Além das palavras
Você provavelmente já fez um trabalho sério sobre si mesmo.
Leu. Buscou entender. Talvez tenha feito terapia uma, mais de uma. Mas especialmente para homens que sobreviveram a abuso sexual na infância ou na adolescência, essa compreensão muitas vezes chega depois de anos, e ainda assim o corpo continua respondendo como se o perigo fosse agora.
A ansiedade continua.
A insônia continua.
A irritabilidade que aparece nos momentos errados continua.
O alerta que não desliga, mesmo quando tudo ao redor está bem.
E junto com isso vem uma frustração que é difícil de admitir: “Eu entendo tudo isso. Por que continuo me sentindo assim?”
Quero responder essa pergunta com precisão, porque ela tem uma resposta, e ela muda tudo quando finalmente encaixa.
Onde o trauma está armazenado
Existe uma crença muito comum sobre como o trauma funciona, a ideia de que se você entender o que aconteceu, se falar sobre isso o suficiente, se processar racionalmente a história, a dor vai diminuindo até ir embora.
Essa crença não é errada. Entender ajuda. Nomear é necessário. Organizar a narrativa tem valor real.
O problema é que o trauma não está armazenado apenas na narrativa.
Ele está no sistema nervoso. Nos músculos. Nas reações automáticas do corpo que acontecem antes que qualquer pensamento consciente tenha tempo de se formar. Está na respiração que encurta quando algo ativa um padrão antigo. Na tensão que aparece nos ombros sem motivo aparente. No coração que acelera numa situação que racionalmente você sabe que é segura.
Peter Levine, criador da Experiência Somática, descreve o trauma como energia de sobrevivência que ficou incompleta.
No caso do abuso sexual na infância, essa energia acionou um motor que ficou ligado numa época em que o menino não tinha recursos para processar o que estava acontecendo e sem ninguém seguro para ajudar.
Quando o perigo chegou e não havia saída, quando lutar não era possível, quando fugir não era possível, toda aquela adrenalina, toda aquela mobilização biológica para a defesa, ficou. Não foi descarregada. Ficou circulando no sistema nervoso, como um motor que foi ligado e nunca desligou.
E um motor que nunca desligou não responde a argumento. Não responde a insight. Não responde a compreensão intelectual, por mais profunda que ela seja.
A cena
Você está num café com um amigo de confiança. O ambiente é seguro, a pessoa ao lado também. Você decide falar sobre algo difícil da sua história.
As palavras saem organizadas. Você narra os fatos com clareza, quase como se estivesse descrevendo algo que aconteceu com outra pessoa. A mente está no controle da narrativa.
Mas em algum momento, sem aviso, sem que você tenha escolhido, o corpo começa a contar uma história diferente.
Um peso se instala no peito. A respiração fica curta. As mãos suam. O maxilar trava. Uma irritação começa. E surge uma vontade física, irracional, de levantar e sair sem explicação.
A mente começa a ficar confusa enquanto o corpo se agita.
Esse conflito — entre o que a mente sabe e o que o corpo sente — é uma das experiências mais exaustivas de carregar trauma não resolvido. Não porque você seja resistente. Porque você está trabalhando no andar de cima enquanto o problema está no andar de baixo.
Van der Kolk descreveu isso com precisão: o trauma não é a história que você conta sobre o passado. É a resposta que o corpo produz no presente. E enquanto só a história for trabalhada, o corpo continua respondendo do mesmo jeito.
Por que a fala não chega lá sozinha
O córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pela linguagem, pelo raciocínio, pela narrativa, é o que a maioria das abordagens terapêuticas baseadas em fala acessa principalmente.
É um trabalho valioso e necessário porque faz parte do processo. Mas o trauma está armazenado em estruturas mais antigas e mais profundas. Ele está no sistema límbico, no tronco cerebral, nas vias do sistema nervoso autônomo que operam abaixo do raciocínio consciente.
Essas estruturas não respondem a palavras. Respondem a experiência sensorial, ao que o corpo está sentindo agora, neste momento. À temperatura, ao movimento, ao ritmo da respiração, à sensação de peso ou leveza nos músculos.
É por isso que você pode desenvolver um entendimento profundo da própria história, e ainda assim o sistema nervoso continuar respondendo do mesmo jeito.
A Psicotraumatologia trabalha de baixo para cima. Do sistema nervoso para a mente, não o contrário. Em vez de começar pela narrativa e tentar descer até o corpo, começa pelo corpo, pelas sensações, pelo ritmo, pelo estado do sistema nervoso e deixa que a mente integre a partir daí.
Como a pendulação funciona na prática
Um dos princípios centrais da Experiência Somática é a pendulação. A ideia de que o sistema nervoso aprende segurança não através de exposição direta ao material traumático, mas através do movimento entre o que ativa e o que estabiliza.
Na prática funciona assim: quando uma memória ou conversa difícil ativa tensão no corpo — o aperto no peito, o nó no estômago — em vez de mergulhar direto nessa sensação ou de tentar suprimi-la, a atenção é movida intencionalmente para uma parte do corpo que está neutra ou estável naquele momento.
Pode ser a sola dos pés no chão. O peso das costas apoiadas na cadeira. A temperatura das mãos. Qualquer lugar que não esteja em tensão.
A atenção descansa ali por alguns momentos, sentindo o que está estável, o que está presente, o que está bem agora. E então volta, suavemente, para a área de tensão.
Esse movimento de ida e volta, entre o que ativa e o que estabiliza, ensina ao sistema nervoso algo que nenhuma explicação racional consegue ensinar: que é possível sentir a tensão sem ser dominado por ela. Que há partes do corpo que estão bem enquanto outras estão ativadas. Que segurança e desconforto podem coexistir.
Com o tempo e com repetição, a janela de tolerância se expande. O sistema nervoso começa a processar o que ficou preso. Não de uma vez, não de forma avassaladora, mas em doses que o corpo consegue integrar.
Isso é fundamentalmente diferente de reviver o trauma. Não se trata de mergulhar no passado, trata-se de ajudar o corpo a completar o que ficou incompleto, no presente, com segurança.
O que muda quando o corpo entra no processo
Homens sobreviventes de abuso sexual que chegam na sessão, independente de já terem feito terapia ou não, costumam descrever que é difícil colocar em palavras o que está no corpo, mas quando ele começa a trabalhar baseado em Psicotraumatologia, ele começa a perceber o corpo e finalmente entende e escuta “uma voz sem palavras”.
Não é que a narrativa do acontecimento muda. É que a resposta do corpo à narrativa começa a mudar. A história continua lá, mas o peso físico que ela carregava vai se tornando mais leve. A ansiedade que antes era constante começa a ter variações, momentos em que o sistema nervoso consegue, de fato, descansar.
O processo não é linear. Há dias melhores e há dias em que o sistema nervoso recua. Mas a direção existe e cada pequeno movimento é real, mesmo quando parece imperceptível.
Para quem já tentou muita coisa e sentiu que “entendeu o problema mas não moveu o problema”, esse é geralmente o elemento que estava faltando. Não mais insight. Não mais narrativa. Mas o corpo entrando no processo.
Sobre o que é possível a partir daqui
O trabalho que faço integra Psicanálise, Psicologia Analítica Junguiana e Psicotraumatologia. Três abordagens que, juntas, trabalham tanto no inconsciente e no símbolo quanto no sistema nervoso e no corpo.
O processo começa sempre pela estabilização. Pela construção de recursos. Pela experiência de que é possível estar num espaço com outro ser humano e sentir-se seguro, antes de qualquer trabalho com o material traumático em si.
Não há pressa. Não há exposição forçada. Não há julgamento. O ritmo é o do seu sistema nervoso e esse ritmo é respeitado.
Se você chegou até aqui reconhecendo o que foi descrito, o entendimento do conflito entre o que a mente sabe e o que o corpo sente, a frustração de continuar sofrendo mesmo tendo feito tanta coisa certa, provavelmente já sabe o que o próximo passo é.
Quando fizer sentido dar esse passo — no seu tempo — é aqui que esse trabalho começa.



