Por que não consigo parar de ver pornografia?

Por que não consigo parar de ver pornografia

 

A Cena

Aba fechada. Ele se levanta.

Tem um vazio peculiar que vem nesse momento. Quem já viveu reconhece sem dificuldade. Não é o vazio que vem depois de um orgasmo bom. É outro. Um vazio meio metálico, frio, com gosto de sala vazia. A vergonha já chegando.

Ele faz a promessa, mentalmente. “Essa foi a última.”

Ele lava o rosto no banheiro, evita olhar no espelho, vai deitar. Olha o teto.

 

Antes da aba abrir

A coisa não começa quando ele abre a aba. Começou antes.

Numa noite de domingo qualquer.  No intervalo do almoço, quando nada estava acontecendo. Ou simplesmente quando ele estava ali, sentado, fazendo nada de mais.

E aí aparece um sinal. Cada homem tem o seu, e quase ninguém aprendeu a reconhecer.

É uma inquietação que não tem nome. Uma sensação de que alguma coisa está acontecendo, mas sem objeto. Uma escuridão fina que desce, como se a luz da sala tivesse mudado um pouco. Um cansaço estranho que chega num momento em que ninguém está cansado. Uma mandíbula apertada  que você nem percebe. Uma vontade vaga de se levantar e fazer alguma coisa, qualquer coisa, sem que se saiba o quê.

Tem homem que sente como aperto na garganta. Outro descreve uma vontade interna que aumenta e não dá para baixar. Outro registra um tédio pesado, vindo do nada.

O homem não percebe esse sinal como começo. Ele só percebe, alguns minutos depois, que está com o celular na mão, e que abriu uma aba anônima, e que está procurando.

O ciclo já tinha começado. Só que começou num lugar que ele nunca aprendeu a olhar.

 

O botão de mute

Você está num lugar barulhento, mas não é um barulho que dá para apontar. Não tem buzina, não tem grito, não tem música alta.

É o barulho de fundo da vida. O burburinho de tudo ao mesmo tempo. As coisas que você não resolveu, as coisas que você não está sentindo, as coisas que ficaram no corpo do dia, da semana, do ano. Você não sabe dizer exatamente o que está te incomodando. Sabe que tem barulho demais por dentro.

Em algum momento da vida, você descobre que existe um botão. Quando você aperta, o barulho some por uns minutos. O mundo continua barulhento. Mas você não está mais escutando.

Esse botão funciona. É honesto registrar isso. Se não funcionasse, ninguém apertaria duas vezes. O problema não é que ele não funcione. É que ele só funciona enquanto o dedo está em cima. Quando você tira o dedo, o barulho volta. Geralmente um pouquinho mais alto do que estava.

E aí você aperta de novo.

 

Não é sobre sexo

Sexo, mesmo o casual, mesmo que dure quinze minutos, exige presença. Exige que você arrisque alguma coisa de você na frente de outro corpo que está respirando perto. Exige expor um pedaço, mesmo rápido ou pequeno, de quem você é.

Mas o que acontece sozinho na frente da tela é outra coisa. O corpo responde como se fosse sexo, mas a função interna é diferente.

Não é encontro. É um circuito específico que o organismo descobriu, em algum momento, que serve para baixar o ruído por alguns minutos sem que ninguém precise estar ali. Sem precisar olhar nos olhos de ninguém. Sem precisar arriscar nada.

E aqui mora um detalhe que costuma passar despercebido. O corpo não diferencia muito bem se o que está fazendo barulho é tristeza, raiva, ansiedade, solidão, cansaço, tédio, ou aquele desconforto que não tem nome.

O sinal interno é parecido.

A coisa que o homem sente como impulso de pornografia é, na maior parte das vezes, o impulso de se desligar de qualquer coisa que esteja desconfortável por dentro, fosse ela qual fosse.

A pornografia é só a saída. O que disparou veio antes.

Tem uma coisa que aprendi: a pessoa que chega dizendo ‘sou viciado em pornografia’ quase nunca é em pornografia. É em desligar. Virou o jeito de desligar mais rápido que ele encontrou. Outros homens encontraram comida, álcool, jogo, série até as três da manhã. A função é a mesma. O aplicativo muda.

 

Por que jurar nunca mais, não resolve

A primeira coisa que o homem tenta, depois que se assusta com o tamanho do hábito, é jurar parar.

Apaga aplicativos. Instala bloqueador. Conta para um amigo numa onda de honestidade, ou conta para alguém que ama, num impulso que parece coragem mas é também desespero. Faz aposta. Marca data de início. Promete a si mesmo que dessa vez é diferente.

E na segunda semana, na quarta, na sexta, ele volta. E pode voltar pior. Com mais vergonha empilhada, mais intensidade, mais culpa, mais a sensação extra de que agora ele falhou na própria promessa.

Mas saiba que, está tudo bem não conseguir. Se você chegou aqui depois de tentar parar várias vezes e não conseguir, isso não é falha sua. O corpo está respondendo do jeito que aprendeu, com as ferramentas que teve. Você só não recebeu o mapa de como funciona por dentro. Isso é diferente de não ter força.

A vontade de parar não desativa o sinal que disparou o ciclo. O ruído continua chegando. Os mesmos motivos que faziam o barulho subir antes continuam fazendo o barulho subir agora.

E enquanto o homem só tira o botão de mute do alcance, sem descobrir o que está fazendo barulho, o corpo continua precisando de alguma forma de baixar o volume.

Se não for pornografia, vai ser comida. Se não for comida, álcool. Se não for álcool, briga com quem está perto por motivos pequenos. Se não for briga, trabalho até cair no sono em cima do laptop.

O sintoma muda. A função continua a mesma.

Por isso a promessa não resolve. Ela está mirando no lugar errado. Está mirando no botão, mas o problema nunca foi o botão.

 

Quando o barulho começou cedo

Para alguns homens, esse barulho de fundo começou muito antes do trabalho atual, da relação atual, das contas do mês.

Há corpos que aprenderam, ainda na infância, que estar inteiro no que estava acontecendo era arriscado demais. Pode ter sido uma casa em tensão constante, com alguém alcoolizando ou explodindo. Pode ter sido um clima de invalidação em que o que a criança sentia nunca tinha espaço para existir. Ou alguma coisa específica e mais complicada que o adulto hoje ainda não tem condição plena de nomear.

Às vezes nem precisa de evento, basta a sensação contínua de não ter onde apoiar a cabeça.

Em todos esses casos, o corpo aprendeu uma coisa: ficar inteiro dentro dele era inseguro. E aprendeu a sair. Não em viagem, não em sonho, em algo mais sutil.

Aprendeu a se desligar parcialmente do que estava acontecendo, como quem diminui o volume de uma estação de rádio sem desligar o aparelho. Aprendeu técnicas que ninguém ensinou e que a criança nem sabia que estava aprendendo.

Anos depois, esse menino vira adolescente. E descobre, sozinho, que existe um lugar onde ele consegue sentir prazer sem precisar de ninguém olhando. Onde ele tem controle total da cena, do ritmo, do que vai acontecer a seguir. Onde ele pode estar excitado sem precisar arriscar exposição com outro ser humano. Para um corpo que aprendeu cedo a desconfiar do contato, isso é um achado.

A pornografia chega como organização desse jeito de viver. Vira o lugar onde o desligar fica eficiente, repetível, disponível. E o adolescente que era, e o adulto que ele virou depois, foi consolidando o circuito sem saber que estava consolidando.

Hoje, na frente da tela, ele não está fazendo escolha por desejo. Está executando um movimento antigo. O movimento de quem aprendeu há muito tempo, antes de saber, que a presença em outro lugar era mais segura do que a presença dentro de si.

Não tem moral aí. Tem história. E entender a história costuma ser o primeiro lugar onde o circuito começa a respirar diferente.

 

Descobrir o que está fazendo barulho

Não é proibir o botão. É descobrir o que está fazendo barulho.

Da próxima vez que o impulso vier, antes de abrir, vale uma pergunta. Sem castigo, sem moral, sem promessa. Só “o que eu estou tentando não sentir agora?”.

Pode ser que não venha resposta. E está tudo bem.

Pode ser que venha uma resposta vaga, um adjetivo solto, um cansaço sem palavra.

Pode ser que você tente perguntar e a aba abra antes de você terminar a pergunta, porque o automático é mais rápido do que a pergunta.

Tudo isso faz parte.

A pergunta não precisa funcionar na primeira vez. Ela só precisa começar a existir no caminho entre o sinal e o gesto.

A primeira mudança não é deixar de abrir a aba. É começar a notar o sinal antes do gesto.

Ver a inquietação chegando, dois minutos antes, cinco minutos antes.

Reconhecer que ela tem um cheiro, um peso, uma localização no corpo. Por um tempo, notar não vai mudar o que vem depois. A aba ainda vai abrir. Mas notar é a primeira fresta numa sequência que estava inteiramente automática.

E aos poucos, a pergunta encontra resposta.

Você descobre que naquela noite era tristeza. Que naquela tarde era raiva engolida da reunião. Que num domingo qualquer era a solidão que veio depois de uma conversa morna. Que numa manhã foi ansiedade sobre uma coisa que você ainda nem nomeou.

Quando o barulho ganha nome, ele perde uma camada de força. Continua incômodo, mas perde a urgência. Você consegue ficar com ele por mais um minuto antes de precisar do botão. E depois por dois minutos. E depois por mais.

Em algum ponto, você percebe que está vivendo com o som ligado. E que aquilo que você chamava de barulho durante anos não era barulho. Era a vida pedindo passagem por dentro de você.

Sobre o que faz barulho dentro de homens que aprenderam cedo a sair do próprio corpo. Sobre o trabalho de ir devolvendo, aos poucos, a possibilidade de estar inteiro sem precisar do botão. É sobre isso que tento falar no livro E se for trauma?. É também o que acompanho, em atendimento de terapia online, com homens que descobriram que a força de vontade nunca foi a chave.

Se em algum momento quiser conversar, estou aqui.