveis. Não é opinião, é o que foi ensinado à criança, e ela obedeceu por décadas. Cada vez que você conta e a consequência terrível não vem, aquela regra perde um pedaço. É assim que ela se desfaz. Não por você entender que é falsa, mas por acumular prova em contrário.

 

Isso funciona mesmo? Falar alivia?

Falar alivia, mas não é falar sozinho que alivia. É ser recebido.

Vale separar duas coisas que a gente mistura. Culpa é “eu fiz uma coisa ruim”. Vergonha é “eu sou ruim”. A pesquisa de Brené Brown trabalha nessa fronteira, e é ela que explica por que essa conversa apavora tanto: você não sente que vai entregar um acontecimento. Sente que vai entregar a prova do que você é. Lew chega ao mesmo lugar olhando só para homens: como a cultura ensina que homem não pode ser vitimizado, o homem, seja gay ou heterossexual, acaba concluindo que fracassou. Seja pensando que aquilo aconteceu porque ele é gay, seja por achar que não foi homem o suficiente.

E não é isso. O que fizeram com você é um acontecimento na sua história, não uma descrição sua. É por aí que contar desmonta a vergonha.

Brown resume o mecanismo numa palestra sobre o assunto: a vergonha precisa de três coisas para crescer, que são segredo, silêncio e julgamento, e não sobrevive quando encontra empatia. Os três ingredientes podem descrever a situação em que você está agora. A empatia pode vir de fora ou pode surgir de dentro.

Escrevi sobre isso em E se for trauma?, e mantenho. A vergonha vive no silêncio e se alimenta do segredo, então o primeiro antídoto é falar sobre ela com alguém que não julgue. O segundo é a autoempatia, que é a palavra que Brown escreve como autocompaixão. Ela surge quando você olha para a criança que mora dentro de você e diz uma frase só: não foi sua culpa.

Quando falamos com alguém pode aparecer sempre a mesma objeção: ninguém vai entender, porque ninguém passou por isso. Brown responde direto. Empatia é se conectar com o sentimento, não com o acontecimento. A pessoa não precisa ter vivido o que você viveu. Precisa conhecer, de algum canto da vida dela, a sensação de achar que seria rejeitada se fosse vista por inteiro. E isso quase todo mundo conhece.

Nas entrevistas dela com homens, a vergonha quase sempre aparece no mesmo lugar: ser fraco, e deixar isso aparecer. Não é impressão sua: abrir a boca costuma ser mais difícil para um homem, e o motivo não tem nada a ver com você em particular.

 

E se eu quiser contar para os meus pais?

Contar para a família é outra conversa, e não precisa ser a primeira. Quando a pessoa que fez é do meio familiar, ou é próxima de alguém da família, você não está entregando uma informação: está mexendo em um arranjo que se sustenta há décadas e que envolve tio, tia, o avô vivo ou já morto, o primo que ninguém mais vê.

O medo aqui é concreto, e não é só o de não acreditarem. É o medo do que eles vão fazer com a notícia: para quem vão contar, o que vão exigir de você, se vão cobrar uma decisão agora, se vão pedir que você fique quieto pelo bem da sua mãe.

Lew traz o relato de um sobrevivente cuja mãe, ao ouvir, fez uma pergunta só: por que você não me contou antes? Isso pode chegar como acusação, mas quase nunca é. Costuma ser o desespero de quem percebe, tarde, o que aconteceu dentro da própria casa.

Quando quem machucou era quem devia proteger, o que fica não é só a lembrança: é uma dificuldade de fundo com confiança, que tem nome, trauma de traição. É o que explica por que contar para a família custa mais caro que contar para qualquer outra pessoa. Você não está pedindo que acreditem num fato. Está pedindo que escolham entre você e a versão que sustenta a casa.

 

O que dá para preparar antes de contar

Dá para preparar quatro coisas, e nenhuma delas é a reação do outro.

  1. Quem ouve primeiro. Não precisa ser a pessoa mais importante da sua vida, e muitas vezes é melhor que não seja. Alguém que não vá julgar, que não esteja dentro da história e que não vá ter que reorganizar a própria vida com o que você disser. Lew observa que não é raro a primeira pessoa a saber ser quase um estranho, e que isso funciona. Naquela revisão internacional, entre os homens pesquisados, os dois destinos mais comuns da primeira vez foram quem dividia a vida com eles e o profissional de saúde mental, e foi a conversa com o profissional a mais apontada depois como a que mais ajudou. É um motivo honesto para começar por uma conversa clínica antes de falar em casa: a segunda vez é sempre menos difícil que a primeira.

  2. Preparar quem vai ouvir. Dá para falar do assunto antes de falar sobre você. Mandar um texto sobre silenciamento e vergonha em homens, comentar um caso público. Nada disso precisa ser sobre você. Serve para a pessoa não receber a notícia com repertório zero, que é a condição em que quase toda reação ruim acontece.

  3. Quanto você vai dizer. Não é tudo ou nada. Lew é claro: não é preciso contar a história completa, e você pode nem conhecer ou lembrar todos os detalhes. Dizer “aconteceu uma coisa comigo quando eu era criança” já é uma revelação inteira. E se você ainda nem sabe se dá para chamar aquilo de abuso, dá para contar assim mesmo, com a dúvida junto.

  4. O como. Onde vai ser, quanto tempo você tem, e o que você faz quando acabar. Não marque para dez minutos antes de sair para trabalhar. Tenha para onde ir, o que fazer, ou para quem ligar. Lembre que tem o desconforto, e ele não termina quando a conversa termina. Lew descreve o que costuma aparecer nos dias seguintes à primeira vez, e nada disso é sinal de que você errou. Vem uma mistura de emoções que não combinam entre si. Pode vir a sensação de ter traído alguém, às vezes a própria família, às vezes quem fez. Pode vir a impressão de estar desmoronando, e uma desorientação que é a de ter rompido uma regra que organizou a sua vida por décadas. A frase dele é curta: esses efeitos são temporários. É por isso que a meia hora seguinte precisa de plano, e a semana seguinte precisa de paciência.

 

Por que o alívio quase nunca chega na hora?

O alívio costuma ser retroativo, e às vezes pode surgir, logo depois de contar, o pensamento de que não valeu a pena. Na hora vem adrenalina, um vazio esquisito, às vezes arrependimento. A leveza vem depois, acumulada.

Comigo foi assim: quanto mais eu falava, mais leve eu ficava. Na hora, não. Teve reação que me deixou mal por dias. Teve a falta de amparo que eu esperava receber e não recebi, e isso doeu mais do que a conversa em si. Mas também recebi empatia, compaixão e acolhimento. E o simples fato de a pessoa saber, independente da reação, já abriu uma porta, porque passei a poder falar coisas pequenas, sem precisar montar uma cena inteira de novo. No começo contar não fez tanta diferença. Depois, fez.

O nervosismo não desaparece totalmente. Ainda dá medo, ainda é desconfortável, ainda pode doer falar e doer receber uma resposta. Claro que é bem menor do que era no começo.

E se a pessoa a quem você contou não conseguiu ouvir, a conclusão não é que ninguém consegue. Lew diz: se essa pessoa não pôde ouvir, conte a outra. Uma reação ruim encerra aquela conversa. Não encerra o assunto, e não é a última palavra sobre o que você viveu.

 

O que dá para fazer hoje, mesmo sem contar nada

Você já falou hoje, e talvez não tenha percebido. Escrever a pergunta na barra de busca e ler até aqui é o primeiro movimento contra o silêncio, e ele já é seu.

Repare, sem fazer nada com isso, em três coisas.

  1. Quem aparece na sua cabeça quando você imagina contar.
  2. Que frase exata você usa quando ensaia.
  3. O que você quer daquela pessoa depois que ela souber: que ela fique, que não pergunte nada, que não mude o jeito de te olhar.

A terceira é a mais útil, porque é a única que dá para dizer em voz alta na hora. “Eu não quero que você resolva isso. Eu só quero que você saiba.” Pedir o que se precisa enquanto se sente vergonha é um dos quatro pontos que Brené Brown identifica em quem atravessa a vergonha, e é a parte do roteiro que é legitimamente sua para escrever.

E tem uma coisa que dá para fazer sem envolver ninguém: escrever. Uma revisão publicada pelo Royal College of Psychiatrists reuniu o que se sabe sobre escrita expressiva: escrever sobre um acontecimento difícil por quinze a vinte minutos, em três a cinco dias, aparece associado a resultados melhores de saúde física e psicológica do que escrever sobre assunto neutro. Ninguém lê. Não precisa ficar bom. E você pode fazer hoje.

A ressalva está na mesma revisão, e é para você não ser pego de surpresa: o efeito imediato pode fazer você pensar que está pior, com mais desconforto e humor pior no dia. O que melhora, melhora depois. Lembre de ter compaixão por você mesmo, e de que cada um tem um ritmo. Coisas que estavam enterradas costumam bagunçar quando vêm à superfície, mas quanto mais luz se coloca sobre o assunto, menos essa sombra vai te assustar. E vale a regra que os próprios autores recomendam: dá para parar a qualquer momento, e é bom ter à mão um número para ligar.

 

Perguntas que aparecem depois

Existe uma hora certa para contar?
Não existe hora certa, existe hora possível. Lew escreve que nem todo mundo está pronto para ouvir sobre abuso, e que quem esperou até encontrar um lugar seguro fez bem em esperar. Se você ainda não contou, não está atrasado.

Preciso contar tudo o que aconteceu?
Não. Você decide o quanto sai, e pode parar no meio. Dizer que algo aconteceu com você na infância é uma revelação completa, mesmo sem um único detalhe junto.

E se a pessoa não acreditar em mim?
Não acreditar é uma reação da pessoa, não uma prova sobre o que você viveu. Descrença costuma ser a primeira defesa de quem está sendo obrigado a rever a própria história de família. A saída não é convencer. É procurar outra pessoa.

Contar pode piorar as coisas por um tempo?
Pode, e é honesto dizer isso. A pesquisa mostra que revelar é um processo, com idas e voltas, não um acontecimento que resolve. Mas a principal coisa que muda com o tempo é que você deixa de estar sozinho dentro do assunto. E isso tem uma repercussão muito grande.

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Se o que está aparecendo agora é insuportável e você precisa conversar com alguém imediatamente, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188 e pelo chat, de graça e em sigilo. Para denúncias de violência sexual, o Disque 100 funciona 24 horas, todos os dias, de graça e de forma anônima.

Você não precisa contar nada aqui para começar. Nem para mim, nem na primeira conversa. Se hoje o que existe é só o medo de dizer em voz alta, dá para começar por esse medo. Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.