O “Lado B” das Festas: Especialista explica como sobreviver a famílias tóxicas e narcisistas no Natal sem reativar traumas

Famílias tóxicas no Natal

Psicanalista alerta que a “regressão emocional” ao visitar a casa dos pais é comum e explica por que impor limites nas festas de fim de ano é um ato de saúde mental, não de rebeldia.

 


 

Para a publicidade, o Natal é sinônimo de mesas fartas e harmonia absoluta. Porém, nos bastidores da saúde mental, a realidade é estatisticamente diferente. Estudos indicam que os índices de estresse familiar disparam na última semana do ano. Para quem cresceu em ambientes desestruturados ou convive com familiares de perfil narcisista, a ceia não é uma celebração, mas um campo minado emocional.

Reinaldo Soeira, psicanalista e especialista em psicotraumatologia, adverte que o sofrimento nesta época vai muito além do simples “tio do pavê”. Trata-se de um fenômeno psíquico complexo que pode desencadear regressões, crises de ansiedade severas e até dissociação.

 

O Fenômeno da Regressão Emocional

Você já sentiu que, ao pisar na casa dos seus pais ou avós, você deixa de ser um adulto independente e “volta” a ser uma criança insegura? Segundo Soeira, isso tem explicação clínica.

 

“É muito comum que pacientes adultos, bem-sucedidos em suas carreiras e relacionamentos, sintam-se subitamente vulneráveis ao reencontrar a dinâmica familiar original. Na psicanálise, chamamos isso de regressão. O ambiente familiar carrega ‘âncoras’ emocionais. Se aquele ambiente foi o palco de traumas, críticas excessivas ou negligência na infância, o cérebro tende a reativar os mesmos mecanismos de defesa daquela época,” aprofunda o especialista.

 

Essa reativação é perigosa porque coloca o adulto em posição de defesa, gerando picos de cortisol e adrenalina que, muitas vezes, resultam em exaustão física pós-festa.

 

Identificando a Dinâmica Tóxica

Para o especialista, o primeiro passo para se proteger é identificar se o ambiente é apenas “chato” ou realmente “tóxico/traumático”. Reinaldo destaca comportamentos padrões em famílias disfuncionais que se intensificam no fim de ano:

 

  1. A Comparação Destrutiva: Comentários que disfarçam críticas sob a forma de “preocupação”, comparando o indivíduo com primos, vizinhos ou irmãos.
  2. O “Gaslighting” Coletivo: Quando a família minimiza dores do passado (“Você inventa coisas”, “Não foi bem assim”) ou rotula quem impõe limites como “o difícil” ou “o sensível demais”.
  3. Violação de Privacidade: Perguntas invasivas sobre corpo, salário, sexualidade ou relacionamentos, feitas publicamente com o intuito de constranger.

 

“Em lares onde há traços de narcisismo perverso, as festas são usadas como palco. O familiar narcisista precisa ser o centro das atenções e, para isso, muitas vezes diminui os outros. Para quem sofreu traumas nesse convívio, cada comentário pode ser sentido como uma nova agressão,” pontua Soeira.

 

Trauma não é Frescura: O Custo Físico do Silêncio

A abordagem da psicotraumatologia traz um alerta importante: o trauma reside no corpo. O corpo guarda marcas“, frase célebre da área, se aplica perfeitamente ao Natal.

Reinaldo explica que muitos pacientes chegam a janeiro com gastrites, enxaquecas, dores musculares crônicas ou crises alérgicas.

O corpo fala o que a boca cala. Suportar um ambiente hostil por horas, ‘engolindo sapos’ em nome da tradição, gera uma carga tensional que precisa ser descarregada de alguma forma. Muitas vezes, isso vira sintoma físico,” detalha.

 

Manual de Sobrevivência para o Natal

É possível passar pelas festas sem novos traumas? O psicanalista acredita que sim, mas isso exige estratégia e, principalmente, desapego da ideia de “salvar” a família.

 

1. A Técnica da “Pedra Cinza” (Grey Rock): Muito usada para lidar com personalidades narcisistas. “Consiste em se tornar desinteressante para o agressor. Responda com monossílabos, não reaja a provocações, não justifique suas escolhas. Se não houver reação emocional, o provocador perde o interesse,” ensina Reinaldo.

2. Tenha uma Rota de Fuga: Não dependa da carona de terceiros. “Tenha autonomia para ir embora na hora que seu limite for atingido. Saber que você pode sair a qualquer momento diminui a ansiedade drasticamente,” orienta.

3. O “Não” é uma frase completa: Você não precisa explicar por que não vai comer tal prato ou por que não vai dormir na casa da tia. “Limites não são pedidos, são avisos. Quem se ofende com seus limites é, geralmente, quem se beneficiava da falta deles,” lembra o psicanalista.

 

Quando o melhor presente é a distância

Por fim, Reinaldo Soeira toca em um tabu: o rompimento. Em casos de abuso severo ou toxicidade crônica, o especialista valida a escolha de passar o Natal longe da família de origem.

“Família é construção, não apenas sangue. Preservar sua saúde mental pode significar criar novas tradições, seja com amigos, com o parceiro ou até mesmo só. Não há culpa em escolher a paz em vez da luta, mesmo que a batalha seja enfeitada com luzes de Natal,” finaliza.

 


Serviço

Fonte: Reinaldo Soeira, Psicanalista e Especialista em Trauma. Atendimento: Psicoterapia Online para traumas familiares, ansiedade e depressão. Site oficial: https://reinaldosoeira.com.br/ Contato: contato@reinaldosoeira.com.br

 

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