Dissociação e Trauma Complexo em Homens Sobreviventes de abuso sexual: Entenda por que você se desliga do próprio corpo

Dissociação e Trauma Complexo em Homens Por Que Você se Desliga do Próprio Corpo

 

Desligando do corpo

Existe um sintoma do Trauma Complexo, especialmente comum em homens que sobreviveram ao abuso sexual na infância, sobre o qual quase ninguém fala, não porque seja raro, mas porque ele não soa como um pedido de socorro.

Ele soa como silêncio.

É a experiência de não sentir nada. De estar numa conversa importante e perceber que você está observando de longe, como se a cena estivesse acontecendo com outra pessoa. De estar num momento de intimidade e notar que em algum ponto a chave virou, o corpo está lá, mas você não.

É estar presente e ausente ao mesmo tempo. E não conseguir explicar por quê.

Se você conhece essa sensação, provavelmente também conhece os rótulos que costumam vir com ela. Que você é frio. Que tem bloqueio emocional. Que é incapaz de intimidade real. Que falta alguma coisa em você que existe nas outras pessoas.

Quero te oferecer uma leitura diferente. Não como consolo, mas como precisão clínica.

 

O que a neurociência chama de apagão de segurança

Quando uma criança ou um jovem enfrenta algo insuportável — como a violência de um abuso sexual — e percebe que não há saída, o sistema nervoso toma uma decisão que é, fundamental para a sua sobrevivência.

Se o corpo está sofrendo algo que a mente não tem recursos para processar, a mente “sai da sala”.

Não como escolha. Mas sim, como mecanismo de proteção automático.

O mesmo tipo de resposta que faz o corpo desmaiar diante de dor extrema. O sistema nervoso percebe que permanecer completamente presente naquele momento seria insuportável, e aciona o que tem disponível: desconexão.

Isso tem nome clínico. Chamamos de dissociação.

E a dissociação não é um defeito. Foi a defesa mais inteligente que a sua biologia encontrou para atravessar o que não podia ser atravessado de outra forma. Ela protegeu alguma parte de você, a parte que precisava continuar existindo depois que aquilo acabasse.

O problema não é que ela existiu. O problema é que ela ficou. E continua sendo acionada hoje, mesmo quando o perigo já passou.

 

O que acontece quando a chave vira

Imagine um momento de intimidade. Pode ser sexual, pode ser uma conversa, pode ser qualquer situação em que outra pessoa está próxima de verdade.

O ambiente é seguro. A pessoa ao seu lado é respeitosa. Racionalmente, você sabe disso e quer estar presente.

Mas à medida que a proximidade aumenta, algo muda. A visão parece perder o foco levemente. Os sons ficam distantes, como se chegassem de longe. A pele amortece. E em algum ponto, sem aviso, sem que você tenha decidido, você não está mais completamente lá.

O corpo continua. Responde, funciona, vai até o fim. Mas você está observando de algum lugar acima, ou simplesmente não está.

A Teoria Polivagal, desenvolvida pelo neurocientista Stephen Porges, explica o que acontece nesse momento. O sistema nervoso entrou no que chamamos de estado vago dorsal, o estado mais antigo e primitivo de proteção, associado ao colapso e à imobilidade.

A energia é desligada. A sensibilidade é reduzida. O corpo se desconecta para se proteger de uma ameaça que o sistema nervoso reconheceu, mesmo que essa ameaça seja apenas a memória de uma ameaça antiga, disparada pela proximidade do presente.

Você não consegue sair disso com força de vontade. Não porque seja fraco, mas porque força de vontade não alcança o sistema nervoso autônomo. Ele não obedece a instruções racionais.

 

A dor específica de cada ausência

Para homens heterossexuais com histórico de trauma sexual, a dissociação durante a intimidade costuma aparecer como uma pressão interna de manter tudo funcionando, de performar, enquanto por dentro não há ninguém em casa. O foco vai para não falhar, para que a parceira não perceba a ausência, para atravessar o momento sem que nada desabe. A intimidade vira tarefa. E depois vem a exaustão de ter executado algo que deveria ter sido conexão.

Para homens gays que sofreram abuso, a dissociação muitas vezes aparece como uma entrega que não é entrega. O corpo responde aos estímulos, mas a mente está em outro lugar, às vezes assistindo, às vezes simplesmente ausente. E existe, em alguns casos, uma espera silenciosa, e às vezes inconsciente, de que aquilo acabe logo, mesmo quando há cuidado e segurança do outro lado.

Em ambos os casos, o que se perde é a presença. E perder a presença repetidamente nos momentos que deveriam ser de conexão real gera um tipo de solidão que é difícil de nomear, porque acontece no meio de outra pessoa.

Fora da intimidade sexual, a dissociação aparece de outras formas. Na névoa mental que não passa. Na dificuldade de sentir alegria ou prazer mesmo quando as condições externas estão boas. Na sensação de assistir à própria vida de longe, como se fosse um filme levemente entediante sobre outra pessoa.

Não é frieza. Não é depressão sem causa. É o sistema nervoso que aprendeu a desligar e que continua desligando porque nunca aprendeu que agora é seguro ficar.

 

O medo de descongelar

Existe algo que aparece com frequência quando o assunto da dissociação chega perto da ideia de trabalho terapêutico.

Um medo muito específico: “E se eu parar de dissociar e tudo que ficou represado vier de uma vez? E se eu não aguentar a intensidade do que está lá dentro?”

Esse medo é legítimo. Não é exagero, não é catastrofismo. É uma leitura intuitiva de que há algo grande guardado e que o sistema nervoso construiu essa proteção por uma razão.

Eu não vou minimizar isso.

O que posso dizer, a partir da clínica, é o seguinte: o trabalho com trauma não funciona abrindo a comporta de uma vez. Não é sobre mergulhar de cabeça no que dói. Existe um princípio que orienta esse processo — a titulação — que significa trabalhar o trauma em doses muito pequenas, no ritmo que o sistema nervoso consegue absorver sem se desorganizar.

O objetivo não é sentir tudo de uma vez. É aprender, aos poucos, que é possível sentir um pouco sem ser destruído. E que cada vez que você sente um pouco e atravessa, o sistema nervoso recebe uma informação nova: “Sobrevivi a isso também. Posso suportar um pouco mais.”

A janela de tolerância, aquela faixa em que é possível sentir sem ser dominado, vai se expandindo. Não por força, mas por experiência repetida de segurança.

 

O que pode ajudar quando a névoa chegar

Quando você perceber que começou a flutuar, que a presença está saindo, que o vidro está descendo, uma coisa que pode ajudar é redirecionar a atenção para o que é concreto agora.

Não para lutar contra a dissociação. Mas para oferecer ao sistema nervoso uma âncora no presente.

Olhar lentamente ao redor e nomear mentalmente o que você vê, um objeto, uma cor, uma textura. Sentir os próprios pés no chão, o peso do corpo na superfície onde está. Esfregar as palmas das mãos nas próprias coxas e notar a temperatura, a pressão, a textura do tecido.

Esses gestos simples não desfazem a dissociação imediatamente. Mas enviam uma informação biológica ao sistema nervoso: há algo concreto aqui, agora. O ambiente existe. Você está nele.

Com o tempo, e com trabalho clínico, esses gestos vão se tornando mais eficazes, porque o sistema nervoso vai aprendendo que o presente é diferente do passado que ele está tentando evitar.

 

Sobre voltar a habitar o próprio corpo

A capacidade de sentir não foi embora. Ela ficou protegida, guardada atrás de uma parede que o seu sistema nervoso construiu quando precisava dela.

O trabalho terapêutico focado em trauma não começa derrubando essa parede. Começa construindo, do lado de cá, a experiência de que é seguro existir sem ela. Que a proximidade pode ser suportada. Que a intimidade não precisa custar presença.

Isso pode levar um tempo. E tudo bem que não aconteça rápido.

O que importa é que comece a acontecer, uma pequena experiência de presença de cada vez, no ritmo que o seu corpo consegue acompanhar.

Quando fizer sentido para você começar esse caminho — no seu ritmo — é aqui que esse trabalho começa.

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