Tenho medo de me tornar um abusador: o mito do vampiro e o que o seu medo revela

Homem de costas diante do espelho do banheiro, mãos apoiadas na pia e o rosto fora do enquadramento, ilustrando o medo de se tornar um abusador

Eu tinha acabado de dizer, em voz alta, que fui abusado na infância. Disse para alguém em quem eu confiava. A resposta veio rápida, quase casual, do jeito que as pessoas repetem uma coisa que ouviram e nunca conferiram:

“Mas já ouvi dizer que quem é abusado vira abusador.”

Doeu exatamente no lugar que eu tinha acabado de abrir. E eu quase parei ali. Quase engoli o resto, mudei de assunto e nunca mais toquei no tema — que é o que a maioria dos homens faz nesse segundo exato.

Mas não parei porque eu já tinha estudado sobre isso e já havia pensado sobre esse medo em terapia. Em vez de me calar, expliquei: de onde veio essa ideia, como ela funciona de verdade e por que ela não se sustenta.

E este texto traz parte daquela conversa.

Então começo pela resposta: ter sido abusado na infância não faz de você um futuro abusador. A grande maioria dos homens que sofreram abuso sexual na infância nunca abusa de ninguém. E o medo que você está sentindo agora — esse mesmo, o que fez você procurar — aponta para o lado contrário do que você teme.

Este texto fala de algo que talvez você nunca tenha dito em voz alta para ninguém. Então tenha calma com o seu processo, vá num ritmo que for melhor para você.

 

A teoria da mordida do vampiro

A crença de que todo abusado vira abusador vem da literatura: Teoria da Mordida do Vampiro. Foi assim que Mike Lew, que ouviu centenas de homens sobreviventes ao longo de décadas, batizou esse mito em Victims No Longer (Vítimas Nunca Mais em português).

No mito, o vampiro morde, e quem foi mordido vira vampiro. Não tem escolha, não tem meio-termo, não tem chance. Alguma coisa entrou pela ferida e agora está lá dentro, esperando a hora de agir. É assim que o mito descreve o abuso: uma contaminação. E é assim que o homem que sofreu abuso pode passar a se olhar (mesmo não sendo verdade).

A ideia não nasceu do nada. Ela vem de estudos que encontraram, entre pessoas que abusam de crianças, muitas que também foram abusadas na infância. Isso é verdade. O erro está em ler a frase de trás para frente.

Pense num time de futebol. Quase todo jogador da seleção jogou bola na rua quando era criança. Isso é fato. Mas ninguém conclui daí que quase toda criança que joga bola na rua vai chegar à seleção. A frase só funciona numa direção. Invertida, ela vira outra coisa — e essa outra coisa é falsa.

Foi isso que a pessoa em quem eu confiava me disse naquele dia. Uma frase invertida, repetida sem nunca ter sido conferida.

 

Quem sofreu abuso sexual na infância vira abusador?

Não. Quando pesquisadores foram acompanhar sobreviventes ao longo do tempo, em vez de olhar só para quem já tinha cometido crime, o resultado apontou para o outro lado.

O estudo mais citado sobre isso foi publicado na revista The Lancet em 2003. Os pesquisadores acompanharam 224 homens que sofreram abuso sexual na infância, por um período de 7 a 19 anos, e cruzaram os dados com registros criminais oficiais do país inteiro. Vinte e seis deles cometeram crimes sexuais depois. Os outros cento e noventa e oito, não. A conclusão do estudo é de uma frase só: a maioria dos meninos que sofreram abuso sexual não se torna agressor.

Um levantamento anterior, publicado no British Journal of Psychiatry em 2001, chegou a um lugar parecido por outro caminho. Analisando centenas de prontuários de um centro especializado, os autores concluíram que o ciclo que leva de quem sofreu a quem comete aparece — mas numa minoria dos homens que agridem. Minoria. Está escrito assim, na conclusão do estudo.

Esses são os números. E eu sei exatamente o que acontece quando um homem termina de ler um parágrafo desses: nada. O peito continua apertado do mesmo jeito.

Porque você não tem medo da estatística. Você tem medo de si mesmo. E nenhuma porcentagem chega até onde esse medo mora.

 

O espelho onde o vampiro não aparece

O vampiro não tem reflexo. Essa é a parte do mito que ninguém lembra de contar.

Ele passa na frente do espelho e o espelho devolve o quarto vazio. O vampiro não se olha. Não se examina, não revisa o próprio comportamento, não passa a noite acordado se perguntando o que ele é. Ele simplesmente age, e não há nada dentro dele que peça satisfação.

Agora repare no que você está fazendo neste exato momento.

Você está lendo um texto sobre isso. Provavelmente já reviu cenas, já mediu gestos seus, já se perguntou se aquele abraço foi longo demais, se aquele carinho na cabeça do seu sobrinho significava alguma coisa. Você se examina o tempo todo. Está de pé na frente do espelho há anos.

Na clínica, esse é um dos assuntos mais difíceis de chegar até a superfície. O tabu é tão pesado que o homem calcula por meses antes de arriscar a frase. E quando arrisca, no mundo lá fora, costuma receber de volta um silêncio constrangido ou uma piada — o que ensina, na hora, que aquilo nunca mais deve ser dito. Comigo não acontece assim. Quando um homem me diz que tem medo de se tornar um abusador, o que eu escuto não é uma confissão. É um homem com medo.

E é aqui que está a virada que eu preciso que você leve deste texto: o medo é o termômetro. O simples fato de você estar refletindo sobre isso, de estar preocupado com o dano que poderia causar, já diz de que lado você está. Quem abusa de uma criança não fica apavorado com a possibilidade de abusar de uma criança. Essa angústia não faz parte do repertório de quem age. Ela é feita de empatia — a mesma que ninguém teve com você.

Se você tem reflexo no espelho, o mito não está falando de você.

 

As duas línguas: por que a mordida não transmite nada

O que aconteceu com você não foi uma contaminação. Foi um encontro entre duas línguas diferentes. E essa é a explicação que desmonta o mito pela raiz.

Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro, escreveu em 1933 um texto que ainda hoje é a descrição mais precisa do que acontece dentro de um abuso infantil: Confusão de línguas entre os adultos e a criança. A ideia central está bem descrita em trabalhos brasileiros sobre a obra dele e cabe em poucas linhas.

A criança fala a língua da ternura. Ela quer colo, quer atenção, quer brincar, quer ser vista. O que ela pede é afeto, e o que ela entende de proximidade é brincadeira — mesmo quando a brincadeira imita coisas de adulto.

O adulto que abusa responde em outra língua: a da paixão, a do desejo adulto, a sexual. Ele pega um pedido de ternura e devolve sexo. A criança fica sem tradução para o que acabou de acontecer, porque não existe tradução. Foram duas línguas se encontrando, e só uma das duas pessoas sabia disso.

Agora repare no que isso significa para o seu medo.

O que permite a um adulto abusar não é ter sido abusado. É ele não conseguir — ou se recusar a — ler a língua da criança como o que ela é: ternura. Ele lê pedido de colo e enxerga outra coisa. Essa confusão é o mecanismo.

E você é exatamente o contrário disso. Você lê a língua da ternura com uma precisão que chega a doer, porque você foi a criança que falou essa língua e não foi ouvida. É por isso que você trava. É por isso que você mede o abraço. Não é um agressor se contendo — é alguém com o ouvido afinado demais para o que uma criança está pedindo, com medo de repetir a única resposta errada que ele conhece de perto.

O medo que você tem de repetir é feito da memória de ter sido a criança. Ele não é herança do agressor. É herança do menino.

 

Por que é tão difícil contar esse medo para alguém?

Falar desse medo é difícil porque, quase sempre, a primeira tentativa deu errado — e isso tem explicação clínica, não é azar. O nome disso, na psicanálise, é desmentido.

Ferenczi observou que o abuso, sozinho, não é o que produz a marca mais funda. O que a produz é o segundo tempo: quando a criança procura um adulto de confiança para dar sentido ao que viveu e encontra silêncio, incompreensão, ou uma resposta que empurra o assunto para longe. Nada aconteceu. É esse “nada aconteceu” que fecha a porta por dentro.

Foi um desmentido desses que eu levei no dia em que ouvi “mas quem é abusado vira abusador”. Não era mais o menino procurando um adulto — era um homem adulto, com formação, contando algo a alguém de confiança. E a frase chegou no mesmo lugar de sempre, com a mesma função de sempre: encerrar o assunto.

A diferença é que dessa vez eu tinha as palavras. A maioria dos homens não tem e cala. É por isso que esse medo quase não aparece em pesquisa, quase não aparece em conversa, e por isso você provavelmente acha que é o único.

Quando quem deveria acolher é quem fecha a porta, o efeito não fica só naquele dia. Ele reorganiza o que você acha que pode ou não pode dizer para o resto da vida. Esse mecanismo tem nome e tem desdobramentos, e eu escrevi sobre ele em trauma de traição: quando quem deveria proteger foi quem feriu.

 

O que responder quando alguém disser isso para você?

Você não precisa ganhar a discussão. Precisa apenas de uma frase que impeça a conversa de se fechar em cima de você, e ela pode ser curta.

Quando eu ouvi aquilo, o que me segurou não foi coragem. Foi ter a informação na mão no momento exato em que ela fez falta. Sem isso, eu teria feito o que quase todo mundo faz: concordado com um aceno de cabeça, mudado de assunto e nunca mais tocado no tema com aquela pessoa. O silêncio ali não teria sido escolha. Teria sido falta de argumento.

Então guarde este, que cabe em duas frases: a maioria das pessoas que abusam sofreu abuso, mas a maioria de quem sofreu abuso nunca abusa. São afirmações diferentes, e só a primeira é verdadeira.

Na maior parte das vezes, quem disse a frase não é mal-intencionado. É alguém repetindo um roteiro de novela, de manchete, de conversa de bar — um roteiro que nunca foi conferido. Quando você devolve a informação sem brigar, costuma acontecer uma coisa curiosa: a pessoa fica em silêncio por alguns segundos. É o som de uma crença sendo revisada.

E se você não tiver a frase na hora, ou não tiver forças para dizê-la, tudo bem. Não responder não é perder. O que não pode é a frase do outro virar a sua conclusão sobre si mesmo.

 

O preço que esse medo cobra todo dia

Esse medo não fica parado esperando uma prova: ele já está cobrando um preço, hoje, no seu colo vazio.

O homem que carrega o mito do vampiro para de dar banho no próprio filho. Inventa desculpa para não ficar sozinho com o sobrinho. Tira a mão do ombro da filha e nunca mais coloca de volta. Escolhe não ter filhos. Recusa o convite para ser padrinho. Sai da sala quando as crianças ficam.

Ele acha que está protegendo alguém. E está. Está protegendo todo mundo de um perigo que não existe, ao preço de um afeto que existia e agora não acontece mais.

Mike Lew tem uma frase, e ela é dura: é uma perda para todos. Perde a criança, que fica sem o colo de um homem que a ama. Perde o homem, que passa a vida com os braços cruzados. E ganha o mito, que segue funcionando sem nunca precisar provar nada.

Vale reparar em uma coisa: esse recuo raramente vem sozinho. Ele costuma andar junto com um afastamento maior, de todo mundo que chega perto — e esse padrão tem raiz própria, e eu escrevi mais sobre ele em por que você afasta as pessoas que ama.

Há ainda um segundo custo, mais silencioso. Muitos homens chegam a esse medo por outro caminho: pela desconfiança do próprio corpo, porque o corpo deles reagiu durante o abuso e eles concluíram que aquilo dizia algo sobre quem eles são. Não diz. É reflexo, não escolha, e explico melhor a biologia disso em por que o corpo reage e por que isso não foi sua culpa.

 

Medo não é vontade, e vontade não é ato

Preciso fazer uma distinção honesta aqui, porque tratar tudo como a mesma coisa não ajudaria você.

Medo é o que você sente quando a possibilidade de causar dano te apavora e te afasta. Ele vem acompanhado de repulsa, de vigilância, de vontade de se distanciar. É esse o assunto deste texto, e é o que aparece na quase totalidade dos homens que chegam até mim com essa pergunta.

Existe uma experiência diferente: quando não é repulsa, mas atração — um puxão na direção de uma criança, e não para longe dela. Isso não é o mesmo fenômeno, e merece ser dito sem rodeio. Se é isso que está acontecendo, o caminho também é procurar ajuda profissional, e procurar agora. Não por castigo, mas porque pensamento não é ato, e a distância entre um e outro é exatamente onde um profissional consegue trabalhar. Buscar ajuda nesse ponto é o gesto que protege a criança e protege você.

As duas coisas têm lugar dentro de um consultório. Nenhuma das duas precisa ser carregada sozinha.

 

O que dá para fazer hoje

Comece por dizer a frase inteira em voz alta, uma vez, para alguém que consiga segurá-la.

Não para qualquer pessoa. Não no meio de um almoço de família, não para quem já demonstrou que muda de assunto. Para um profissional, de preferência — alguém treinado para ouvir isso sem recuar, para quem essa frase é matéria de trabalho e não um susto. O medo que fica dentro da cabeça de uma pessoa só cresce no escuro. Dito em voz alta, na frente de alguém que não foge, ele começa a ocupar o tamanho real.

Depois, repare no espelho. Não como exercício de autoajuda — como constatação. Toda vez que você se pegar revisando um gesto seu, você está diante da prova de que o mito não descreve você. A vigilância que te cansa é a mesma que te distingue.

E, se der, devolva um pedaço do afeto que você cortou. Não precisa ser tudo, nem hoje. Pode ser a mão no ombro que você vinha evitando. Pode ser ficar na sala em vez de sair. Pode ser aceitar o convite para o aniversário. O que uma criança que gosta de você registra não é a sua vigilância interna — é a sua ausência.

O menino que falou a língua da ternura e não foi ouvido virou um homem que ouve. Isso não é uma ameaça que você carrega. É uma capacidade.

 

Perguntas que aparecem sempre

Quem sofreu abuso sexual na infância vira abusador?

Não. A maioria dos homens que sofreram abuso sexual na infância nunca abusa de ninguém. O estudo de longo prazo publicado na revista The Lancet acompanhou 224 homens por até 19 anos e concluiu que a maior parte não se torna agressor. A crença contrária vem de inverter uma frase verdadeira sobre agressores e aplicá-la a todos os sobreviventes.

Ter medo de me tornar um abusador significa que eu tenho essa tendência?

Ao contrário. Esse medo é feito de empatia com a criança e de repulsa à ideia do dano. Quem age não passa horas apavorado com a possibilidade de agir. O medo funciona como termômetro: ele mostra para onde a sua bússola moral aponta.

Posso dar banho no meu filho ou filha? Posso ficar sozinho com meu sobrinho?

Sim. Cuidar de uma criança, dar banho, dar colo e demonstrar afeto são parte do que uma criança precisa receber de um adulto que a ama. Se a dúvida está te travando de forma constante, esse é um bom assunto para levar à terapia — e não uma razão para cortar o afeto.

Devo contar para alguém que sinto esse medo?

Sim, e de preferência para alguém preparado para ouvir. Muitos homens tentam uma vez, recebem uma piada ou um silêncio, e nunca mais falam. Um espaço clínico existe justamente para que essa frase possa ser dita inteira, sem que ela seja confundida com uma confissão.

 

Se o que está aparecendo agora é insuportável e você precisa conversar com alguém imediatamente, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br, gratuitamente e em sigilo. Para denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, o Disque 100 funciona 24 horas por dia, todos os dias, de forma gratuita e anônima.

Você pode dizer essa frase em voz alta aqui. Eu não vou ouvir uma confissão — vou ouvir um homem com medo, que é uma coisa muito diferente. Não precisa falar do que aconteceu com você, nem começar pelo começo. Estou por aqui.

Reinaldo Soeira - Psicanalista - especializado em trauma de abuso sexual - em seu consultorio

Sou Bacharel em Psicanálise, com extensão universitária em Psicologia Analítica e especialização em Psicotraumatologia. Autor do livro E se for trauma?,
dedico minha clínica ao atendimento de homens sobreviventes de abuso sexual, online, para o Brasil e para brasileiros no exterior.
Se você quiser entender mais sobre o asunto leia o guia sobre abuso sexual na infância e adolescência em homens.