Ressaca Social: Por que interagir cansa tanto quem carrega traumas invisíveis?

Ressaca Social e Trauma: Por que interagir cansa tanto?

Você já sentiu uma exaustão profunda ou vergonha após um evento social, mesmo que tudo tenha corrido bem? Entenda a conexão entre Hipervigilância, Trauma e o esgotamento da bateria social.


 

O silêncio ensurdecedor do “dia seguinte”

O evento acabou. As luzes se apagaram, as visitas foram embora ou você finalmente chegou em casa.

Teoricamente, você deveria estar feliz por ter visto amigos ou família. Mas, na prática, o que seu corpo sente é um “atropelamento”. Uma mistura de cansaço físico extremo com uma angústia mental que sussurra: “Será que falei demais?”, “Será que eles gostam mesmo de mim?”, “Por que me sinto tão vazio?”.

Se você se identifica com esse cenário, saiba que não está apenas “cansado”. Você pode estar vivenciando o que a psicologia e a neurociência chamam de Ressaca de Vulnerabilidade ou esgotamento por Hipervigilância.

Embora seja comum associarmos esse cansaço a grandes eventos de fim de ano, para quem carrega marcas de traumas emocionais, essa exaustão pode acontecer após uma simples reunião de trabalho ou um jantar com amigos. Não é sobre ser antissocial; é sobre como o seu cérebro processa a segurança.

 

A Neurociência da Exaustão Social

Para entender por que socializar cansa tanto, precisamos olhar para o cérebro de quem já passou por situações traumáticas ou vive com ansiedade.

Em um sistema nervoso “típico”, interagir socialmente gasta energia, mas também recarrega. Porém, para quem tem um histórico de trauma (seja abuso emocional, bullying severo ou negligência), o cérebro opera em um modo diferente: o Modo de Sobrevivência.

Quando você entra em uma sala cheia de gente, seu cérebro não está apenas conversando. Ele está inconscientemente:

    1. Escaneando microexpressões faciais em busca de rejeição.

    1. Monitorando o tom de voz das pessoas para prever conflitos.

    1. Cuidando da própria postura para não parecer inadequado.

 

Reinaldo Soeira, psicanalista especializado em psicotraumatologia, explica:

“O paciente traumatizado gasta o dobro ou o triplo de energia cognitiva para fazer o ‘básico’ social. É como se o celular dele estivesse rodando dez aplicativos pesados em segundo plano enquanto tenta mandar uma mensagem. A bateria acaba muito mais rápido.”

 

Hipervigilância: O Guarda-Costas Invisível

A hipervigilância é um estado de alerta sensorial aguçado. Ela foi útil no passado, quando você precisava se proteger de um ambiente hostil, mas hoje ela se torna o vilão da sua vida social.

Durante uma festa ou encontro, a hipervigilância faz você “ler” o ambiente obsessivamente. Você percebe quem olhou torto, quem bocejou enquanto você falava, quem interrompeu quem. Esse monitoramento constante impede que você relaxe e esteja presente no momento. O resultado? O corpo libera cortisol, conhecido popularmente como o ‘hormônio do estresse’, o Cortisol tem a função biológica de nos manter alertas diante do perigo. Porém, quando socializar é encarado pelo cérebro como uma ameaça, esse hormônio inunda o sistema nervoso sem necessidade real. O ‘crash’ hormonal que ocorre quando ele baixa é o que gera a exaustão física. 

Quando o evento acaba e você chega em um ambiente seguro (sua casa), ocorre uma queda abrupta desses hormônios. O “crash” hormonal gera a sensação física de ressaca: dor de cabeça, irritabilidade e desejo de isolamento total.

 

A “Ressaca de Vulnerabilidade”

A pesquisadora Brené Brown cunhou o termo “Vulnerability Hangover” (Ressaca de Vulnerabilidade) para descrever a sensação de exposição crua que sentimos após nos abrirmos com alguém. Mas, para quem tem ansiedade, essa ressaca acontece até mesmo sem grandes confissões.

Basta o fato de ter sido visto.

Muitas pessoas desenvolveram mecanismos de defesa baseados na invisibilidade (“se eu não for notado, não serei atacado”). Socializar é, por definição, ser notado. Isso aciona um alarme primitivo de perigo. No dia seguinte, a mente é inundada por pensamentos intrusivos e autocrítica, revisando cada frase dita em busca de erros que possam causar rejeição futura.

 

Introvertido ou Traumatizado? A Diferença Crucial

É muito comum confundir traços de trauma com introversão. Mas há uma diferença fundamental na qualidade do silêncio que você busca.

 

    • O Introvertido: Recarrega energias ficando sozinho. Ele gosta da solitude. Após um tempo sozinho, ele se sente bem para sair de novo.

    • O Traumatizado/Ansioso: Isola-se por medo ou exaustão defensiva. O isolamento não traz paz, traz ruminação. Ele se esconde para se sentir seguro, mas muitas vezes se sente culpado por não estar socializando.

 

Se o seu “tempo sozinho” é preenchido por culpa e análise excessiva do passado, isso pode não ser introversão, mas sim uma resposta de trauma não tratado.

 

A Resposta “Fawn” (Adulação)

Outro fator que drena a bateria social é a resposta ao trauma conhecida como Fawn (Adulação ou “Agradar”). Diferente da Luta ou Fuga, a pessoa que usa o Fawn tenta garantir sua segurança agradando a todos o tempo todo.

Ela sorri quando não quer, concorda com opiniões que discorda e assume responsabilidades que não são suas, apenas para evitar qualquer chance de conflito. “Manter essa ‘máscara de simpatia’ é uma das tarefas mais exaustivas para a psique humana. É uma performance de ator que dura horas, sem intervalo,” pontua Soeira.

 

Como lidar com a Ressaca Social?

Se você acordou se sentindo “de ressaca” após interações sociais, a solução não é se isolar para sempre, mas aprender a gerenciar sua energia.

 

1. A Regra dos 20 Minutos de Descompressão Ao chegar em casa, não vá direto rolar o feed do Instagram (que é mais estímulo social). Fique 20 minutos no escuro, tome um banho quente ou pratique exercícios de respiração. Informe ao seu cérebro que o “perigo” passou e que ele pode desligar o radar.

2. Valide sua Exaustão Não se compare com o amigo que emendou três festas. O sistema nervoso dele tem outra história. Diga para si mesmo: “Faz sentido eu estar cansado, meu corpo estava trabalhando duro para me proteger.”

3. Identifique o Gatilho Foi a quantidade de pessoas? Foi uma pessoa específica que te deixou tenso? Foi o barulho? Saber o que drena sua bateria ajuda a planejar melhor as próximas saídas (ex: “Vou, mas fico apenas 2 horas”).

 

O Caminho da Terapia

Entender que sua exaustão social tem raízes profundas é libertador. Tira o peso de “ser chato” e coloca a luz sobre a necessidade de cuidado.

A psicoterapia especializada em trauma (como a abordagem EMDR ou a Psicanálise focada em trauma) não visa transformar você em um “festeiro”, mas sim desligar o alarme de incêndio que toca sem necessidade. O objetivo é que você possa estar com pessoas e sentir conexão, e não apenas o medo constante de ser ferido.

Socializar não precisa doer. Se dói, é um sinal do seu corpo pedindo para olhar para histórias que ainda não foram cicatrizadas.

 


Serviço

Autor: Reinaldo Soeira, Psicanalista. Especialidade: Tratamento de Traumas, Ansiedade e Fobia Social. Atendimento: Online para todo o Brasil e exterior. Site: https://reinaldosoeira.com.br/

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