Vício em Trabalho, Álcool e Pornografia: O que está por trás da necessidade de se anestesiar

Vício em Trabalho, Álcool e Pornografia

 

O vazio que não se preenche

A porta fecha. O trânsito ficou para trás. Não há mais reunião, não há mais entrega pendente, não há mais ninguém esperando uma resposta.

E então o silêncio chega.

Não o silêncio que descansa. O outro, aquele que amplifica alguma coisa lá dentro que você passou o dia inteiro tentando não ouvir. Uma espécie de zumbido que não tem origem clara, mas que ocupa o peito de um jeito físico, quase como pressão.

E quase automaticamente, antes mesmo de perceber que tomou uma decisão, sua mão já foi para algum lugar.

Para a garrafa. Para o celular com a aba anônima aberta. Para o notebook do trabalho que você “só vai checar por cinco minutos”. Para a agenda de compromissos que você agenda aos sábados para não ter que ficar sozinho no sofá.

Se você se reconhece em alguma dessas cenas, provavelmente já ouviu o que a sociedade tem a dizer sobre isso. Que é falta de disciplina. Que é fraqueza. Que você tem uma “personalidade viciada” e precisa se esforçar mais para parar.

Eu quero te contar uma coisa diferente.

 

A lógica por trás do que parece não ter lógica

O que move a compulsão não é fraqueza de caráter. É biologia.

Quando o sistema nervoso carrega algo que não foi processado, uma dor antiga, uma experiência que o corpo viveu mas não conseguiu elaborar na época, ele funciona num estado de alerta constante. Cortisol e adrenalina em níveis altos, como um motor que nunca chega a desligar completamente. O corpo ferve por dentro mesmo quando a vida exterior está quieta.

Nesse estado, o cérebro busca alívio. Não porque você seja autodestrutivo. Porque qualquer sistema nervoso exausto busca uma forma de respirar.

O álcool faz isso. A pornografia faz isso. O trabalho compulsivo faz isso. Cada um à sua maneira entrega uma dose de dopamina que, por algumas horas, abafa o barulho interno. São anestesias e anestesias existem porque há uma dor que precisa de alívio.

O problema não é você ter encontrado essas saídas.

O problema é que elas cobram caro na manhã seguinte. E o barulho, quando volta, costuma voltar mais alto.

 

O que acontece na quinta-feira à noite

É quinta-feira. O notebook finalmente fecha. A casa está vazia.

Imediatamente — não depois de pensar, não depois de decidir, mas imediatamente — uma tensão sobe pelo pescoço. Um vazio se instala no centro do peito. Não é tristeza exatamente. É mais parecido com uma pressão que não tem endereço certo.

E então vem o pensamento que você talvez reconheça: “Só preciso desligar um pouco. Só essa noite.”

O alívio vem. Isso é real, não estou aqui para negar que funciona. Mas de manhã, junto com a cabeça pesada ou o constrangimento silencioso, vem aquela pergunta que corrói: “Por que não consigo simplesmente ficar em paz comigo mesmo?”

Essa pergunta carrega uma acusação escondida, a de que há algo errado com você. De que pessoas normais não precisam disso.

Mas o que essa pergunta não enxerga é o seguinte: seu sistema nervoso está respondendo a algo real. Não a uma fraqueza de personalidade. A uma tensão que ficou acumulada e que ainda não encontrou para onde ir.

 

O que pode ajudar — agora, e a médio prazo

No curto prazo, uma coisa que pode fazer diferença é nomear o que está acontecendo antes de agir no automático. Não para se julgar. Só para criar um segundo de distância entre o impulso e a ação.

Quando a urgência chegar, tente apenas observar: onde estou sentindo isso no corpo? O peito? O estômago? A garganta? Não para resolver, só para perceber. Esse gesto simples começa a criar uma conversa entre você e o que está dentro, em vez de uma fuga imediata do que está dentro.

Isso não vai eliminar a compulsão de uma hora para outra. Não é esse o objetivo. O objetivo é começar a entender o que o seu corpo está pedindo. Porque o que ele está pedindo, no fundo, não é a garrafa nem a tela. É alívio. É a sensação de que é seguro existir no momento presente.

E isso se constrói. Devagar, mas se constrói.

 

Sobre o que está na raiz

Existe um trabalho mais profundo que pode ser feito, não para forçar nenhuma mudança, não para exigir força de vontade que o seu sistema nervoso ainda não tem condição de entregar, mas para ajudar o corpo a processar o que ficou preso.

A Psicotraumatologia trabalha exatamente com a origem desse estado, com o que mantém o sistema nervoso em alerta mesmo quando não há ameaça real. Quando o alarme interno começa a se regular, o vazio no peito muda de qualidade. Não desaparece da noite para o dia. Mas começa a fazer sentido. E quando faz sentido, perde um pouco da força que tinha.

Você não precisa parar tudo antes de buscar ajuda. Não precisa chegar sem as suas anestesias. Pode chegar exatamente como está. Com elas, com a vergonha da manhã seguinte, com a dúvida de se isso tem saída.

Tem.

Quando fizer sentido para você — no seu tempo — é aqui que esse caminho começa.

 

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