A chegada do IPVA, IPTU e matrículas pode disparar mais do que preocupação: pode ativar o “Modo de Sobrevivência”. Especialista explica por que quem cresceu na escassez sente paralisia física diante das dívidas.
Introdução: A “Ressaca Financeira” de Janeiro
Janeiro é conhecido como o mês mais longo do ano, não apenas pelos dias no calendário, mas pelo impacto na conta bancária. Depois da euforia das festas de dezembro, a realidade chega pelo correio (ou por e-mail): IPVA, IPTU, matrículas escolares, material didático e a fatura do cartão de crédito com as compras de Natal.
Para a maioria das pessoas, isso gera uma chateação e a necessidade de ajustes no orçamento. Mas, para um grupo específico, a chegada desses boletos provoca uma reação desproporcional: taquicardia, insônia, suor frio e uma vontade incontrolável de não olhar.
Você já deixou de abrir um e-mail do banco por medo do que veria? Já sentiu seu corpo “congelar” ao pensar em dinheiro?
Se a sua relação com as finanças envolve mais pânico do que matemática, é provável que você não sofra apenas de “falta de planejamento”. Você pode estar vivenciando os sintomas do Trauma Financeiro e da mentalidade de escassez.
O Dinheiro como Sinônimo de Sobrevivência
Para a psicanálise e a psicotraumatologia, o dinheiro nunca é apenas papel ou números. Ele é um símbolo psíquico de segurança e vida.
Se você cresceu em um ambiente onde o dinheiro faltava, onde viu seus pais brigarem por dívidas, ou passou por privações reais (fome, despejo, cortes de luz), o seu cérebro infantil registrou uma lição perigosa: “A falta de dinheiro é uma ameaça à minha vida”.
Mesmo que hoje, você seja um adulto com emprego e salário, diante de uma dívida ou de um gasto alto como o IPVA, seu cérebro “regride” para aquele estado infantil de vulnerabilidade.
O sistema límbico (responsável pelas emoções) sequestra o córtex pré-frontal (responsável pela lógica). É por isso que conselhos como “faça uma planilha” não funcionam na hora do pânico. Você não precisa de uma planilha; você precisa acalmar o animal acuado dentro de você que acha que vai morrer porque a conta ficou no vermelho.
As 3 Reações do Trauma diante dos Boletos
Assim como diante de um leão na selva, o trauma financeiro ativa as respostas clássicas de sobrevivência: Luta, Fuga ou Congelamento.
- Fuga (Evitação): É o comportamento mais comum. A pessoa sabe que tem contas a pagar, mas ignora. Não abre o app do banco, não atende o telefone, joga os boletos numa gaveta. “Se eu não vejo, o problema não existe”. É uma defesa mágica da mente para evitar a dor imediata.
- Luta (Workaholic): A pessoa tenta compensar o medo trabalhando exaustivamente. Aceita todos os projetos, faz horas extras insanas, não se permite descansar. O dinheiro entra, mas a ansiedade nunca vai embora, porque o buraco é emocional.
- Congelamento (Paralisia): Diante da dívida, a pessoa trava. Não consegue tomar decisões simples, procrastina o pagamento (gerando juros) e se sente incapaz de reagir.
A Mentalidade de Escassez e a Autossabotagem
Reinaldo Soeira, psicanalista especialista em trauma, alerta para um fenômeno curioso:
“Muitos pacientes que viveram a escassez na infância desenvolvem uma relação conflituosa com a estabilidade. Quando finalmente têm dinheiro guardado, surge uma ansiedade estranha, como se aquilo não fosse ‘normal’. Inconscientemente, a pessoa gasta tudo ou cria uma dívida para voltar ao estado de ‘perigo’ conhecido. O cérebro foi treinado para sobreviver ao caos, e não para viver na paz.”
Isso explica por que tantas pessoas ganham bem, mas chegam em janeiro endividadas. O gasto impulsivo, muitas vezes, é uma forma de anular a ansiedade momentânea (a compra gera dopamina rápida), criando um ciclo vicioso de culpa e vergonha depois.
Não é falta de vergonha, é desregulação emocional
A sociedade julga severamente o endividado. Rotulamos de “irresponsável”, “desorganizado” ou “consumista”. Esse julgamento externo vira um julgamento interno cruel.
A pessoa com trauma financeiro vive em segredo, carregando uma culpa tóxica que consome sua energia vital. Ela acredita que tem uma falha de caráter, quando, na verdade, tem uma desregulação do sistema nervoso.
Entender que sua reação ao IPVA é um gatilho de trauma e não uma falha moral é o primeiro passo para sair do buraco.
Como lidar com a Ansiedade Financeira em Janeiro?
Se os boletos estão tirando seu sono, tente estas estratégias psicológicas antes de tentar as matemáticas:
1. Aterramento (Grounding) antes de abrir a conta
Não abra o aplicativo do banco no meio da rua ou com pressa. Sente-se. Respire fundo. Sinta seus pés no chão. Diga para si mesmo: “Eu sou um adulto, estou seguro agora, isso é apenas um número”. Acalme o corpo físico antes de engajar o raciocínio lógico.
2. A Técnica da Exposição Gradual
Se olhar todas as dívidas de uma vez causa pânico, olhe apenas uma. Resolva o IPVA hoje. Amanhã pense na matrícula. Fatie o “monstro” em pedaços pequenos.
3. Separe “Quem você é” de “Quanto você deve”
Sua dívida não define seu valor como ser humano. Você é amável e digno mesmo com o nome sujo ou com a conta negativa. O dinheiro é uma ferramenta, não sua identidade.
4. Busque a Raiz do Problema
Se o padrão de descontrole se repete todo janeiro, a terapia é essencial. Entender qual “buraco emocional” você está tentando tapar com compras ou por que o dinheiro gera tanto medo é a única forma de quebrar o ciclo da escassez.
Conclusão: Curando a relação com o dinheiro
Janeiro vai passar. As contas, de um jeito ou de outro, serão resolvidas ou negociadas. Mas a sua saúde mental precisa ser preservada no processo.
Encare este início de 2ano não apenas como o momento de pagar boletos, mas como a oportunidade de investigar por que eles doem tanto. A verdadeira prosperidade começa quando o dinheiro deixa de ser um senhor que amedronta e passa a ser um servo que viabiliza a vida.
Serviço
Autor: Reinaldo Soeira, Psicanalista.
Especialidade: Trauma, Compulsões e Ansiedade.
Atendimento: Online.
Saiba mais: https://reinaldosoeira.com.br/quem-sou/