Não é Preguiça, é Pânico: Por que seu corpo ‘trava’ e adoece ao voltar para o trabalho em Janeiro?

Pânico na volta ao trabalho Entenda a Síndrome do Fantástico

Se o fim das férias disparou taquicardia, insônia ou vontade de chorar, cuidado: você pode estar sofrendo da “Síndrome do Fantástico Turbinada”. Especialista explica quando a recusa ao trabalho é um sintoma de trauma, não de irresponsabilidade.


 

O alarme que toca no domingo à noite

Estamos na segunda semana de janeiro. Para muitos, é o fim oficial do recesso. As malas foram desfeitas, o despertador foi reativado e a rotina corporativa bate à porta. Deveria ser apenas um retorno normal, certo? Mas, para uma parcela alarmante de profissionais, esse momento é sentido fisicamente como uma ameaça de morte.

 

Você conhece a sensação: o domingo vai chegando ao fim, a música da vinheta da TV toca (a famosa “Síndrome do Fantástico”) e, automaticamente, seu estômago embrulha. O peito aperta. O ar falta. Uma tristeza profunda e inexplicável toma conta, misturada com um medo agudo do dia seguinte.

 

Muitos se culpam, rotulando esse sentimento como “preguiça”, “falta de vontade” ou “mimo”. Mas a psicanálise e a neurociência trazem um alerta importante: preguiça é quando você quer ficar na cama porque está gostoso. Pânico é quando você quer ficar na cama porque sair dela parece perigoso.

Se o seu corpo está reagindo violentamente à volta ao trabalho, ele está tentando te dar um recado urgente sobre sua saúde mental e o ambiente onde você passa a maior parte do seu dia.

 

Diferenciando “Preguiça Pós-Férias” de “Ansiedade Antecipatória”

É crucial distinguir o desânimo natural do adoecimento.

Sentir uma leve lentidão para retomar o ritmo, querer mais alguns dias de praia ou achar a primeira reunião chata é normal. Isso é a inércia do descanso.

A Ansiedade Antecipatória, porém, é um estado de hipervigilância.

 

Nela, o cérebro projeta o retorno ao escritório não como uma tarefa, mas como uma batalha. Os sintomas são físicos e incontroláveis:

  • Insônia severa na noite anterior à volta.
  • Crises de choro no banheiro ou no carro a caminho da empresa.
  • Dores de barriga (o intestino é o “segundo cérebro” e reage imediatamente ao medo).
  • Sensação de despersonalização (sentir-se robótico ou fora do corpo).

 

Reinaldo Soeira, psicanalista especialista em psicotraumatologia, explica:
“Quando o paciente diz ‘eu não consigo ir’, ele não está falando de uma escolha moral. Ele está descrevendo uma paralisia do sistema nervoso. O corpo dele identificou o escritório como um local de trauma e ativou o modo de congelamento.”

 

O “Choque Térmico” Emocional: Por que dói mais em Janeiro?

Por que essa sensação parece pior agora, no início do ano?

Durante as férias, mesmo que por poucos dias, você permitiu que seu sistema nervoso “baixasse a guarda”. O cortisol (hormônio do estresse) diminuiu, a adrenalina baixou. Você saiu do modo de sobrevivência.

Voltar para um ambiente tóxico,  — onde há assédio moral, metas inatingíveis ou lideranças narcisistas — ou não tóximo, exige que o corpo reative todos os mecanismos de defesa de uma vez só. É um “choque térmico” psíquico.

“Imagine que você passou 15 dias cicatrizando uma ferida aberta. No primeiro dia de trabalho, o ambiente arranca o curativo brutalmente. A dor é muito mais intensa do que quando você já estava acostumado com o machucado,” ilustra o especialista.

 

Ambiente de Trabalho como Gatilho de Trauma

Precisamos falar sobre Trauma Organizacional.

Muitos ambientes corporativos operam sob dinâmicas abusivas que mimetizam famílias disfuncionais: gritos, silenciamentos, gaslighting (fazer você duvidar da sua competência) e punições veladas.

Se você já carrega traumas anteriores (de infância ou relacionamentos), um chefe abusivo não é apenas um “chefe chato”. Ele é um gatilho que reativa dores antigas de humilhação e impotência.

O seu corpo, sábio como é, “lê” o prédio da empresa como uma jaula com um predador dentro. A recusa em voltar não é unprofessionalismo; é instinto de autopreservação. O cérebro grita: “Não volte para lá, lá nós somos feridos!”.

 

O Corpo Mantém a Contagem (Burnout)

Ignorar esses sinais e “forçar a barra” à base de café e remédios é o caminho mais rápido para o Burnout.

A Síndrome de Burnout não acontece de repente. Ela é o resultado final de anos ignorando a taquicardia do domingo à noite.

Janeiro é o mês com maior índice de demissões voluntárias e pedidos de afastamento médico. Não é coincidência. É o momento em que a conta emocional chega e o profissional percebe que o salário não paga o custo do ansiolítico.

 

Estratégias para Sobreviver ao Retorno

Se pedir demissão hoje não é uma opção, como gerenciar essa “Síndrome do Fantástico Turbinada” sem adoecer?

1. Micro-Doses de Realidade

Não tente resolver o ano inteiro na primeira semana. Foque no “hoje”. “Hoje eu só preciso responder e-mails”. Fatie o monstro do trabalho em pedaços pequenos que seu cérebro consiga digerir sem pânico.

2. A Técnica do “Observador Externo”

Em reuniões tensas, tente se imaginar como um antropólogo observando uma tribo estranha. Quando alguém gritar ou for passivo-agressivo, pense: “Olha que comportamento curioso e desequilibrado essa pessoa tem”. Isso cria uma distância emocional e impede que você absorva a agressão como algo pessoal.

3. Crie “Ilhas de Paz”

Garanta que seu almoço seja sagrado. Saia do prédio, não coma na mesa. Use o banheiro para respirar fundo por 2 minutos. Dê sinais ao seu corpo de que, mesmo em território hostil, existem momentos de segurança.

4. Busque Diagnóstico Diferencial

Se a tristeza não passa após a segunda semana e vem acompanhada de perda de sentido na vida, procure ajuda. O que começa como estresse de trabalho pode evoluir para um quadro depressivo maior se não tratado.

 

Conclusão: Seu CPF não vale seu CNPJ (Saúde Mental)

O trabalho é uma parte importante da vida, mas não é a vida. Sentir pânico ao voltar das férias é um sinal vermelho piscando no painel do seu carro. Você pode ignorar e continuar acelerando, mas o motor vai fundir. Ou você pode parar, levar para a oficina (terapia) e entender o que precisa ser consertado — seja a sua forma de lidar com o trabalho ou, quem sabe, o próprio emprego.

2026 pode ser o ano em que você finalmente aprende a trabalhar sem se destruir no processo.

 


Serviço

Autor: Reinaldo Soeira, Psicanalista.

Especialidade: Ansiedade, Burnout e Traumas.

Atendimento: Online.

Saiba mais aqui: https://reinaldosoeira.com.br/quem-sou/

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