Por que digo sim no sexo quando queria dizer não?

 

A pergunta

Tem casas onde a porta da frente tem fechadura quebrada há tanto tempo que ninguém mais lembra quando funcionou. Quando alguém empurra, a porta abre. Não é convite. É a fechadura que não trava.

Por anos, quem mora ali nem percebe que isso é estranho. Acha que é normal. Acha que é hospitalidade. Acha que é a forma de ser gentil com quem chega. Só que toda vez que alguém entra sem ter sido convidado, fica um vazio peculiar na sala depois que a pessoa vai embora. Um vazio que quem mora ali não sabe explicar.

Esse vazio é o que acorda esse homem, na cama, às três da manhã.

O quarto está escuro do jeito que quartos ficam às três da manhã. Tem alguma coisa estranha por dentro dele que ele não sabe nomear.

Não foi forçado. Ninguém o segurou. O corpo respondeu, houve excitação, houve momento de prazer. Mas alguma coisa ficou esquisita, e essa coisa não vai dormir.

Ele queria? Ele quis? A pergunta gira sem resposta.

 

A estranheza que fica

Se você está lendo isso e reconhece essa cama, esse silêncio, essa pergunta que gira sem chegar a lugar nenhum, vamos parar um instante.

Antes que a cabeça comece a inventar acusação contra você, vale dizer uma coisa: essa estranheza não é prova de que você fez algo errado. Quase nunca é. Em geral, é o oposto. É a parte sua que estava tentando dizer alguma coisa durante o sexo, e que não chegou a tempo. Está chegando agora, com atraso de algumas horas.

A estranheza não é remorso comum. Você não está triste por ter feito sexo. Você está estranho de um jeito que não cabe em “triste”. Pode ter um vazio, algo frio. Uma sensação de que alguma coisa não foi sua naquele encontro, e você não consegue dizer o quê.

E quando você tenta se acalmar com “eu participei”, a estranheza não diminui. Aumenta um pouco. Porque saber que o sim “saiu da sua boca” torna a estranheza ainda mais sem nome.

Se você disse sim, por que está se sentindo assim?

Essa pergunta tem resposta. E a resposta começa por uma diferença que quase ninguém faz, mas que muda tudo.

 

O sim que sai antes da escolha

Tem uma palavra que circula muito hoje em dia, “consentimento”. A palavra é importante. Mas ela costuma ser usada como se fosse simples. Como se fosse só uma questão de boca abrir e dizer sim. Ou de cabeça balançar. Ou de não recusar quando perguntado.

A vida real é mais complicada do que isso.

Existe um sim que vem da escolha. Vem de um sistema nervoso regulado, com tempo para sentir o que se quer, com a possibilidade real de dizer não sem que isso quebre alguma coisa importante. Esse é o consentimento de verdade. Você está ali porque escolheu estar.

E existe um sim que surge igual ao outro, soa igual, é registrado pela outra pessoa como se fosse igual. Mas dentro de você não foi escolha. Foi o cálculo automático de que dizer não tinha um custo que você não podia pagar naquele momento.

O custo podia ser uma briga depois. Podia ser estragar uma noite que parecia importante. Podia ser parecer frio, complicado, careta, antiquado. Podia ser perder a pessoa, ou achar que ia perder. Em alguns contextos, mais carregados, dizer não pode parecer cafona dentro de uma cultura que normalizou certas práticas, em festas, em encontros marcados por aplicativo, em dinâmicas de grupo onde recusar parece estraga-prazer. Em outros casos, e isso a gente vai chegar daqui a pouco, o custo era algo mais antigo, que você nem soubesse direito de onde vinha.

Em todos esses cenários, seu corpo disse sim porque ele tinha aprendido, antes daquela noite, que o sim era a saída com menor custo. O sim saiu antes da escolha chegar.

Isso não te torna cúmplice de nada que aconteceu. Não te torna fraco. Não te torna inferior. Te torna alguém que aprendeu, em algum momento da vida, que ter uma fechadura funcionando era mais arriscado do que deixar a porta abrir sozinha.

Dizer sim era algo importante, algo que as vezes você até queria, mesmo pensando em culpa, vergonha, mesmo não entendendo. O sim surgiu, o corpo falou sim, mas não teve escolha.

Tem uma frase que aparece muito quando esse assunto começa a ser conversado em segurança. Vem sempre com uma leveza, como quem está descartando o tema. “Eu não quis dizer não, foi mais fácil deixar acontecer.” Quem disse essa frase um dia, ou conhece quem disse, sabe que essa leveza é falsa. O corpo de quem fala está com algum lugar tenso na hora de dizer. Sei disso por ter vivido e visto homens falarem o mesmo.

 

O que o seu corpo fez, e por que isso não acusa você

Tem uma parte dessa história que cala muito, e ela precisa ser dita aqui com cuidado. Antes de qualquer explicação, o que vem agora não acusa você. Pelo contrário. Tira de você a acusação que você vinha fazendo contra si mesmo, talvez há anos.

Durante o sexo que você não queria de verdade, o seu corpo respondeu.

Você ficou excitado. Pode ter chegado ao orgasmo, ou perto dele. Pode ter participado ativamente, com gestos, com palavras, com movimento. E essa resposta física, depois, virou a prova que você usa contra si mesmo. “Se eu não queria, por que respondi?”

Aqui precisa entrar uma informação que pouca gente fala com clareza, e que muda a leitura inteira do que aconteceu.

A resposta física não é a mesma coisa que desejo.

O corpo humano é equipado para responder a estímulo físico mesmo quando a pessoa não quer estar ali. Mesmo quando o cérebro está dizendo “isso não”. O corpo pode lubrificar, pode ter ereção, pode chegar ao orgasmo, mesmo em situações onde a mente está, em algum lugar dela, gritando o oposto. Essa resposta é mecânica. É antiga. É instintiva. É um reflexo do sistema nervoso, não uma escolha. O fenômeno tem nome técnico em psicologia da sexualidade, discordância da excitação, (em inglês, arousal nonconcordance). Estudos de laboratório que medem diretamente a resposta genital enquanto a pessoa vê estímulos sexuais variados mostram que essa resposta tem correlação baixíssima com o desejo subjetivo da pessoa que está sendo estimulada. O corpo responde ao estímulo. A mente pode estar em outro lugar inteiramente.

Você não respondeu porque quis. Você respondeu porque corpo humano responde a estímulo, independentemente do que a mente está pedindo. Essa é a biologia. Não é caráter, não é cumplicidade, não é prova de nenhuma coisa secreta sobre o que você gostaria.

Isso é importante demais para ser dito uma vez só. A sua resposta física não é evidência contra você. Não é confissão. Não é desejo escondido vindo à tona. É como o corpo humano funciona quando é estimulado fisicamente, querendo ou não querendo, gostando ou não gostando.

Saber isso não desfaz a estranheza da manhã seguinte. Mas tira o argumento mais cruel que você vinha usando contra si mesmo. Sobre o porquê de o corpo responder mesmo quando a mente não está consentindo, tem um texto aqui que vai mais a fundo nessa biologia: Por que o Corpo Reage e Por que Isso Não Foi Sua Culpa.

 

Por que a fechadura quebrou

A fechadura não está quebrada porque você é frágil, ou porque tem alguma coisa errada com você. Está quebrada porque, em algum momento, alguma coisa ensinou esse corpo que ter uma porta funcionando era arriscado.

Para algumas pessoas, esse aprendizado foi cedo. Aos quatro, aos sete, aos onze anos. Em casas onde dizer não para os adultos não era opção real. Onde recusar afeto, recusar contato, ou recusar pedido, gerava resultado pior do que ceder. Em algumas situações, mais difíceis, em que dizer não simplesmente não estava no cardápio do que era possível fazer naquele momento.

Esses corpos aprenderam, sem que ninguém ensinasse com palavras, que aceitar custava menos do que recusar. Que a fechadura, quando funcionava, gerava mais problema do que solução. Então a fechadura foi sendo deixada de lado. Foi enferrujando. Foi virando ornamento.

Esse aprendizado salvou alguma coisa naquela época. Não foi defeito. Foi a inteligência mais antiga que um corpo pequeno tem disponível: economizar conflito quando não dá para vencer.

Só que esse aprendizado ficou. Não desapareceu quando o menino virou adolescente. Não desapareceu quando o adolescente virou adulto. Não desapareceu quando o adulto começou a fazer sexo, ou quando começou a usar aplicativos, ou quando passou a frequentar contextos onde dizer não pareceria fora do tom.

Hoje, na cama, num sábado à noite, com alguém que ele até gosta, ele está executando um movimento que aprendeu há trinta anos. Um movimento que naquela época protegia. Hoje, sem que ele saiba, esse mesmo movimento o desconecta do que ele realmente quer.

O corpo diz sim porque aprendeu, antes da puberdade, que o sim era a saída mais segura. Não é traição de você contra você. É lealdade antiga de um sistema que protegeu uma criança e nunca recebeu o aviso de que a criança cresceu.

 

Onde a fechadura nova começa

O não, não volta a funcionar primeiro no sexo. Quase nunca isso acontece.

Mas volta a funcionar em coisas pequenas. Num dia qualquer, quando alguém te pergunta se você pode fazer um favor, e você sente o sim subindo automático na garganta. Naquele intervalo de meio segundo, entre o sim subindo e o sim saindo, tem uma chance. Não precisa nem dizer não. Precisa só notar que o sim ia sair antes de você decidir.

Notar uma vez é uma vitória pequena, e é o começo. Notar duas vezes começa a abrir uma fresta entre o automático e a escolha. Notar dez vezes começa a fabricar, devagar, uma fechadura nova. Sem martelo, sem heroísmo, sem grandes resoluções. Mas notar que disse sim, sem querer dizer, também faz parte do processo. Também ajuda a notar a primeira vez.

E em algum dia mais à frente, sem aviso, você diz não para algo pequeno. Não muda a sua vida. Não muda o universo. Só muda uma coisa: você sente, pela primeira vez em muito tempo, o que é girar a chave pelo lado de dentro.

Esse gesto é o que vai chegar no sexo, depois. Não como heroísmo. Mas como um novo hábito que o corpo foi aprendendo aos poucos, em situações onde aprender era menos arriscado.

Você não estava errado em dizer sim até hoje. Estava sobrevivendo do jeito que aprendeu. A fechadura nova não substitui a antiga por castigo. Substitui por descoberta. Descoberta de que, dessa vez, dizer não pode não derrubar nada importante.

Sobre o trabalho de ensinar a um corpo adulto que ele pode escolher de novo. É o que tento falar no livro E se for trauma?. É  o que também contribuo, em atendimentos de Terapia Online, com homens que passaram a vida toda dizendo um sim que nunca foi inteiramente deles.

Você não precisa decidir nada agora. Mas se em algum momento quiser conversar, a porta está aqui.