O Peso dos Novos Ciclos: Por que datas festivas e encerramentos despertam a sensação de ‘Futuro Abreviado’?

Por que datas festivas causam ansiedade e medo do futuro

Para quem convive com o trauma, virar a página do calendário ou celebrar aniversários pode não ser um ato de esperança, mas um gatilho de medo. Entenda a psicologia por trás da angústia em datas comemorativas.


 

Quando a celebração vira gatilho

Seja na virada do ano, no dia do próprio aniversário ou em grandes feriados, existe uma expectativa social quase obrigatória: devemos estar felizes, renovados e cheios de planos. Porém, para uma parcela significativa da população, essas datas de “renovação” funcionam de maneira oposta. Elas acionam um alarme interno de ansiedade, melancolia e um vazio difícil de explicar.

Se você sente que, em vez de celebrar o futuro, seu corpo entra em estado de alerta durante encerramentos de ciclos, saiba que isso não é “pessimismo”. É uma resposta neurobiológica comum em quem carrega marcas de experiências traumáticas.

Na clínica psicanalítica, observamos que o tempo não passa da mesma forma para todos. Para quem viveu em ambientes de instabilidade emocional, a promessa de um “novo começo” não traz alívio, mas sim a ameaça do desconhecido.

 

O Fenômeno da “Reação de Aniversário”

A psicologia utiliza o termo Reação de Aniversário (ou Anniversary Reaction) para descrever o agravamento de sintomas físicos e emocionais em datas específicas.

O nosso cérebro é uma máquina de associações. Ele marca no calendário interno (muitas vezes inconsciente) as épocas em que nos sentimos sozinhos, abandonados ou em perigo no passado. Quando essa data se aproxima novamente — seja o Natal, o Ano Novo ou o dia em que perdemos alguém —, o corpo “lembra” da dor antes mesmo que a mente consciente perceba.

Reinaldo Soeira, psicanalista especialista em psicotraumatologia, explica: “O calendário é cíclico, e o trauma também tende a ser. Datas festivas que deveriam ser de união, muitas vezes, foram palco de conflitos familiares ou negligência na infância do paciente. Logo, a simples aproximação dessas datas ativa o sistema de defesa, gerando irritabilidade ou desejo de isolamento, mesmo anos depois do evento original.”

 

A Sensação de Futuro Abreviado

Talvez o conceito mais impactante para entender essa angústia seja a Sensação de Futuro Abreviado (Sense of Foreshortened Future). Este é um sintoma clássico, porém pouco discutido, do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Pessoas que convivem com esse sintoma têm uma dificuldade real, quase física, de visualizar a si mesmas a longo prazo. Fazer planos para “daqui a um ano” ou “daqui a cinco anos” parece impossível ou sem sentido.

O trauma ensina ao cérebro que a sobrevivência é garantida apenas no agora. O “amanhã” é incerto demais. Por isso, quando a sociedade exige que façamos listas de resoluções, planos de carreira ou metas grandiosas durante as festas, a pessoa sente uma vertigem.

“É como pedir para alguém correr uma maratona com a perna quebrada. O sistema nervoso da pessoa está focado em sobreviver ao dia de hoje. A obrigatoriedade de projetar um futuro feliz gera uma dissonância cognitiva dolorosa,” pontua o especialista.

 

O Luto pelo Tempo Perdido

Todo encerramento de ciclo traz consigo um pequeno luto. Mudar de ano ou ficar mais velho nos lembra da finitude da vida e, inevitavelmente, daquilo que não vivemos.

Para quem sofre de ansiedade ou depressão, a retrospectiva mental costuma ser cruel. O foco se volta inteiramente para a “falta”: o que não foi conquistado, o amor que não veio, a cura que não aconteceu. Essa contabilidade negativa transforma a época festiva em um tribunal interno, onde o juiz é a própria pessoa, condenando-se por não ser a “versão idealizada” que as redes sociais vendem.

 

A Pressão da Felicidade Editada

Vivemos a era da performance, inclusive emocional. Em datas comemorativas, somos bombardeados por imagens de famílias perfeitas e vidas resolvidas. Isso cria uma “comparação de bastidores contra palco”: você compara os seus bastidores caóticos (sua dor real) com o palco montado (a foto editada) dos outros.

Essa comparação é o combustível perfeito para a melancolia. É vital lembrar que a euforia coletiva das festas é, muitas vezes, um cenário construído, não uma realidade emocional universal.

 

Estratégias para Navegar Novos Ciclos

Como atravessar datas importantes sem sucumbir à exaustão emocional? A chave está em mudar a relação com o tempo e com a expectativa.

 

1. Valide a sua “Não-Celebração” Você tem o direito de não estar eufórico. Tratar o dia 31 de dezembro ou o seu aniversário como “apenas mais um dia” pode ser uma estratégia de proteção válida. Tirar o peso mágico da data diminui a ansiedade de performance.

2. Ancoragem no Presente Se o futuro (o ano que vem, a próxima idade) assusta, volte para o hoje. O sintoma do Futuro Abreviado se alimenta da projeção catastrófica. Práticas de Grounding (aterramento), como sentir os pés no chão, focar na respiração ou em atividades manuais, ajudam o cérebro a entender que, neste exato segundo, você está seguro.

3. Rituais de Continuidade, não de Ruptura Evite a mentalidade de “Matar o velho eu para nascer o novo”. Isso é violento. Tente rituais de continuidade: “O que eu aprendi nesse ciclo que quero levar para o próximo?”. Acolha quem você foi, com todas as falhas. A cura vem da integração, não da exclusão.

4. Busque Ajuda Profissional Se todo final de ano ou data festiva desperta crises de choro, insônia ou pânico, isso é um sinal claro de que há um trauma não processado pedindo atenção. A terapia é o espaço seguro para elaborar esses lutos simbólicos, permitindo que, aos poucos, o futuro deixe de ser uma ameaça e volte a ser uma possibilidade.

 

Conclusão

Ciclos se fecham e se abrem constantemente. Se hoje você não consegue sentir esperança, tudo bem. A esperança não é um pré-requisito para seguir em frente; às vezes, a teimosia de continuar respirando já é o suficiente. Respeite o seu inverno emocional, mesmo que lá fora o mundo exija verão.

 


Serviço

Autor: Reinaldo Soeira, Psicanalista. Especialidade: Trauma, Luto e Ansiedade. Atendimento: Psicoterapia Online. Site: https://reinaldosoeira.com.br/

 

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